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“Não adianta usar o ESG só para ganhar clientes e dinheiro”, diz CEO do banco ING

Em entrevista ao NeoFeed, o presidente do banco holandês ING no Brasil, Samuel Canineu, fala sobre o movimento ESG, a prática de greenwashing no mercado financeiro e novos produtos que estão surgindo

 

Samuel Canineu, CEO do banco ING no Brasil

Desde o mais recente Fórum Econômico Mundial de Davos, o mundo vem falando mais de sustentabilidade e do chamado Environmental, Social and Corporate Governance (ESG). Mas o tema se acentuou desde o início da pandemia do coronavírus.

Há quem diga que o critério usado para avaliar a governança ambiental, social e corporativa não possa nem ser chamado de onda, mas sim de um tsunami, que vai tomar conta das empresas e, principalmente, do mercado financeiro.

Um dos ícones desse movimento é a gestora BlackRock, com US$ 7 trilhões em ativos sob gestão, personificada por seu CEO Larry Fink. Há, entretanto, um banco que tem trilhado esse caminho há mais de duas décadas. Trata-se do holandês ING.

Com € 891,7 bilhões em ativos, 38,8 milhões de clientes no varejo e presente em mais de 40 países, a instituição financeira foi uma das precursoras do Sustainability Improvement Loan. Trata-se de empréstimos baseados em metas de sustentabilidade e também em indicadores de performance, os KPIs (Key Performance Indicator).

O valor dos juros sobe e desce de acordo com as metas atingidas pela a empresa. Desde redução de emissão de gás, redução de uso de água, criação de empregos ao uso de energia renovável.

Em 2019, o ING foi o segundo banco que mais realizou empréstimos nesse formato no mundo. Foram 65 transações e US$ 6,18 bilhões concedidos. O líder foi o BNP Paribas, com 92 transações e US$ 10,1 bilhões emprestados.

Em entrevista ao NeoFeed, o CEO do banco no Brasil, Samuel Canineu, fala sobre as mudanças no mercado, como as empresas passaram a olhar essa questão do ESG, do famoso greenwashing e revela que o banco está estruturando derivativos atrelados a sustentabilidade. Acompanhe:

Estamos vivendo a onda do ESG, o mundo inteiro falando disso. Como está enxergando esse movimento?
O mundo é um ser vivo. Não adianta um país cuidar da sustentabilidade e o outro não porque o globo vai ser afetado da mesma forma. Vejo de forma superpositiva esse movimento do ESG. No mínimo, há mais informações. Está se criando, a meu ver, uma emergência por conta dos desafios das questões ambientais e sociais.

Você acha que ele é, de fato, genuíno?
Obviamente que, quando acontece uma coisa tão rápida, você tem de parar e refletir, separar o joio do trigo. É bom ter essa conscientização, mas não é bom que as coisas sejam feitas de forma superficial. Elas precisam ser estruturadas, transparentes e efetivas. O mundo não tem tempo para fazer o ESG só de brincadeira.

Tem empresa fazendo ESG de brincadeira?
Primeiro, como organização, você tem que ter uma política de ESG ou de ESR (Environmental, Social and Risk) para falar quais são os seus limites em relação a essas práticas. Então, não adianta você vender para mim, por exemplo, produtos financeiros environmental friendly se, dentro da sua prática, você está fazendo coisas que têm impactos negativos. Não pode ser da boca para fora.

“Não adianta você vender para mim, por exemplo, produtos financeiros environmental friendly se, dentro da sua prática, você está fazendo coisas que têm impactos negativos”

O que garante que no ING não é da boca para fora?
Nossa primeira política de ESG foi criada em 1997. Faz 23 anos e todo ano vamos fazendo um update e vai ficando cada vez mais restrito. Nossa política de ESR nos diz até onde a gente pode ir, que tipo de business podemos fazer para proteger a nossa reputação, o nosso balanço e para que não estejamos envolvidos em questões que venham a danificar o meio-ambiente e a sociedade.

Como as empresas podem fazer isso?
É muito importante fazer um report de sustentabilidade, mas essa é uma das primeiras ferramentas. O nosso primeiro foi em 1996. Umas das principais funções do report é trazer transparência ao mercado. Uma vez que você abre, todos podem cobrar, seja cliente, fornecedor, investidor, consumidor. Isso ajuda muito. Dentro das instituições financeiras estamos bem à frente dos outros players. Isso vem muito da própria sociedade holandesa, de onde o ING vive.

Por quê?
É uma sociedade mais igualitária. Hoje, se o ING não tem boas práticas, o cliente fecha a conta. Qualquer coisa polêmica, mesmo que não seja provada, o cliente, por exemplo, aborda o nosso CEO no supermercado, porque ele é super acessível, e cobra ele. Tivemos que arrumar a casa porque o cliente não tolera.

