Negócios

O projeto de André Esteves para reduzir o gargalo de engenheiros no País

Em sua volta aos palcos do BTG Pactual, o banqueiro carioca mostrou diplomacia e otimismo sobre os cenários políticos e econômicos do País e falou sobre o projeto de criar uma faculdade de Engenharia

 

André Esteves, controlador do BTG Pactual, durante o CEO Conference 2020

Um dos principais nomes do mercado financeiro do País, André Esteves, sócio do BTG Pactual, revelou hoje que está costurando um plano para criar uma faculdade de Engenharia no País. O anúncio foi feito durante a abertura do segundo dia do CEO Conference Brasil 2020, evento que está sendo promovido pelo BTG Pactual nesta semana, em São Paulo.

“É um projeto filantrópico, com o objetivo de ajudar a fechar a lacuna desses profissionais no Brasil, com qualidade, mas também quantidade”, afirmou Esteves. “Hoje, mesmo centros de excelência como o Instituto de Tecnologia e Aeronáutica (ITA) formam o mesmo volume de alunos de 50 anos atrás. E a demanda, certamente, avançou nesse período.”

Como pano de fundo para o anúncio, Esteves citou um encontro ocorrido há um ano com representantes do Sequoia Capital, maior nome da indústria global de venture capital, que já investiu em gigantes como Google, Yahoo, LinkedIn e Paypal.

Na oportunidade, ele questionou a razão de o fundo americano praticamente não atuar no Brasil. “Eles disseram que o fato de o País não ter um número suficiente de engenheiros não dava o conforto necessário para que investissem por aqui”, contou Esteve. “O que me deu um misto de vergonha e de raiva dessa situação.”

Esteves mesclou, durante sua conversa com o jornalista Carlos Andreazza, diplomacia e otimismo em seu retorno ao palco nesta manhã de quarta-feira, 19 de fevereiro. Ele ressaltou, por exemplo, que não vê grandes riscos para o País no que diz respeito ao cenário político. Ao contrário.

“Goste-se ou não do resultado, nós saímos das eleições com uma democracia mais saudável”, disse, destacando a alternância das correntes ideológicas no poder como um sinal positivo. “E à parte de declarações polêmicas do presidente, do ponto de vista institucional, o Brasil está em ótima forma.”

A interação entre os poderes executivo, legislativo e judiciário, especialmente na figura dos líderes de cada uma dessas instâncias, foi outro tema abordado. Para ele, houve um amadurecimento nessa relação nos últimos meses, após um período inicial de turbulências. E ela é muito mais harmônica, próxima e construtiva do que o noticiário sugere. Assim como o diálogo entre esses atores e o ministro Paulo Guedes.

“Agora, essa é uma fotografia atual e tem muito a ver com os personagens que hoje ocupam essas cadeiras”, afirmou. “Daqui um ano, três deles talvez não estejam lá, o que talvez traga um risco para a qualidade dessa relação”, completou, em uma referência a Rodrigo Maia, presidente da Câmara, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).

Esteves também disse enxergar um amadurecimento político na postura do presidente Jair Bolsonaro. E uma evolução, em menor escala, no plano econômico. Nesse âmbito, porém, a mentalidade “estatizante” de parte da ala militar do governo foi apontada como uma questão de atenção.

Os projetos de reformas em andamento no Congresso, por sua vez, também foram destacados. Para Esteves, não há uma ordem de prioridade entre as reformas administrativa e tributária. Mas ele frisou que, pelo fato de ser mais complexa e envolver conflitos naturais entre Estados, entidades e diferentes setores da economia, a segunda pauta tem um caminho mais tortuoso até aprovação.

Os debates recentes sobre esses temas e mesmo a Reforma da Previdência foram apontados, entretanto, como um ponto positivo nesse cenário. Assim como o fato de o País ter chegado ao estágio de discutir temas ligados à produtividade. “Nós criamos uma convergência e não estamos longe de um consenso”, afirmou, ressaltando ser factível a aprovação das duas pautas até meados desse ano.

Ao salientar que os números recentes e as estimativas de crescimento para o ano trouxeram certa frustração, Esteves observou que o Brasil ainda não está qualificado para um crescimento impulsionado pela produtividade. “Não temos condições de crescer 4%, 5%. Se isso acontecer, vamos ter pressão inflacionária”, afirmou.

“Não temos condições de crescer 4%, 5%. Se isso acontecer, vamos ter pressão inflacionária”, afirmou Esteves

Em contrapartida, ele ressaltou que o País está pronto para crescer com estabilidade, ao citar fatores como a economia “relativamente desalavancada” e o patamar baixo na taxa básica de juros, o que vai impulsionar o mercado de capitais, com aberturas de capital de grande porte e qualidade. “Estamos em uma aceleração moderada, até medíocre, mas crescer entre 2% e 3% nesse ano é altamente factível.”

Esteves também disse que a política monetária do Banco Central está perto do máximo possível a ser feito. E afirmou não ver espaço para uma nova redução na taxa de juros, ao menos nesse próximo ciclo. “O nível atual é suficiente para tocar os negócios e tirar o máximo dessa mudança estrutural”, afirmou. “Ninguém vivo no Brasil hoje presenciou uma taxa de juros de 4,25% com uma inflação nesse nível.”

O banqueiro apontou ainda dois fatores como explicação para o atual patamar do câmbio. Em primeiro plano, o impacto da melhor performance da economia americana. E, ao mesmo tempo, um fator local.

“Minha sensação é de que todos nós, agentes financeiros, estamos nos adaptando a esse novo patamar de juros”, disse. “Como o Real sempre foi uma moeda de investimento, e não de financiamento, estamos mudando de status. É uma realocação muitas vezes invisível. Mas ela acontece.”

Bastante aguardada, a presença de Esteves na conferência marcou a volta, de fato, do banqueiro carioca ao palco. Em um intervalo de pouco mais de quatro anos, foram raras as vezes nas quais ele se manifestou publicamente. E quando isso aconteceu, sua atuação foi restrita a pequenas participações, em eventos de menor porte.

O estopim dessa falta de exposição veio em dezembro de 2015, quando Esteves ficou preso por 23 dias acusado de obstruir investigações da operação Lava Jato. Ele foi absolvido em julho de 2018, por falta de provas e a pedido do Ministério Público Federal (MPF).

Mas nesse período, foi afastado do bloco de controle do BTG Pactual. Sob o impacto da situação, o banco enfrentou uma crise de desconfiança por parte dos clientes, o que levou a venda de ativos e mudanças no comando.

Desde então, Esteves, gradativamente, voltou a exercer influência no banco. Mesmo sem um cargo oficial e atuando como um “consultor sênior”. Em dezembro de 2019, ele obteve a aprovação do Banco Central para retornar ao bloco de controle da instituição.

Durante evento com jornalistas na sexta-feira 14, Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, ressaltou que as portas estão abertas para o retorno de Esteves. Mas ressaltou que não há planos concretos nessa direção. E observou que o modelo atual tem funcionado para o banco.

Esse novo contexto, no entanto, ainda envolve riscos. No segundo semestre de 2019, o banco foi alvo de buscas do MPF e da Polícia Federal. Um dos casos está relacionado à participação da instituição em aquisições de campos de petróleo pela Petrobras. No segundo deles, o banqueiro é investigado por supostamente ter se beneficiado de informações privilegiadas sobre a taxa Selic.

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