Negócios

O CEO do grupo educacional de medicina Afya propõe uma terceira via para o isolamento social

Em entrevista ao NeoFeed, o CEO da rede de faculdades de medicina, Virgilio Gibbon, defende a quarentena horizontal nos estados mais afetados. Mas entende que, para girar a economia, é preciso adotar regras diferenciadas de isolamento em cada região

 

Virgilio Gibbon, CEO da Afya

Em meio à dura guerra contra o coronavírus, uma batalha paralela, mas com influência decisiva nesse combate, chama a atenção. De um lado, estão aqueles que defendem o isolamento horizontal, a fim de conter o avanço do surto e reduzir as mortes causadas pela pandemia.

Na trincheira oposta, impulsionados pelo presidente Jair Bolsonaro, encontram-se os partidários da quarentena vertical, com a tese de que esse modelo deveria ser priorizado para evitar um colapso na economia. E, por consequência, na vida de muitos brasileiros.

Economista de formação e CEO da rede de faculdades de medicina Afya, Virgilio Gibbon está diretamente ligado às duas premissas que alimentam esse fogo cruzado. E, a partir dessa posição privilegiada, consegue enxergar uma alternativa capaz de unir essas duas correntes.

Para o executivo, está claro que estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, com maior número de casos, devem permanecer em isolamento horizontal. “Mas não se pode parar o Brasil todo ao mesmo tempo”, diz Gibbon, em entrevista exclusiva ao NeoFeed. “Precisamos de uma liderança central, que consiga definir regras diferenciadas para cada região, apoiada por dados, estatísticas e inteligência.”

À frente da Afya, Gibbon ressalta que a empresa tem totais condições de resistir à crise. Idealizado por Paulo Guedes antes de virar ministro da Economia, fundado em 2019 a partir da fusão entre a rede de faculdades de medicina NRE Educacional e a Medcel, empresa de cursos preparatórios para residência médica, o grupo abriu capital na Nasdaq, em julho de 2019.

No IPO, a Afya captou US$ 300 milhões. E, em 2019, contabilizou outros bons números. A receita líquida cresceu 124,8% no período, para R$ 750,6 milhões. Já o lucro líquido ajustado foi de R$ 237 milhões, alta de 137,4%. A empresa fechou o ano com mais de 21 mil alunos.

Capitalizada, a empresa tem investido em iniciativas para minimizar os impactos da crise em sua cadeia. Durante a entrevista, Gibbon falou sobre essas ações e outros temas relacionados à pandemia. Confira:

O ano de 2019 foi o primeiro depois da fusão que gerou a Afya. Como essa operação está evoluindo?
O ano foi marcado por uma expectativa muito grande associada ao nosso IPO. E nós entregamos tudo o que prometemos. Não só crescimento orgânico, mas receita, rentabilidade, qualidade e reconhecimento da nossa plataforma. E aí viramos a página para 2020 e encontramos pela frente essas duas grandes ondas. Uma crise global de saúde e, associada a ela, uma crise econômica gigantesca. E a empresa inserida no setor de educação e de medicina, que passa a ser o epicentro de um desafio sem precedentes na história.

Como a Afya está reagindo a essa crise?
A primeira preocupação foi olhar para dentro de casa e para a saúde dos nossos funcionários, professores e alunos. Estamos muito concentrados em cidades pequenas, de regiões mais carentes, principalmente no que diz respeito à saúde. Cerca de 70% da operação está no Norte e Nordeste, onde a média de médicos para cada dez mil habitantes é menor do que o padrão africano. Nós mantemos convênios com mais de 60 hospitais nessas regiões. Então, temos uma responsabilidade social muito grande.

Vocês estão desenvolvendo alguma iniciativa para apoiar essa rede?
Nós antecipamos boa parte dos convênios e viabilizando a receita para esses hospitais. E separamos, nesse primeiro momento, R$ 1 milhão para a doação de kits de teste e equipamentos de proteção individual (EPIs) a instituições nos estados onde atuamos. E, dependendo do pico da pandemia, vamos usar todas as nossas estruturas para auxiliar o tratamento dos pacientes.

A Afya está investindo em outras medidas externas?
Na nossa operação, temos dez escolas de medicina que usam nossa plataforma de ensino, no modelo B2B, que é muito estratégico para a Afya. E nós decidimos abrir essa plataforma para outras instituições. Desde a semana passada, 50 instituições demonstraram interesse e 27 já aderiram, sendo 15 privadas e 12 públicas. É vital manter a aprendizagem médica nesse momento.

E dentro de casa, o que a empresa tem feito?
Suspendemos nossas atividades no início da semana passada. E, em três dias, viramos 100% das nossas aulas para o formato de telepresença. Não queremos parar, de forma alguma, nossa operação. Nós entendemos que, hoje, ter um médico explicando a crise e acalmando os alunos, inclusive para ajudar no processo, com eventuais editais que o governo faça, é muito importante.

E quanto aos funcionários?
Todas as equipes da área corporativa também estão em home office. São mais de 4 mil funcionários. Nós temos uma operação muito saudável e uma situação de caixa favorável e suficiente para passar por esse inverno. Captamos US$ 300 milhões no IPO e US$ 87 milhões em um follow on, em fevereiro. Por isso, estamos antecipando os bônus desses profissionais e mantendo a carga horária e o valor da hora/aula para todos os nossos docentes.

