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Na “revolta das sardinhas”, Robinhood passou de herói a vilão

Aplicativo que ficou famoso por democratizar o acesso a Wall Street é acusado por usuários de “virar a casaca” e de proteger os “tubarões” do mercado ao bloquear a venda de algumas ações, como a da GameStop

 

Robinhood foi avaliado em US$ 12 bilhões

Quando foi criado, em 2013, o aplicativo de investimento Robinhood tinha como missão honrar seu nome e tirar dos ricos de Wall Street para dar aos “pobres” – no caso, investidores de varejo ou sem experiências que investiam pequenas cifras no mercado de ações.

Com uma interface gamificada, o Robinhood popularizou a compra e venda de ações. E, pouco a pouco, o aplicativo foi ganhando tração e investimentos. Hoje, são 13 milhões de usuários. Fundos como Sequoia Capital e DST Global já aportaram mais de US$ 2,2 bilhões na empresa, que foi avaliada em US$ 12 bilhões.

Agora, essa aura de herói construída a longo dos últimos oito anos pode ruir. Nesta segunda-feira, 28 de janeiro, o Robinhood bloqueou ou limitou o acesso de seus usuários a determinadas ações, como a GameStop, AMC, Blackberry, Nokia, entre outras.

O bloqueio do Robinhood vem na esteira da polêmica envolvendo usuários da rede social Reddit, que combinaram uma ação conjunta para valorizar as ações de empresas em dificuldades financeiras.

A GameStop virou a principal bandeira desse grupo de usuários. Neste ano, a varejista decadente de games viu suas ações dispararem 981%. Mas, nesta quinta-feira, 28 de janeiro, os papéis caíram 44,29% – no after hours, após o fechamento da Bolsa de Nova York, elas estavam subindo mais de 50%.

Nessa disparada das ações da GameStop, os “sardinhas” deixaram diversos “feridos” pelo caminho. Em especial, fundos que apostaram na queda de ação. O caso mais emblemático é do Melvin Capital, que precisou contar com um resgate de US$ 2,7 bilhões para não ir à  bancarrota.

Esse é mais um lance da queda de braço entre usuários do fórum online Reddit e fundos hedge de Wall Street, em episódio que está sendo chamado de a “revolta das sardinhas”, em uma referência a investidores do varejo ou sem experiência. Mas está sobrando também para o Robinhood.

A atitude do Robinhood de bloquear ou limitar a venda de ações conseguiu unir até “inimigos” históricos, como o senador republicano Ted Cruz e a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez.

“Isso é inaceitável. Precisamos saber mais sobre a decisão do app Robinhood de barrar investidores de varejo de comprar certas ações, enquanto fundos de hedge são livres para negociar os papéis que bem entenderem”, escreveu no Twitter a política democrata Alexandria Ocasio-Cortez. O senador republicano Ted Cruz foi um dos que reproduziu o tuíte e apoiou o texto da deputada.

Milhares de usuários, irritados com a barreira imposta pelo aplicativo, foram ao Google Play para avaliar o Robinhood com uma estrela. “Me fez perder dinheiro ao bloquear ações em um momento crítico. Manipulação do mercado e subserviência a fundos hedge em vez de democratizar o mercado aos usuários”, escreveu um dos investidores de varejo que utilizam o Robinhood.

Na internet, usuários e investidores falam de uma ação judicial por aquilo que eles classificaram como “censura”. Se isso avançar, não seria a primeira vez que o Robinhood enfrentaria problemas com a Justiça.

No ano passado, o aplicativo já foi acionado judicialmente pelo governo americano por não ser transparente quanto à sua estratégia de monetização. O estado de Massachusetts também acionou os tribunais alegando que o Robinhood tem controles de segurança pouco satisfatórios.

Apesar do sucesso entre os usuários, o Robinhood já foi alvo de diversas críticas. No ano passado, investidores de varejo compraram ações de outras companhias problemáticas, como a Hertz, que havia pedido concordata, e mexeram na lógica da bolsa.

Isso fez com que investidores experientes acusassem o aplicativo de promover uma espécie de “cassino”, alertando que a brincadeira poderia sair cara. Um dos usuários do Robinhood chegou a tirar a própria vida ao confundir os termos usados pelo aplicativo e acreditar que havia contraído uma dívida.

Ao NeoFeed, o investidor Matt Truck, da First Mark, um fundo que investe em empresas em estágios iniciais, afirma que ainda é cedo para dimensionar os últimos acontecimentos.

“Estamos todos acompanhando de perto os desdobramentos e posso dizer, sem nenhuma dúvida, que o que aconteceu nesta semana é histórico”, diz Truck. “Certamente isso ainda vai reverberar na esfera política e financeira, mas acho prematuro prever algum possível desfecho.”

Em entrevista ao site da CNBC, o CEO do Robinhood, Vlad Tenev, disse que a decisão do aplicativo de parar de negociar com certos nomes especulativos foi do melhor interesse da empresa e de seus milhões de usuários. “Para proteger a empresa e proteger nossos clientes, tivemos que limitar a compra dessas ações”, disse Tenev.

O Robinhood enviou também, por volta das 19 horas (horário de Brasília), um e-mail a seus usuários, afirmando que a suspensão da compra dessas ações foi uma “decisão difícil”, feita para proteger seu ecossistema e seguir as regras locais.

“A partir de amanhã, planejamos permitir compras limitadas desses títulos. Continuaremos monitorando a situação e podemos fazer ajustes conforme necessário”, diz um trecho da nota.

O Robinhood não foi a única corretora a bloquear ou limitar a venda de ações nesta quinta-feira. A Webull Financial, a E*Trade Financial e a Interactive Brokers Group também tomaram atitudes semelhantes.

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