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O mito do algoritmo “isentão” do Google cai por terra

Ao contrário do que dizem seus executivos, uma investigação mostrou que o Google interfere nos resultados de seu mecanismo de busca. E isso pode ser um problemão para a empresa

 

Por minuto, 3,8 milhões de pesquisas são feitas usando o algoritmo do Google

Existe um segredo industrial que é tão bem guardado quanto a fórmula da Coca-Cola. É o algoritmo de busca do Google, que decide qual página aparece na frente de outra quando um usuário digita uma palavra para ser encontrada na internet.

Chamado de PageRank, ele foi criado Larry Page e Sergey Brin, os fundadores do Google, quando eles estudavam na Stanford University, na Califórnia.

Em seus estudos, Page, daí o nome do algoritmo, teve uma sacada. Estudando como um artigo científico era mais influente do que outro, ele concluiu que a quantidade de referências feitas a ele era a fórmula que indicava a relevância do estudo. E, com base nisso, resolveu levar esse conceito para a web, em meados dos anos 1990.

A lógica era simples: quanto mais vezes a página de internet era citada, no caso linkada, por outra página, mais relevante era ela. Logo, ela deveria aparecer nas melhores colocações quando um internauta resolvesse fazer uma busca na web.

De forma resumida e simplificada, foi assim que surgiu o algoritmo que deu origem ao Google. O resto é história – e bilhões de dólares na conta – que fez com que a companhia fundada por Page e Brin, em 1998, se tornasse uma das mais importantes e influentes do mundo. Hoje, ela vale US$ 907 bilhões e, a cada minuto, 3,8 milhões de buscas são realizadas na internet usando o algoritmo do Google.

Ao longo do tempo, o algoritmo, evidentemente, evoluiu, mas ninguém – com exceção dos engenheiros e executivos do Google – sabe exatamente como ele funciona e como decide que página colocar na frente da outra.

Os executivos do Google, no entanto, sempre disseram que os algoritmos são objetivos e autônomos e que não sofrem interferência humana ou considerações de negócios. Em um post no blog do Google, a empresa declarou: “Não usamos curadoria humana para coletar ou organizar os resultados em uma página.”

Os executivos do Google sempre disseram que os algoritmos são objetivos e autônomos

Mas o mito de “isentão” do algoritmo do Google caiu por terra depois de uma ampla investigação conduzida pelo jornal econômico americano The Wall Street Journal.

Com base em mais de 100 entrevistas, o jornal descobriu que o Google interfere nos resultados de busca, em um grau muito maior do que a empresa e seus executivos reconheceram, usando blacklists, ajustes no algoritmo e uma série de empresas para decidir o que você vê no resultado da sua pesquisa.

Essas ações geralmente ocorrem em resposta à pressão de empresas, grupos de interesse externos e governos ao redor do mundo. E aumentaram bastante desde a eleição presidencial dos EUA de 2016 e o crescimento de circulação de fake news.

Em 2018, o Google fez mais de 3,2 mil alterações em seu algoritmo de pesquisa. Em 2017, foram 2,4 mil. Em 2010, foram apenas 500, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.

Segundo a investigação, os resultados do algoritmo do Google favorecem as grandes empresas em detrimento das menores. E, em pelo menos um caso, fez alterações em nome de um grande anunciante: o site de leilões eBay. A empresa também impulsiona alguns sites importantes, como Amazon e Facebook.

Nas caixas de preenchimento automático, que prevê termos de pesquisa à medida que o usuário digita uma consulta, os engenheiros do Google criaram regras e listas negras para eliminar sugestões de assuntos controversos, como aborto ou imigração.

Apesar de negar publicamente, o Google mantém listas negras para remover determinados sites ou impedir que outros apareçam em certos tipos de resultados. Essas listas, segundo o WSJ, são separadas daquelas que bloqueiam sites conforme exigido pelos EUA ou leis estrangeiras, como aquelas que envolvem abuso infantil ou violação de direitos autorais.

Segundo a investigação, os resultados do algoritmo do Google favorecem as grandes empresas em detrimento das menores

O Google conta ainda com milhares de prestadores de serviços mal remunerados com o propósito de avaliar a qualidade do resultado da pesquisa. Mas a companhia de Mountain View dá feedback a essas empresas sobre o que considera a classificação correta dos resultados. Estas, por sua vez, revisam suas avaliações de acordo com as instruções recebidas.

Uma porta-voz do Google, Lara Levin, contestou as conclusões do WSJ, dizendo que “fazemos hoje o que fizemos o tempo todo, fornecemos resultados relevantes das fontes mais confiáveis disponíveis”. Ela afirmou que a empresa é transparente em suas diretrizes para avaliadores e no que ela projeta os algoritmos para fazer.

“Nunca ouvi falar de manipulação dos resultados de buscas”, diz Alexandre Kavinski, chief business officer da i-Cherry, uma das empresas pioneiras de marketing de busca no mercado brasileiro, comprada pela gigante da comunicação britânica WPP, em 2010.

De acordo com ele, o mercado sempre soube que o Google contava com empresas que avaliavam o resultado de suas buscas, pois se tratava de informação pública e, atualmente, o algoritmo desenvolvido originalmente por Page e Brin é capaz de trazer resultados diferentes para cada usuário.

“O resultado muda de acordo com o horário do dia e o seu histórico de navegação”, afirma Kavinski. “Não existe um resultado único para a mesma palavra.”

De qualquer forma, as revelações enfraquecem uma das principais defesas do Google contra reguladores globais, preocupados com o imenso poder da empresa – hoje, de cada dez buscas na internet, nove são feitas pelo mecanismo da empresa.

As revelações enfraquecem uma das principais defesas do Google contra reguladores globais, preocupados com o imenso poder da empresa

Ao dominar esse mercado, o Google tem contribuído para que a Alphabet, holding que o controla, tenha resultados financeiros bilionários. Em 2018, o lucro foi de US$ 30,7 bilhões, uma alta de 142% se comparado ao ano anterior.

Por controlar o algoritmo que define qual página aparece na frente da outra, muitos rivais acusam o Google de privilegiar seus próprios serviços em detrimento dos de concorrentes.

Essa prática já rendeu uma multa da União Europeia de 2,4 bilhões de euros, em 2017, por favorecer o seu serviço Google Shopping em detrimento de rivais.

Neste ano, a União Europeia voltou à carga contra o Google e o multou em 1,5 bilhão de euros por impedir anúncios de concorrentes no serviço AdSense, que pertence à empresa.

De acordo com a União Europeia, “o Google abusou de seu domínio de mercado ao impor uma série de cláusulas restritivas em contratos com sites de terceiros que impediam que os rivais do Google colocassem seus anúncios de busca nesses sites.”

No Brasil, o site comparador de preço Buscapé entrou com uma ação, em 2011, no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) por supostas práticas anticompetitivas do Google. O Buscapé alegava que o Google privilegiava o seu próprio serviço, o Google Shopping. Em 2019, o Cade arquivou a denúncia.

O comparador de preços brasileiro, que pertencia ao fundo sul-africano Naspers, foi vendido para o rival Zoom e perdeu relevância no mercado. Em outubro, boa parte de seus funcionários foram demitidos, como parte do processo de incorporação.

Essa é uma história que, conforme o tempo vai passando, você só vai encontrar no Google. Afinal, como muita gente diz, se não está no Google, não existe – com ou sem interferência humana no algoritmo.

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