No mercado de luxo, os diamantes são eternos (e de laboratório)

Os diamantes cultivados ganham impulso no mercado de luxo com o investimento de US$ 90 milhões da LVMH Luxury Ventures na fábrica israelense Lusix, uma das maiores referências no setor

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O diamante de laboratório tem seu apelo por ser uma alternativa de menor impacto ambiental

Os diamantes de laboratório tiveram, enfim, o sinal verde do mercado de luxo. A LVMH Luxury Ventures, braço de private equity da holding francesa LVMH, que detém marcas como Louis Vuitton, Dior e Tiffany & Co., investiu US$ 90 milhões ao lado de Ragnar Crossover Fund e More Investments, no Lusix, laboratório israelense de gemas cultivadas.

O recurso será usado para a ampliação da fábrica, que funciona com painéis solares, quintuplicando sua produção. “As implicações desse investimento tanto para a Lusix quanto para o segmento de diamantes cultivados em laboratório são profundas e muito empolgantes”, disse em comunicado Benny Landa, fundador da Lusix, fabricante considerada referência em inovação no setor.

A iniciativa não significa a introdução das pedras fabricadas nas marcas de alta joalheria do conglomerado como Tiffany ou Bulgari. Pelo menos, por enquanto. Em abril, contudo, a Tag Heuer, uma das 75 grifes do grupo, usou diamantes de laboratório pela primeira vez em uma de suas peças expostas na feira Watches & Wonders, em Genebra, na Suíça.

A movimentação do grupo reforça o momento de expansão do setor que ganhou os holofotes em 2015, quando Leonardo DiCaprio – que atuou no filme Diamante de Sangue – tornou-se um dos principais investidores da Diamond Foundry, startup californiana que produz diamantes de laboratório, levantando US$ 100 milhões no seu início.

No ano passado, a Diamond Foundry anunciou a instalação de sua fábrica na Extremadura, na Espanha, com produção destinada a chips de cristal de diamantes para semicondutores e também a indústria joalheira. A maior produtora de diamantes do mundo, por sua vez, a britânica De Beers, lançou em 2018 a Lightbox Jewelry, sua primeira linha com diamantes feitos em laboratório.

Recentemente, a Pandora, considerada a maior fabricante de joias do mundo, também aderiu a tendência. Um ano após lançar sua primeira coleção no Reino Unido com joias com pedras de laboratório, a rede dinamarquesa anunciou que suas peças serão feitas a partir de gemas cultivadas.

O diamante cultivado também entrou no anel de noivado, o principal termômetro de desempenho do mercado americano de joalheria. Em março, pós-Valentine’s Day, houve um aumento de 63% nas vendas da peça com diamantes fabricados em relação ao ano passado, e uma diminuição de 25% na compra de anéis com a pedra natural, segundo informações do analista independente do mercado de diamantes, Edahn Golan.

Écio Morais, do IBGM: diamante de laboratório é tendência crescente

O diamante de laboratório tem seu apelo por ser uma alternativa de menor impacto ambiental e humano, já que substitui a extração – por vezes, ilegal – de minas tradicionais. Além disso, a fabricação de gemas em laboratórios de alta tecnologia (submetem o átomo de carbono à alta temperatura e pressão) garantem as pedras as mesmas características físico-químicas da gema natural. A diferença entre as pedras só pode ser identificada por um gemólogo, com o uso de equipamentos de maior precisão.

Além disso, com o aumento da produção seu custo está ficando cada vez mais atraente, podendo custar até 30% menos que um diamante de mineração. Mesmo assim, ainda há muitas divergências no setor joalheiro sobre a adoção ou não dessas gemas.

“A gema de laboratório não tem a mística que envolve o mercado da joia, de ser única e forjada ao longo de milhares de anos. Mas é uma gema verdadeira e artificialmente bonita, uma tendência impactante, que veio pra ficar e vai crescer. Hoje, ela está no radar de todo diamantista”, explica Écio Morais, diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos.

Depois de crescer entre 6 milhões e 7 milhões de quilates em 2020, a expectativa é que em 2030 a produção mundial de diamantes de laboratório seja de 19,2 milhões de quilates, de acordo com um relatório do AWDC e da consultoria Bain & Company. Quem puxa boa parte desses números são as gerações mais jovens, de olho no consumo ético e sustentável.

“O que temos visto é que o público mais velho e com maior faixa de renda prefere a pedra natural, enquanto o público mais jovem, e mesmo aqueles que têm maior poder aquisitivo, prefere o cultivado”, afirma Morais.

No Brasil, as maiores redes varejistas de joias, como Vivara e Monte Carlo, ainda não cogitam adicionar pedras cultivadas em suas coleções. Mas o mercado nacional já abriga joalherias autorais que buscaram diferenciação ao apostar nos diamantes fabricados.

Uma delas é a Tantum, que estreou no país em 2019 com objetivo de ser uma joalheria que não gera o impacto da mineração. Idealizada por Nathan Gilbert, a Tantum vende suas coleções com gemas cultivadas apenas online, e, mesmo com a pandemia, viu sua receita crescer 10% ao ano.

Anel com diamantes de laboratório da Tantum (R$ 2.730), 25% menos que com gemas de mineração

“Nossa aposta é que os diamantes de laboratório vão crescer cada vez mais, as pessoas só precisam descobrir que isso existe e já está no Brasil”, vislumbra Gilbert, CEO da Tantum.

As pedras da marca são fabricadas na Europa, já que o Brasil ainda não dispõe de laboratórios com essa tecnologia, mas todo o design das joias é criado por Gilbert, que está há mais de 30 anos no segmento.

Em 2021, a joalheria paulistana Gaem, de Luna Nigro e Julia Blini, chegou ao mercado para com a mesma proposta. Com vendas no online e atendimento com hora marcada no showroom da marca em São Paulo, as joias são assinadas pelas duas fundadoras, que estudaram no Studio Berçot, em Paris.

“Não sabíamos como o público brasileiro iria reagir, mas até agora temos tido um retorno muito positivo e encorajador. Os lab grown diamonds já sofreram muito lobby contra, mas acreditamos na evolução e eles são o futuro”, completa Luna.

Além do menor impacto ambiental e da acessibilidade, há o aumento da demanda global pela gema cultivada como alternativa a pedra natural que sofreu quebra no fornecimento durante a pandemia. Em 2021, a suspensão de extração impactou diretamente a cadeia de suprimentos dos artigos de luxo, elevando o preço do diamante natural e diminuindo a disponibilidade da pedra.

Depois de atingir 152 milhões de quilates em 2017, a produção caiu para 111 milhões no ano passado, segundo relatório do AWDC e da consultoria Bain & Company. Além disso, com a guerra na Ucrânia, a companhia russa Alrosa, uma das maiores produtoras do mundo, foi cortada como fornecedora de diamantes em muitos países.

“Temos observado no mercado a dificuldade de ofertas. A guerra impactou o que já estava impactado, e, se ela se prolongar, porque assim as sanções econômicas também tendem a continuar, essa defasagem na indústria vai acabar beneficiando a produção e o consumo dos diamantes de laboratório”, analisa Écio Morais.

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