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O adeus emocionado de Tina Turner, uma “força da natureza” nos palcos

“Tina”, documentário exibido na Berlinale, marca a despedida da cantora, que vendeu mais de 100 milhões de discos, conquistou 12 Grammys e foi uma das primeiras artistas a quebrar o silêncio sobre violência doméstica

 

Cena do documentário “Tina”

Aos 81 anos, Tina Turner diz adeus ao público com um documentário que celebra o seu legado profissional e pessoal. “Tina” resgata tanto a cantora de voz inconfundível e performances eletrizantes quanto a mulher de vida sofrida que deu a volta por cima.

Exibido no recém-encerrado Festival de Cinema de Berlim, o filme é todo pontuado por trechos de uma entrevista atual com Tina, que fez história no rock e no pop. O seu concerto no Rio de Janeiro, em 1988, diante de uma multidão de 180 mil pessoas no estádio do Maracanã, até hoje representa o maior público pagante de um show de uma artista mulher, segundo a Billboard.

De um hotel de luxo na Suíça, onde mora desde 1995, a cantora se emociona várias vezes no documentário, realizado por encomenda da própria para marcar a sua despedida da vida pública. “Tina”, ainda sem data para estrear na HBO no Brasil, foi produzido pelo marido da estrela, o empresário alemão Erwin Bach.

A artista que vendeu mais de 100 milhões de discos em seis décadas de carreira ainda cantava em pequenos eventos, apesar de não fazer mais grandes shows desde 2008. Sua última aparição pública foi na noite de abertura de “The Tina Turner Musical”, na Broadway, em novembro de 2019.

Considerada uma das maiores artistas de todos os tempos, vencedora de 12 Grammys, Tina teve uma infância pobre e aprendeu a cantar no coral da igreja, no Tennessee. Quando foi abandonada pelos pais, aos 15 anos, Tina, que ainda era Anna Mae Bullock (seu nome de batismo), foi forçada a trabalhar, cantando em boates.

Aos 17, ela conheceu Ike Turner, o cantor e produtor que a lançou. Em pouco tempo, eles formaram uma dupla musical e se casaram. Juntos alcançaram grande popularidade, graças principalmente aos concertos dançantes que chamavam a atenção na cena do rhythm and blues (R&B). Já nessa época, Tina dominava o palco com sua forte presença e seus movimentos frenéticos.

Apesar do sucesso do casal, o que incluiu a conquista de um Grammy, como melhor performance de R&B por dueto ou grupo, com “Proud Mary”, em 1972, a união com Ike foi a pior fase da vida de Tina. Foram 16 anos de violência física e psicológica sofrida nas mãos de um marido alcoólatra e viciado em drogas – Ike morreu em 2007, de overdose de cocaína.

“Foi no feriado de 4 de julho de 1976 que eu consegui a minha liberdade”, recorda Tina, na entrevista que deu aos diretores do filme, Dan Lindsay e T.J. Martin. Depois de apanhar do marido, a cantora deu finalmente um basta, deixando tudo para trás. Para recomeçar do zero, ela renunciou a tudo no processo de divórcio, pedindo para ficar apenas com o nome Tina Turner.

Aos poucos, ela conseguiu construir uma carreira solo, por ter uma voz poderosa, variando das notas mais graves para as mais agudas. Suas performances sempre hipnotizaram a plateia, com uma energia contagiante, uma forte sensualidade e muito fôlego para cantar e dançar, com as belas pernas à mostra.

A consagração veio com o lançamento do álbum “Private Dancer”, em 1984, um êxito mundial, vendendo mais de 10 milhões de cópias. A faixa “What’s Love Got to Do with It” alcançou o número um na Billboard Hot 100, fazendo dela, aos 44 anos, a cantora mais velha a chegar ao topo do prestigiado ranking.

Apesar de todo o sucesso, nos encontros com a mídia, a dama do rock era frequentemente questionada sobre o seu passado com Ike. “Eu ficava deprimida”, afirma Tina, que acabou convencida por seu empresário, Roger Davies, a escrever um livro.

“A princípio, eu não tinha interesse em contar aquela história ridiculamente constrangedora da minha vida. Mas senti que seria um jeito de fazer a imprensa me deixar em paz”, completa a cantora, no filme.

Na autobiografia “I, Tina”, lançada em 1986, a artista contou os abusos que sofreu durante o casamento com Ike. E o livro acabou virando filme, “Tina – A Verdadeira História de Tina Turner”, em 1993, com a atriz Angela Basset no papel-título. Mas Tina nunca viu a obra, para não ser forçada a revisitar o passado ruim.

“Você não quer lembrar essas coisas. Se pensar nisso novamente, o cérebro acha que você quer reviver, e a cena volta, como uma maldição”, afirma a cantora, no documentário.

Mas o próprio filme ajuda a sedimentar a imagem de Tina como sobrevivente de abuso. A intérprete de hits como “The Best” e “I Don’t Wanna Lose You” é destacada no documentário como uma das primeiras artistas a quebrar o silêncio sobre violência doméstica no showbiz.

Oprah Winfrey, que revelou ter fugido de casa na adolescência por sofrer abusos sexuais, dá depoimento a respeito. A apresentadora de tevê lembra que ela e Tina admitiram publicamente os seus traumas quando isso ainda era um tabu na indústria do entretenimento. “Ninguém falava de abuso sexual, abuso físico, violência doméstica ou de qualquer abuso”, diz Oprah.

A força de Tina para reescrever o seu destino, apesar de tudo o que viveu, possivelmente ajudou a aumentar a sua popularidade. Aos olhos de seus fãs, sua capacidade de superação a tornou ainda mais admirável.

“Eu deveria ter orgulho. E tenho”, conta Tina, emocionada, nos momentos finais do filme. E para fechar a despedida da estrela, o documentário ganha o tom de celebração. São imagens da cantora no seu auge, em um de seus shows, para que o espectador nunca se esqueça de quem ela foi nos palcos: uma “força da natureza” – até hoje a melhor maneira de descrever Tina em ação.

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