Negócios

O poder das Big Tech: mudança comportamental ou nova classe de ativos?

O setor de tecnologia representa 37% do valor de mercado do índice S&P, mas possui apenas 10% da receita. Os investidores parecem não dar bola para isso e enxergam um porto seguro nessas empresas

 

Como disse Lenin, “há décadas em que nada acontece, e há semanas em que décadas acontecem”. Muito já se falou sobre o futuro da humanidade após a pandemia do Covid-19. Não sabemos ainda se as relações humanas e o contato pessoal voltará a ser o mesmo, mas uma das poucas certezas que temos é que a realidade do trabalho será completamente diferente.

Foi derrubado o mito de que o trabalho a distância leva a perda de produtividade e todo mundo que já trabalhou no mundo corporativo sabe do tempo que se perde com o chamado face time e reuniões completamente inúteis. A telemedicina também se viabilizou e a o ensino a distância ganhará enorme impulso. Deslocamentos e viagens desnecessárias serão drasticamente reduzidos. E o planeta agradece.

Apesar de nenhuma nova tecnologia importante ter surgido nessas semanas, a mudança dos modelos de negócio e aceleração dos processos de digitalização será brutal. Em coluna recente no Financial Times, Wolfgang Munchau afirmou que a Covid-19 foi o evento que encerrou de vez a era analógica.

A parada brusca da economia e o terremoto provocado nos mercados levou os Bancos Centrais do mundo a ligarem simultaneamente as impressoras em modo turbo. Apesar de impressionante, a recuperação nos mercados foi longe de uniforme.

O setor de tecnologia foi o destino preferido da liquidez adicional. E especificamente as FAANMGs (Facebook, Amazon, Apple, Netflix, Microsoft e Google). O setor de tecnologia representa 37% do valor de mercado do índice S&P, mas possui apenas 10% da receita. As cinco maiores empresas em valor de mercado representam hoje 23% total, em comparação a 17% no fim do ano.

A pedra fundamental do Vale do Silício foi a Hewlett Packard, fundada em 1939, mas que a partir da Segunda Guerra Mundial começou a fabricar radares e tecnologia de artilharia e foi financiada pelo Pentágono. Se diz que o Vale é baseado em três pilares: tecnologia, capital e cultura. Mas acho que não se pode dissociá-lo do complexo industrial militar.

Praticamente não existe big tech sem orçamento militar. Apenas a China conseguiu rivalizar com os EUA e construir empresas similares as grandes plataformas digitais, e a tecnologia é o verdadeiro campo de batalha na nova guerra fria entre os países. O sucesso de Israel (The Startup Nation) está em grande parte ligado as aplicações de tecnologia de surveillance.

Até no Vale do Silício, ter no currículo uma passagem pela divisão 8200 do exército (responsável por segurança cibernética) vale mais do que muito PhD. Muito se crítica a Europa e se atribui a falta de grande empresas de tecnologia a sua cultura de negócios e empreendedorismo, mas não custa lembrar que a Europa perdeu a guerra e a Alemanha praticamente não tem exército.

As ações de tecnologia se destacaram por três motivos: empresas de alto crescimento se beneficiarão de juros baixos por um longuíssimo tempo (concentração de fluxos de caixa na perpetuidade), mudanças comportamentais e de modelos de negócios no mundo pós Covid e possível entendimento de que essas empresas são uma nova classe de ativos. Ou seja, praticamente monopólios que não serão desafiados nas próximas décadas. A Apple é um pouco diferente das grandes plataformas digitais. Alguns a definem como uma mistura entre os setores de consumer electronics e luxury (definido aqui como a habilidade de se cobrar mais por um produto semelhante).

O negócio de plataformas tem a característica particular chamada de winner takes all. Ou seja, uma vez estabelecido o líder em algum setor, é muito difícil que ele seja destronado. Além disso, uma grande vantagem dessas empresas é não pagar pela sua principal matéria-prima: nossos dados. Aqui vale aquela máxima de que se alguém te diz que um produto é de graça, na verdade o produto é você. Finalmente, a própria natureza das operações das empresas torna a taxação difícil pelos governos.

Uma grande vantagem dessas empresas é não pagar pela sua principal matéria-prima: nossos dados. Aqui vale aquela máxima de que se alguém te diz que um produto é de graça, na verdade o produto é você

A única aparente ameaça a essas empresas a médio prazo vem do lado regulatório. Em maio de 2018, entrou em vigor a lei Europeia de Proteção de Dados (GDPR), que se tornou modelo para leis similares em vários países, inclusive o Brasil.

O principal objetivo da regulamentação é proteger a privacidade dos indivíduos, garantir que eles tenham controle sobre seus dados pessoais e estabelecer sanções a empresas que não tenham devido cuidado ou usem de forma inapropriada esses dados.

A não ser que a lei obrigasse as empresas a pagar pelos dados pessoais, é difícil imaginar como o GDPR possa alterar de forma significativo os modelos de negócios das grandes plataformas digitais.

A iniciativa da Europa na tentativa de criação de um imposto digital global não obteve muito sucesso. Em junho, os Estados Unidos simplesmente abandonaram as negociações com a Europa nesse tema e ameaçaram com medidas retaliatórias caso a Europa prosseguisse com a iniciativa.

Dado o poder de mercado, modelo de negócios e importância geopolítica dessas empresas, é bem provável que tenhamos uma nova classe de ativos que investidores verão como porto seguro e manterão em suas carteiras independentemente do valuation.

Roberto Attuch Jr. possui 25 anos de experiência  no mercado de renda variável da América Latina (Credit Suisse e Barclays). Atualmente CEO e fundador da OMNINVEST, Roberto é Mestre em Gestão de Riscos pela NYU e possui Diploma em Governança Corporativa pelo INSEAD.

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