Nem Bolsonaro, nem Lula. O dinheiro do investidor brasileiro "voa" para Joe Biden

Corretoras como Avenue e Stake viram a abertura de contas no exterior dobrar diariamente diante do cenário instável e incerto no País, alimentado por fatores como a pior fase da pandemia, a intervenção na Petrobras e a largada para a eleição de 2022, a partir da anulação das condenações do ex-presidente Lula

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As últimas semanas têm sido marcadas por uma intensa movimentação nas salas e telas das corretoras Avenue Securities e Stake. Voltadas a brasileiros dispostos a aplicar seus recursos nos Estados Unidos, as duas plataformas vêm testemunhando um grande reforço na já crescente demanda por parte dos investidores locais.

Diversos ingredientes ajudam a explicar esse aquecimento. Entre eles, o recrudescimento das taxas de contaminação da Covid-19, enquanto a campanha de vacinação avança lentamente no Brasil. Na política, a intervenção do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras e a dificuldade em aprovar as reformas fortaleceram a instabilidade.

E, na segunda-feira, 8 de março, esse caldeirão ganhou mais um componente explosivo. Com a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Edson Fachin, de anular as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi dada a largada para a disputa presidencial de 2022.

Nesse cenário instável e incerto, o investidor brasileiro passou a olhar para fora do País, em busca de mercados menos voláteis. Na Avenue Securities, a procura dobrou. “A gente abre, em média, mil contas por dia. Desde segunda, estamos superando as duas mil”, afirma Roberto Lee, fundador e CEO, ao NeoFeed.

Fundada em 2018, a Avenue tem hoje uma carteira de 240 mil clientes e US$ 650 milhões sob gestão. E projeta superar o volume de 300 mil clientes ainda no primeiro semestre deste ano.

“Eventos como o que vimos nesta semana disparam movimentos de aversão ao risco”, diz Lee. “Quando sente o risco Brasil no seu cotidiano e começa a ver um futuro diferente do que tinha desenhado, esse investidor busca alternativas aos ativos nacionais.”

Na segunda-feira, na esteira da decisão de Fachin, o Ibovespa encerrou o dia em queda de 3,98% a 110.611 pontos. O dólar comercial fechou em alta de 1,67% a R$ 5,778. Já na quarta-feira, o índice da bolsa brasileira registrou alta de 1,30%, a 112.701 pontos. Mas, durante o pregão, a oscilação foi grande, chegando a 109.998 pontos na mínima e a 112.928 pontos na máxima. A moeda americana, por sua vez, recuou 2,39%, para R$ 5,65.

Roberto Lee, da Avenue Securities, afirma que o número de abertura de contas dobrou

Lee diz que não são apenas os momentos de instabilidade que provocam essa busca por investimentos internacionais. Eventos de grande euforia têm efeito semelhante. “Nosso recorde anterior de abertura de contas foi após a eleição do presidente americano Joe Biden”, afirma o fundador da Avenue.

Por conta do interesse crescente que já vinha sendo registrado nos últimos meses, a empresa estava preparada para dar conta do aumento da demanda. Hoje, a equipe da Avenue tem pouco mais de 100 funcionários. A infraestrutura da corretora é toda baseada em nuvem e, segundo Lee, ainda está longe de sua capacidade máxima.

A australiana Stake também identificou um aumento na demanda dos investidores brasileiros. “Isso teve início com o evento Petrobras”, afirma Paulo Kulikovsky, diretor-geral da Stake na América Latina. “O crescimento na abertura de contas teve um aumento de 50% nas últimas duas semanas.”

Kulikovsky ressalta o aumento de 5% a 7% nos tíquetes dos investimentos realizados por brasileiros na plataforma da Stake. “Só não foi melhor porque o dólar está muito alto”, afirma Kulikovsky. Hoje, a Stake tem 15 mil clientes no Brasil. Outros 275 mil estão distribuídos entre Austrália, Nova Zelândia e Inglaterra, os outros mercados onde atua.

Paulo Kulikovsky, da Stake, diz que o efeito Petrobras também contribuiu

A equipe da corretora tem 70 pessoas, sendo 17 delas alocadas no Brasil. A meta é transformar o País em um hub para apoiar as operações globais da empresa, especialmente na área de atendimento ao cliente. “A gente brinca que a empresa não foi fundada no Brasil, mas o País vai ajudar a torná-la global”, afirma Kulikovsky.

A grande vantagem dessa movimentação recente é fazer com que o investidor se acostume a alocar recursos nos Estados Unidos. “Sempre defendi que o brasileiro deveria ter uma parte substancial de seu patrimônio fora do Brasil. É uma questão de diversificação”, diz Roberto Attuch Jr., fundador e CEO da casa de análise Ohmresearch.

“É importante não correlacionar sua renda com o seu patrimônio”, diz Attuch. “Uma vez que a nossa renda depende muito de o Brasil e do nosso negócio ir bem, faz sentido ter sua poupança não correlacionada”. Por isso, ele acredita que a busca por ativos internacionais vai seguir crescendo.

Apesar da aceleração observada nas últimas semanas, Lee, da Avenue, reforça que o crescimento dos ativos estrangeiros na cesta de investimentos dos brasileiros será gradual. Mas destaca: “É muito improvável que a vida financeira se restrinja ao Brasil na próxima década”, afirma. “Eu acredito que até 50% do portfólio de investimentos será internacional.” Se essa previsão se concretizar, será, de fato, um grande salto. Afinal, hoje não passa de 1%.

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