“Qualquer coisa polêmica, mesmo que não seja provada, o cliente, por exemplo, aborda o nosso CEO no supermercado, porque ele é super acessível, e cobra ele”

Aliás, há dois anos o ING recebeu multa de 775 milhões de euros por não controlar lavagem de dinheiro. Isso não é um problema de governança?
O que aconteceu é que houve práticas de lavagem de dinheiro envolvendo contas do ING e o banco não tinha os controles necessários para evitar essas práticas. E uma parte da multa foi por conta de que o banco investiu menos do que precisava para criar mecanismos contra a lavagem de dinheiro.

O que isso significou para o banco?
Estou há 17 anos na organização e esse talvez tenha sido o maior baque da organização, um divisor de águas. O bom disso foi que investigaram bastante, a população holandesa queria achar um culpado e não achou. Não teve ninguém envolvido criminalmente, não foi alguém que deixou passar vendo o que estava acontecendo. Esse foi o lado bom. O lado ruim é que não há perdão para uma instituição global ter esse tipo de vulnerabilidade.

Mas vai contra os valores do ESG…
Fazendo uma ligação com a questão do ESG, ninguém é perfeito. Está havendo uma conscientização maior e, falando da gente, o mais importante é a direção. Você ter transparência e admitir onde não está fazendo certo, ter metas claras, mensuráveis, ambiciosas e públicas, e caminhar para chegar lá. Não tínhamos os controles? Aprendemos de um jeito muito caro porque a multa foi muito maior do que as quantias que tinham sido transacionadas nas contas do banco. Hoje a tolerância sobre os riscos é bem menor.

O ESG virou moda?
Sim, virou moda. O que me preocupa um pouco, principalmente no mercado financeiro, é que tem muita empresa que contrata umas duas pessoas de ESG e acha que é ficar falando em conferência, fazendo live, monta um ETF para investir com foco em ESG. Mas vai olhar por trás qual é o portfólio, quem essas empresas financiam. Qual é o impacto? O maior impacto que podemos dar para a sociedade não é zerando as nossas emissões de carbono, isso já fizemos há 13 anos. A melhor maneira é através do nosso portfólio de crédito, usando o crédito para incentivar as empresas a fazerem essas melhorias.

“O que me preocupa um pouco, principalmente no mercado financeiro, é que tem muita empresa que contrata umas duas pessoas de ESG e acha que é ficar falando em conferência, fazendo live”

De que forma?
Em 2017, o ING criou o empréstimo cujo preço varia de acordo com um rating de sustentabilidade da empresa. Por exemplo, emprestamos para a Philips e o rating dela é medido pela Sustainalytics. Se o rating melhorar, paga menos; se piorar, paga mais. Esse produto é legal. O produto até então era de green bonds, de green loans, como investir em uma estação de tratamento de água, uma usina eólica. Eram projetos especificamente green, o dinheiro era carimbado e você limita o tamanho do mercado. A sacada foi dar dinheiro para a empresa e se, de maneira geral, melhorar o rating de sustentabilidade dela, ela paga mais ou menos. E ela está unindo a estratégia financeira com a sustentabilidade.

Qual é o modelo de empresa que pode ser considerada exemplo de ESG?
Um grande sinal é quando você abre um report anual da empresa e ela não tem uma seção específica de responsabilidade social e governança corporativa. Está tudo dentro do business. Tipo uma Natura, ela é impressionante nesse sentido, está implícito na estratégia.

Mudou muito a receptividade das empresas a esse tema hoje?
Quando começamos a falar com as empresas no Brasil, era difícil conseguir convencer principalmente o time de sustentabilidade a fazer isso. A impressão que dava é a de que esses times vendiam para o board que essas empresas eram as melhores do Brasil. Mas, na hora de botar à prova, com uma consultoria independente, o pessoal não queria. Hoje a conversa mudou, já vai para a mesa do CEO esse tipo de questão.

Mas tem muito greenwashing no Brasil, não?
Como eu disse, tem empresa que contrata um profissional que faz várias lives e já se diz especialista. E o problema é quando não está no core da empresa. Um exemplo, tem empresas envolvidas em desastres ambientais, em que morreram pessoas, áreas foram devastadas, e tem banco que financia essas companhias sem saber o que aconteceu. Não adianta usar o ESG só para ganhar clientes e ganhar dinheiro.

Como a matriz enxerga hoje a imagem do Brasil em relação ao meio-ambiente?
Lógico que todo o barulho por conta de Amazônia e agora com as queimadas no Pantanal não ajuda.

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