O governo quer aprovar as reformas? Alexandre Schwartsman acredita que não

Em entrevista ao NeoFeed, o ex-diretor do Banco Central (BC) diz que o governo federal não se empenha para a aprovação das reformas. Mas que isso não é necessariamente uma má notícia

0
286
Leia em 11 min

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC e ex-economista-chefe do Santander (Foto: Claudio Belli/Valor/Editora Globo)

Em 2018, quando surgiu como o nome forte do então candidato Jair Bolsonaro para ser o fiador de uma agenda liberal no governo, o economista Paulo Guedes era tratado pelo mercado financeiro como a salvação da economia brasileira.

Uma de suas promessas mais famosas falava em zerar o déficit público do País já no primeiro ano do mandato. Três anos depois, a agenda não avançou como se imaginava e o agora ministro não goza mais do mesmo prestígio. Embora o presidente Bolsonaro seja apontado pelo mercado como o principal culpado, também há quem pense que a conta tem de ser dividida com Guedes.

É o caso do economista Alexandre Schwartsman, que afirma nunca ter “comprado” o discurso de Guedes e ter dúvidas sobre a real intenção do ministro para seguir com a agenda de reformas.

“Tivemos várias oportunidades de avançar com a tributária, mas não avançou, em parte, porque o governo não quis”, diz Schwartsman, em entrevista ao NeoFeed. “O Paulo Guedes passou um tempão insistindo na história de CPMF. Não consigo entender a razão.”

Ele reconhece, porém, que uma saída do ministro não necessariamente melhoraria a situação. “Dizem que o fundo do poço é só um estágio”, afirma. “Desconfio que qualquer um no lugar dele seria ainda pior, com a mesma superficialidade, mas sem o poder de sedução que ainda existe para os caras que colocam estátua dele na Av. Faria Lima.”

Ex-diretor do Banco Central (BC) e ex-economista-chefe do Santander, Schwartsman acredita que a Selic deve subir para algo em torno de 9% ao ano, mas entende que a autoridade monetária deveria ser mais rápida na elevação dos juros. “Nesse ritmo, vai chegar em 9% talvez em março. E aí sobra muito pouco tempo para afetar a inflação de 2022”.

O economista, que hoje está à frente da consultoria Schwartsman & Associados, também falou sobre perspectivas para a atividade econômica, inflação, desemprego, eleições e cenário fiscal. Acompanhe:

O Banco Central (BC) elevou a Selic para 6,25% ao ano e as projeções estão cada vez maiores. Já dá para imaginar uma taxa de juros a dois dígitos?
A Selic a dois dígitos é possível. Mas, pelas minhas contas, o BC precisaria levar a taxa para algo em torno de 9%, para fazer a inflação convergir para a meta em 2022 (3,5%) e 2023 (3,25%). Mas já tem gente falando em 9,75%, como a Solange Srour (economista-chefe do Credit Suisse no Brasil), o que é quase dois dígitos. É uma possibilidade, mas não é o cenário mais provável. Mas não é só o juro que vai fazer a inflação cair. Tem muita água para rolar. A depender da turbulência política no ano que vem, podemos ver o dólar (hoje em R$ 5,30) voltar a beliscar R$ 5,60 ou talvez até mais, o que seria mais uns 8% de desvalorização cambial, o que tem um impacto na inflação.

A inflação deve ficar acima de 8% neste ano e as expectativas do mercado para o ano que vem giram em torno de 4%. Não seria uma diminuição brusca?
É muita brusca, sem dúvida. Mas é preciso lembrar que a inflação de 2021 está vindo de fenômenos que nós imaginamos que não irão se repetir. A última projeção do BC aponta aumento de quase 14% para os preços administrados em 2021 e de 4% para 2022. São 10 pontos porcentuais de queda e só isso já tira 2,5 pontos da inflação. Outra coisa: houve um baita aumento de preços de commodities lá fora, com desvalorização simultânea do preço real. Houve aumento de quase 80% dos preços das commodities em dólar. Não há indicação de haver uma nova rodada de aumentos com essa magnitude. Dificilmente esses choques vão se repetir no ano que vem. Há, então, alguma desinflação encomendada.

Mas a inflação não está se espalhando?
Sim, a inflação não é só isso e está se disseminando. A inflação de serviços está rodando em 0,5% por mês, o que é bastante. Então, tem uma parte que depende da política monetária e outra parte depende um pouco de sorte, como não ter uma crise energética que nos faça ter bandeira vermelha o ano inteiro (para a tarifa de energia) ou não ter outra rodada de aumento de preços de commodities.

