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Nativa digital, NV vai passar por “banho de loja digital” nas mãos do Grupo Soma

Dono de grifes como Farm, Animale e Maria Filó, o grupo de moda Soma quer reforçar o canal digital da NV, comprada no ano passado, considerado muito aquém de seu potencial. A companhia vai investir na renovação dos fornecedores, dos sistemas de tecnologia e nas lojas físicas da marca

 

Criado em 2010, a partir da fusão das grifes cariocas Animale e Farm, o Grupo Soma, desde então, fez jus ao seu nome ao incorporar uma série de novas marcas de moda e acessórios à sua operação. Entre elas, Fábula, Cris Barros e Maria Filó.

Tal estratégia foi também o principal norte da abertura de capital realizada em julho de 2020, quando o grupo captou R$ 1,82 bilhão, sendo R$ 1,35 bilhão na oferta primária. Desse último montante, 47% serão destinados a aquisições. A primeira delas veio em outubro, com a compra da NV, marca digital da empresária Nati Vozza, por cerca de R$ 210 milhões.

Depois de o acordo receber a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), no fim de 2020, e em assembleia de acionistas, em fevereiro deste ano, o Grupo Soma prepara agora os primeiros passos da integração da marca, bastante conhecida por sua presença no digital.

Curiosamente, apesar dessa fama, o Grupo Soma entende que o desempenho no digital da NV ainda está a anos-luz do seu potencial. “A NV é uma marca nativa digital, mas o share desses canais ainda é baixo na receita”, disse Roberto Jatahy, CEO do grupo, em conferência com analistas nesta sexta-feira, 19 de março.

Durante a apresentação, referente ao resultado do grupo em 2020, ele ressaltou um dos pontos para reverter esse cenário na NV. “Temos, por exemplo, muita oportunidade de melhoria da apresentação e da estética dos produtos no site da NV”, afirmou.

Melhorar os sistemas que apoiam a operação da marca é mais uma prioridade no “banho de loja” da marca. Nessa agenda, o grupo vai promover a migração do ERP da NV para o software de gestão da Linx, além de implantar a plataforma de e-commerce e omnichannel da VTEX.

Jatahy também falou sobre outras questões que influenciaram no resultado da NV em 2020. “A NV teve uma receita de R$ 157 milhões no ano, um crescimento de 64%”, afirmou Jatahy. “Mas, claramente, não contava com essa taxa de expansão e poderia entregar mais de R$ 170 milhões.”

Segundo o empresário, o resultado abaixo do potencial veio, especialmente, na esteira de problemas de abastecimento, em virtude da demanda muito acima das expectativas. Essa questão será justamente um dos focos iniciais da integração.

“Uma das primeiras coisas que vamos atacar é o destravamento e a ampliação do sourcing, com o acesso a fornecedores mais adequados”, disse Jatahy. “O varejo feminino tem um modelo muito complexo e essa era uma das restrições de crescimento da NV.”

A estratégia inclui ainda as lojas físicas. Hoje, a NV tem cinco unidades na capital paulista. Em um primeiro momento, o plano é investir em pontos-de-venda mais amplos, já que o grupo entende que com a grande audiência digital da marca, não é preciso dar tanta visibilidade no varejo físico.

“Vamos trabalhar mais com flagships”, disse Jatahy, revelando que a empresa já tem três contratos fechados para inaugurações. “Provavelmente, vamos fechar o ano com seis a oito lojas da marca”, acrescentou.

A atenção ao novo ativo extrapola essas fronteiras e inclui a boa relação com o mercado. Em fevereiro, Nati Vozza se envolveu em uma polêmica quando respondia a perguntas de internautas e foi questionada sobre a existência de supostas cópias de suas peças, produzidas no Bom Retiro, bairro que é um polo das confecções na capital paulista.