“Estamos antecipando os bônus dos funcionários e mantendo a carga horária e o valor da hora/aula para todos os nossos docentes”

Mas se essa crise se prolongar, há algum risco para a empresa?
Nossa operação é muito resiliente. Não esperamos grandes problemas com evasão ou inadimplência. O aluno de medicina tem um perfil diferenciado. É extremamente disciplinado e tem, na média, uma renda mais elevada. O impacto, apesar de existir, é menor. E temos muitas escolas em maturação, que ainda não formaram alunos, além das novas turmas que vão ingressando. Isso nos permite ter um crescimento orgânico e sustentável, em média, de 11% até 2026.

E quanto ao crescimento inorgânico? A crise traz algum impacto?
Temos um pipeline bem mapeado de aquisições. E não apenas de instituições de ensino médico, mas também de empresas de tecnologia, com plataformas que possam agregar serviços aos profissionais da área. Desde sistemas de gestão para clínicas até ferramentas de inteligência artificial para dar suporte a diagnósticos. Crises como essa podem abrir oportunidades de consolidação, pois quando a maré baixa, você consegue ver quem está bem ou mal vestido. Mas, nesse momento, vamos ser mais conservadores e esperar os efeitos para tomar a decisão correta, no tempo correto e sem sobressaltos.

E você vê algum possível efeito para o setor de educação?
Em algumas assembleias, como no Rio de Janeiro, há deputados com projetos de lei propondo descontos de 20%, 30% nas mensalidades no ensino fundamental e no ensino médio. É um absurdo. Você não resolve o problema do pai e cria um problema gigantesco para as escolas, que estão fazendo um esforço tremendo para migrarem suas operações, treinando professores, contratando licenças de plataformas. E, ao mesmo tempo, têm contratos de aluguel ativos, impostos. Aí vem alguém e sugere reduzir 30%? Isso tem um efeito multiplicador perverso na economia.

O modelo de isolamento tem gerado muita polêmica em torno do que deve ser priorizado nesse momento: reduzir os impactos na saúde ou na economia. Você, como economista e executivo de um grupo de ensino na área da saúde, como enxerga essa questão?
Eu estou bem no meio da fogueira. Teoricamente, o que é melhor? Quando você começa a ter efetividade no achatamento da curva do número de casos, comprovada estatisticamente, é a hora de reduzir os efeitos da quarentena horizontal. O problema é que a velocidade que estamos medindo essa primeira variável no Brasil é muito baixa.

Qual seria o modelo ideal para alcançar esse equilíbrio?
Eu certamente reforçaria muito a parte da inteligência, da estatística, do mapeamento do que está acontecendo em todos os estados. E definiria regras claras de isolamento por região. Está claro que São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais devem ter regimes diferentes de quarentena. Agora, não se pode parar o Brasil todo ao mesmo tempo. É absurdo. Precisamos de uma liderança central, que consiga definir regras completamente diferenciadas por região. E trabalhar muito a parte de inteligência para apoiar essas decisões.

“Precisamos de uma liderança central, que consiga definir regras completamente diferenciadas por região”

Há uma guerra declarada entre o presidente Jair Bolsonaro, governadores e demais poderes. Quem poderia exercer esse papel de liderança?
Já está provado que a forma de comunicar não está sendo a mais efetiva. Mas você tem o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que está se saindo acima do esperado numa crise como essa. Tem o próprio Paulo Guedes, que tem um papel fundamental para minimizar as perdas econômicas. Os dois são pessoas capacitadas, tecnicamente. E não só podem como devem assumir um papel de liderança. O Mandetta já está dando a cara a tapa há muito mais tempo, de uma forma muito mais ativa do que todos os outros. Do lado do governo, esses dois precisam ter papel preponderante. Até pela resistência política que tem a figura do presidente.

Essa desconexão não piora ainda mais a situação?
O governo está aprendendo. Assim como nós. Sou executivo de uma empresa de quatro mil funcionários. Eu tinha uma visão há duas semanas e estamos aqui agora. A cada dia muda completamente. Imagina se esse negócio explode para 30 mil casos e mil mortes por dia? Vai ser um caos. Cidades como São Paulo, Rio e Belo Horizonte, que têm grande concentração de trabalho, começaram a trabalhar cedo e tiveram decisões acertadas. A questão agora é o timing. Ainda não é o momento de liberar. Não sou especialista para falar quantos dias mais deveria ser. Mas espero que a gente tome a decisão correta, que minimize os impactos. Porque vamos ter sacrifícios dos dois lados.

Paulo Guedes, quando era sócio da Bozano Investimentos, foi um dos idealizadores da Afya. Como você avalia a atuação do ministro e da sua equipe nessa crise?
Eu tive contato com o Paulo muito lá atrás. Mas tenho uma admiração como economista desde antes. O governo, a cada dia, vem soltando uma infinidade de pacotes para minimizar o colapso no desemprego: a medida provisória para socorrer pequena e média empresa, os R$ 600 para os autônomos. O que acontece numa crise como essa é que a velocidade de circulação da moeda passou para zero. É um negócio realmente assustador.

E quais seriam os melhores caminhos para combater esses efeitos?
A melhor forma é injetar recursos para quem mais precisa, a população de baixa renda, que é quem mais sofre. Faz isso e economia freia menos, gera movimentação. É preciso ter uma política fiscal expansionista. Mas tem que fazer. Agora, o governo está começando a abrir os cofres pra tentar minimizar esse impacto. A arte aqui está em ter, primeiro bom senso. Por exemplo, é preciso parar as picuinhas do nosso executivo com a imprensa.

É possível tirar algo de positivo dessa crise?
Talvez uma reflexão de como podemos ajudar o próximo. E não pensar individualmente. E falo isso tanto no plano da pessoa física como no das empresas e países. Acho que, nesse turbilhão, esse é o grande aprendizado para as futuras gerações.

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