O ritmo do BC para subir os juros está bom?
Eu estaria indo um pouco mais rápido. Provavelmente, a posição final do juro será em torno de 9%. Quanto mais cedo chegar a 9%, maiores são as chances de fazer a inflação chegar à meta em 2022. Nesse ritmo, o juro vai chegar em 9% talvez em março. E aí sobra muito pouco tempo para afetar a inflação de 2022. Aliás, quando chegar em março, praticamente estaremos olhando para 2023. Nessa velocidade, não entrega na meta. Mas que vai “desinflacionar”, vai.

“Nesse ritmo, o juro vai chegar em 9% talvez em março. E aí sobra muito pouco tempo para afetar a inflação de 2022”

Também existe o risco fiscal nessa conta?
É uma combinação. De uma lado, a questão fiscal. Do outro, a questão política. Não dá para ignorar os canais de alimentação de um para outro. Para resolver a questão fiscal, existe a necessidade de uma série de reformas. Para isso, é preciso querer fazer reformas e ter condições de fazer reformas. Do jeito que está sendo desenhada a sucessão, ou teremos um governo que se mostrou incapaz, e um presidente (Jair Bolsonaro) que nunca foi muito fã, ou o PT, que não tem rigorosamente nenhum comprometimento com isso. Então, se não houver uma alteração dos rumos políticos, podemos ter uma turbulência séria, porque a questão fiscal vai continuar como é hoje.

Se esse é o cenário, parece que o futuro da questão fiscal está claro. Ou há uma esperança de não ser esse o cenário da eleição?
Olhando os preços de mercado, eu não saberia responder se o mercado tem alguma esperança em outra possibilidade ou se os preços, hoje, de alguma forma, já refletem isso. Ninguém tem uma boa resposta. Alguns dizem que isso já está nos preços. Bem ou mal, o dólar está em R$ 5,30, R$ 5,35, enquanto as estimativas de valor justo apontam para um dólar bem mais barato. Talvez já esteja nos preços. Eu não estou 100% convencido disso. Acho que resta alguma esperança. Há muito tempo até a eleição e muita coisa pode acontecer. Se não acontecer nada, tem espaço para o dólar subir mais.

Quanto à atividade econômica, há um cenário de estagnação se desenhando para o ano que vem?
A economia cresce. O cenário não é de estagnação nem de recessão. Mas vai ser um crescimento medíocre, entre 1% e 1,5%. Tem gente mais pessimista, falando em 0,5%. Mas o fato é que teremos uma série de ventos contrários. Estamos falando de uma Selic que sairá de 2% para 9%. Há um impacto. Temos uma questão energética que não sabemos como vai se comportar. Na melhor das hipóteses, teremos uma energia cara, que não trava o crescimento, mas não ajuda. E uma campanha política complicada no ano que vem, que também é um fator de incerteza e que limita a retomada de investimentos. Não vejo um crescimento brilhante em 2022. Neste ano, até pela base de comparação fraca do ano passado, vai dar 5,2%, 5,3%.

A economia, então, não vai ajudar o Bolsonaro…
Não. O PIB em si dá manchete de jornal e é importante para discussão entre economistas, mas, para o dia a dia das pessoas, nada. O que interessa para as pessoas é o mercado de trabalho. E o mercado de trabalho está complicado. Mesmo que você fale que o Caged está gerando empregos, o que importa é que havia mais de 94 milhões de pessoas empregadas em fevereiro do ano passado e, em junho deste ano, havia 88 milhões. O Caged não representa a realidade do mercado brasileiro.

Você falou sobre querer e ter condições de fazer reformas. O governo atual quer?
O presidente não faz a menor ideia. E eu tenho cá minhas dúvidas em relação ao ministro da Economia. Até começamos bem com a reforma da Previdência. É verdade que a discussão já tinha começado, mas eles vieram com um projeto bem mais ambicioso. Não foi integralmente aprovado, mas muita coisa foi. E é ocioso ficar discutindo se foi ou não o Congresso. O fato é que avançou. Agora, a reforma administrativa é uma porcaria. A tributária é um lixo. Tivemos várias oportunidades de avançar com a tributária, mas não avançou, em parte, porque o governo não quis. O Paulo Guedes passou um tempão insistindo na história da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Não consigo entender a razão. Depois, quando foi falar em reformar mesmo os tributos, era um projeto muito menos abrangente, que dizia respeito somente a PIS e Cofins. Não falava em ICMS, que é o grande nó.