Em resposta, a empresária disse que essas peças seriam produzidas em “fábricas de chão sujo, usando matéria-prima de terceira”, o que despertou uma reação negativa no mercado. Posteriormente, Natti se desculpou e disse que sua fala foi tirada de contexto.

“É natural que uma marca nova, com cinco anos, não esteja educada de forma correta. A colocação não foi a melhor possível, mas não houve má intenção”, afirmou Jatahy, sobre o episódio. “Esse tipo de comentário não cabe nos valores do grupo. A Nati já se retratou e, ao longo do tempo, vai se alinhar ao modo como nos comunicamos.”

Polêmicas à parte, o empresário também falou sobre a Soma Ventures, veículo de corporate venture anunciado oficialmente pelo grupo nesta sexta-feira. No radar estão, em especial, marcas de moda em estágio inicial.

“Além do negócio em si, como plataforma, temos obrigação de dar espaço para novos talento e marcas”, afirmou Jatahy. “Outras operações podem surgir, inclusive startups que podem prestar serviços e compor o nosso ecossistema.”

A primeira investida da Soma Ventures também foi anunciada com o lançamento do veículo. Trata-se da marca de fitness Lauf. Jatahy destacou três focos nessa operação: capitalizar a empresa para acelerar seu crescimento, expandir o varejo físico e aprimorar a operação digital.

O grupo não é o único a olhar para esse ecossistema de startups. Em novembro, a Arezzo&Co anunciou a criação do ZZ Ventures, fundo de corporate venture cujo lançamento foi antecipado pelo NeoFeed. O primeiro investimento realizado foi a compra da Troc, startup paranaense que atua no segmento de economia circular, vendendo roupas premium usadas.

Além da Soma Ventures, Jatahy ressaltou que as aquisições de maior fôlego seguem no escopo. “O corporate venture não disputará espaço com acordos mais relevantes”, disse. “Somos uma plataforma e continuamos olhando as oportunidades no mercado.”

Outros negócios menos maduros também foram mencionados. Entre eles, a operação internacional da Farm, lançada há cerca de três anos, que reportou um crescimento de 502% em sua receita de e-commerce no quarto trimestre de 2020. “Estamos com um volume de pedidos grande”, afirmou Jatahy. “E estamos montando um centro de distribuição na região para melhorar a experiência nesses países.”

Resultado

No quarto trimestre de 2020, o lucro líquido do Grupo Soma cresceu 3,1% na comparação anual, para R$ 39,9 milhões. No balanço do ano consolidado, no entanto, a última linha do balanço mostrou um prejuízo de R$ 69,7 milhões, revertendo o lucro líquido de R$ 126,8 milhões, registrado um ano antes.

Já a receita líquida da operação avançou 28,8% entre outubro e dezembro, para R$ 474,9 milhões. Enquanto, no ano, o indicador ficou em R$ 1,24 bilhão, o que representou um recuo de 4,6%.

A receita bruta do e-commerce foi de R$ 209,3 milhões no quarto trimestre, 152,8% superior ao montante reportado um ano antes. Em 2020, o crescimento foi de 157,9%, para R$ 666,2 milhões.

Em relatório, analistas do banco BTG Pactual observaram que a companhia se superou em meio a um “cenário difícil” e destacaram alguns pontos: o portfólio forte e diversificado de nove marcas; o desenvolvimento da estratégia multicanal; e o grande espaço para aquisições.

“Embora a perspectiva seja mais desafiadora para varejistas de roupas, com o fechamento das lojas devido às restrições da Covid-19, vemos o Grupo Soma bem posicionado para uma maior consolidação e mudança digital no setor”, escreveram os analistas Luiz Guanais, Gabriel Savi e Victor Rogatis.

Os papéis da empresa, avaliada em R$ 6,67 bilhões, estavam sendo negociados com alta de 2,91%, por volta das 14h20. Desde o IPO, as ações valorizaram 38,6%, levando-se em conta a cotação do pregão da quinta-feira. No ano, sob essa mesma base, a alta acumulada é de 2,5%.

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