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O legado culinário e a faceta trágica do chef Anthony Bourdain

O documentário “Roadrunner: A Film About Anthony Bourdain” usa imagens de arquivos e depoimentos de amigos e colegas de trabalho para traçar um perfil psicológico do embaixador da comida despretensiosa que passava 250 dias do ano viajando

 

O chef Anthony Bourdain (1956-2018)

A première mundial do documentário “Roadrunner: A Film About Anthony Bourdain” marca o terceiro aniversário da morte do chef, uma espécie de “rock star” do mundo da culinária. O longa-metragem explora tanto o legado gastronômico quanto a faceta trágica da figura midiática que cometeu suicídio em 8 de junho de 2018, aos 61 anos.

Uma das atrações do Festival de Tribeca, que segue até o dia 20 de junho, em Nova York, o filme mostra como Bourdain se tornou uma referência para quem gosta de culinária, cultura e viagem na televisão. Seus programas nunca se limitavam a falar só de comida.

Sua marca registrada era o humor ácido e a sinceridade com que desmistificava o glamour da gastronomia. Muitas vezes, ele puxava um banquinho de plástico para provar comida de rua, tratando-a com o mesmo respeito com que teria por um prato preparado na cozinha de um restaurante cinco estrelas.

Bourdain se tornou um embaixador da culinária despretensiosa após lançar o livro “Kitchen Confidential”, em 2000. Contratos para mais publicações e para se aventurar como apresentador de TV vieram logo depois que o chef expôs nessa obra algumas verdades inconvenientes dos restaurantes. Entre elas a de que peixe do prato de segunda-feira geralmente estava guardado desde quinta ou sexta da semana anterior.

“Todos os chefs da TV são tão fofinhos e adoráveis. Talvez eu seja o antídoto ou algo assim”, brincou Bourdain, em cena resgatada no documentário dirigido por Morgan Neville. Em 2014, o cineasta levou um Oscar da categoria por “A Um Passo do Estrelato”, sobre a carreira de backup singers.

Ao mesmo tempo em que aborda o lado profissional de Bourdain no filme, ainda sem data para estrear no Brasil, Neville traça o perfil psicológico do seu protagonista. A tarefa é alcançada graças aos depoimentos de familiares, de amigos, de colegas de trabalho e do próprio chef, de natureza irreverente e desbocada.

Apesar de todo o sucesso alcançado com os programas de TV de gastronomia, rodados ao redor do globo, a solidão e a depressão aparentemente sempre o acompanhavam, fazendo com que ele fizesse muitas piadas sobre suicídio. “Você provavelmente vai descobrir isso de qualquer modo. Então aqui vai uma pequena verdade preventiva: não há final feliz”, disse o próprio Bourdain no filme.

Como o chef ingressou na TV em 2002, Neville teve à disposição um arquivo quase inesgotável de gravação (cerca de 100 mil horas). Entre os momentos revividos aqui se encontram alguns que foram ao ar, como trechos de alguns episódios famosos, incluindo o realizado em Beirute, em 2006.

Enquanto rodava o programa “No Reservations” (2005–2012), Bourdain ficou preso em um hotel da cidade, que sofria bombardeios diários, devido ao conflito entre o grupo xiita libanês Hezsbollah e Israel. Se o chef já se interessava por histórias que fossem além da culinária, isso ficou ainda mais evidente depois da experiência no Líbano.

Neville inclui também no documentário momentos inéditos de bastidores de gravações e trechos de vídeos caseiros. Há ainda cenas do episódio de “Parts Unknown” que Bourdain realizava na França, região da Alsácia, quando morreu. A CNN, responsável pelo programa não exibiu o episódio. Mas como a CNN Filmes é a empresa por trás do documentário, imagens do episódio são reveladas aqui.

“O babaca cometeu suicídio”, disse no filme o pintor e músico John Lurie, deixando transparecer que os amigos do chef ainda não se conformaram com a sua morte. Como seria presunçoso tentar explicar o que teria levado Bourdain a tirar a própria vida, em quarto de um hotel francês, nenhum dos entrevistados se arrisca a dar um motivo.

Mas as conversas principalmente com produtores, diretores e profissionais da equipe técnica que trabalharam com Bourdain dão algumas pistas. Os entrevistados sugerem que o fato de Bourdain passar “250 dias do ano viajando”, com as câmeras sempre no seu encalço, era uma espécie de compulsão e fuga, sinalizando que algo estava errado.

“Ele estava sempre correndo para entrar em cena e correndo também para sair de cena, já de olho no próximo lugar, mesmo que não tivesse para onde ir”, afirmou Tom Vitale, diretor e produtor do programa “Parts Unknown”, rodado de 2013 a 2018.

O documentário inclui ainda depoimentos do seu irmão, Chris Bourdain, e da ex-mulher Ottavia Busia, a lutadora de artes marciais com quem o chef teve uma filha, Ariane, de 14 anos. Asia Argento, a atriz italiana que Bourdain namorava quando se matou, não dá entrevista no filme. Possivelmente por alguns apontarem os altos e baixos do romance da dupla e as supostas traições de Asia como a razão do suicídio.

“Eu gostaria de viver como uma pessoa normal. Mas nem sei mais o que é isso”, disse Bourdain, em um momento do documentário. O chef, que encorajava as pessoas a serem “viajantes e não turistas”, tinha uma visão particular da vida na estrada. “Viajar nem sempre é algo bonito. Quando vai embora, você aprende, ganha cicatrizes e muda durante o processo”, afirmou Bourdain, em tom melancólico, em outro trecho do filme.

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