O que ele poderia ter feito, então?
Havia um projeto mais ambicioso, formulado pelo (tributarista) Bernard Appy, que a imensa maioria dos economistas aprova, que não foi para frente. Quando foram discutir para valer, veio o projeto do Imposto de Renda, que entrou numa discussão, de dividendos, que não era para abrir agora. Só introduz mais burocracia e distorção. Isso está na conta do Paulo Guedes. Ele não querer avançar com o projeto do Appy não é uma questão econômica, mas sim psicanalítica.

“Muita gente ficou seduzida (com Guedes), porque o cara é bom de papo. Fazer palestras é uma coisa, tocar a economia é diferente”

Do ponto de vista da agenda liberal, ainda faz diferença ter o Paulo Guedes no governo?
Dizem que o fundo do poço é só um estágio. Acho que pode piorar ainda mais. Mas, sendo absolutamente sincero, nunca comprei o Paulo Guedes. Meus textos mostram isso. Mas muita gente comprou. Nunca comprei porque a coisa era de uma superficialidade extraordinária. Não é que o conceito e a direção estavam errados. Mas ele parecia não ter o menor pé da situação. Então, vinham aquelas bravatas, como acabar com o déficit em um ano. Como? Não tem como. Quem conhece o mínimo da dinâmica do orçamento do Brasil sabe que isso não é viável. E disse que vai privatizar R$ 1 trilhão. Não tem R$ 1 trilhão para privatizar. Nem se colocar a Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica, que o presidente já havia dito que não entrariam na dança. É de uma leviandade extraordinária. Mas muita gente ficou seduzida, porque o cara é bom de papo. Fazer palestras é uma coisa, tocar a economia é diferente.

Mas ele saindo seria pior?
Eu desconfio que qualquer um no lugar dele seria ainda pior, com a mesma superficialidade, mas sem o poder de sedução, que ainda existe para os caras que colocam estátua dele na Av. Faria Lima.

Você, então, não tem esperança em avanço da agenda econômica até o fim do governo?
Eu espero que não. Do jeito que a coisa está sendo feita, torço para que não. O Arminio (Fraga), que é um cara absolutamente ponderado, afirma que a reforma administrativa consegue piorar o que já existe. Vira uma contrarreforma administrativa, porque põe mais distorção. A reforma tributária também piora o que já existe, com mais distorção. É melhor não mexer, deixa para o próximo (governo). Mesmo que demore 10 anos. Pelo menos não piora.

Lá fora, os ventos estão a favor?
Ainda estão a favor. Claro que há turbulências. A última, da Evergrande, não é trivial. O cenário ficará menos favorável. Corremos o risco de o Fed (Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos) começar a retirar os estímulos ainda este ano. E acho que corremos o risco de o Fed começar algum aperto monetário no ano que vem. Mas estamos falando de um ou dois aumentos de 0,25 ponto percentual na taxa de juros. Não é uma mudança extraordinária. Preço de commodity, pode ser que não suba mais, mas nada indica que vamos passar por uma megacorreção. Olho para o ambiente internacional, com todas as nossas cascas de banana, e acho que será menos favorável, mas ainda bastante favorável. Ainda há liquidez alta e crescimento global.

Quanto à Evergrande, você vê um novo Lehman Brothers?
Estou mais para uma visão de que será mais um fator de desaceleração econômica na China do que um novo Lehman Brothers. É uma empresa enorme e estamos falando de US$ 300 bilhões em passivos. Mas os contágios são muito menos severos do que foi com o Lehman Brothers, que foi um sintoma. No caso da Evergrande, até onde entendo, é algo grande, mas parece estar, em boa medida, contida na China. Dos US$ 300 bilhões em passivos, muito disso é para quem adiantou pagamento de apartamento e para fornecedores. É péssimo para eles, mas não gera efeito sistêmico. Há uma discussão antiga que diz que estão construindo demais na China, que não há demanda para isso. Pode haver uma dificuldade com esse setor, que representa quase 30% do PIB chinês. Se der problema, vão ter de achar outro motor para o crescimento chinês. Não será uma crise sistêmica e financeira, mas devemos prestar atenção para uma desaceleração forte na China. E isso pega para nós diretamente, já que a China é o maior mercado para a exportação brasileira.

Leia também