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O que a Ambev está fazendo para seu resultado voltar a descer redondo

A cervejaria brasileira desagradou investidores com as perspectivas para 2020. O novo presidente, Jean Jereissati Neto, aposta em iniciativas como um marketplace para pequenos bares, uma fintech e até no aplicativo Zé Delivery para retomar a rentabilidade

 

Cerveja Skol, a principal marca da Ambev no Brasil

O resultado do quarto trimestre de 2019 da Ambev, dona das cervejas Skol, Antarctica e Brahma, não desceu redondo pela garganta dos investidores.

O desempenho do quarto trimestre deixou claro que a concorrência está mais acirrada e que a Ambev está com dificuldade de repassar aumento de preços aos seus produtos.

O lucro líquido ajustado foi de R$ 4,6 bilhões no quarto trimestre de 2019, um resultado 24,4% maior do que no mesmo período anterior. Mas a margem Ebitda foi de 43,7%, a menor em quinze anos para o quarto trimestre. Há um ano, era de 47,6%.

O guidance apresentando pela Ambev não foi nada animador. “Particularmente no primeiro trimestre teremos mais pressão de custos de commodities e variação cambial. Mas também estamos cheios de oportunidades para crescer. 2020 é um ano em que teremos que ser melhores e acho que vamos conseguir”, afirmou Jean Jereissati Neto, que assumiu a presidência da Ambev em janeiro e participou de sua primeira teleconferência com investidores.

Jereissati Neto apresentou a sua fórmula para reverter esse quadro. O executivo ressaltou as iniciativas tecnológicas da companhia. Em especial, citou o que ele chamou de “estratégia de contatos do futuro”.

Uma das estratégias é um marketplace B2B que, segundo Jereissati Neto, vai muito além da bebida. “Ele terá todas as categorias que um pequeno bar precisa comprar”, afirmou o executivo, que acrescentou que a ideia é também oferecer serviços financeiros.

Um estudo da Ambev diagnosticou que um dos maiores custos desses comerciantes é com cartão de crédito e com as taxas das maquininhas. “Estamos colocando em conjunto uma fintech”, afirmou Jereissati Neto, sem dar detalhes do negócio.

O objetivo é ter um marketplace mais robusto, que vai ajudar os donos de pequenos bares a reduzir custos. “Esse é um projeto onde realmente estou gastando meu tempo”, disse o executivo.

O novo presidente da Ambev também ressaltou as operações direct-to-consumer da Ambev e citou o Zé Delivery, um aplicativo que vende cerveja gelada a preço de supermercado e faz entrega em até 30 minutos na casa do consumidor.

Em 2019, o Zé Delivery recebeu 2 milhões de pedidos. No ano passado, ele já estava em 40 cidades. E o plano da Ambev, segundo Jereissati Neto, é levá-lo para todo o país em até três anos. “Estamos expandindo muito rápido”, disse o executivo.

Jereissati Neto no evento CEO com Propósito, da plataforma Ideia Sustentável

O plano de Jereissati Neto está em linha com o que ele disse em novembro do ano passado, quando participou do evento CEO com Propósito, da plataforma Ideia Sustentável, do qual o NeoFeed foi parceiro de mídia.

Na ocasião, o executivo fez um mea-culpa sobre o comportamento da Ambev nos últimos anos. “A verdade é que a Ambev, nos últimos anos, ficou muito autocentrada, olhou muito para o seu umbigo, estava muito preocupada em fazer a sua expansão global, uma correria para ter o seu footprint”, disse Jereissati Neto.

O executivo conclui que a companhia foi bem-sucedida neste processo. Mas que pagou um preço por isso. “Faltou olhar para além dos nossos muros, ter um pouco mais de empatia, escutar mais”, afirmou Jereissati Neto.

Resta saber se esse discurso e essas iniciativas tecnológicas serão suficientes para que os investidores fiquem felizes com a Ambev, que sempre foi um considerado um caso de sucesso no mercado de capitais brasileiro.

Nesta quinta-feira, 27 de fevereiro, as ações da Ambev caíram mais de 7% por volta das 16 horas. Ao longo do pregão, chegaram a desvalorizar mais de 9%.

Neste ano, os papéis acumulam queda de mais de 20%. A dona da Skol, Antarctica e Brahma já perdeu mais de R$ 60 bilhões em valor de mercado em 2020. Hoje, está avaliada em aproximadamente R$ 230 bilhões.

O desempenho reflete a avaliação dos analistas de mercado. Em relatórios, eles mostraram a preocupação com a recuperação dos resultados da empresa.

A dona da Skol, Antarctica e Brahma já perdeu mais de R$ 60 bilhões em valor de mercado em 2020

Os analistas Thiago Duarte e Henrique Brustolin, do BTG Pactual, escreveram que as perspectivas “não foram encorajadoras”.

“Isso sublinha, mais uma vez, quanto o mercado brasileiro de cervejas se fortaleceu com o fim do virtual monopólio da Ambev”, escreveu a dupla no relatório. “Tudo isso coloca, novamente, em perigo seu notável poder de impor preços e suas margens operacionais”.

O Credit Suisse enfatizou que não está claro se o volume de vendas da Ambev vai aumentar no primeiro trimestre de 2020, a custo do sacrifício da lucratividade no período.

Em um relatório sobre a Ambev, antes da divulgação do resultado do quarto trimestre, a casa de análise Research Capital traçou um cenário desafiante para a cervejaria brasileira em 2020.

Intitulado “Se beber, não invista”, o relatório cita o aumento da competição nos últimos anos, principalmente por parte da Heineken, a queda do consumo de cerveja, migração de consumo em bares para compra em supermercados e margens pressionados por aumento de preço de matérias-primas como fatores para não recomendar a compra da ação da companhia.

A concorrência, de fato, aumentou. Em 2019, o Brasil se tornou o maior mercado da cervejaria holandesa Heineken, passando os Estados Unidos. A

A Heineken reportou em 2019 um crescimento no lucro líquido global de 13% em relação ao ano anterior, para € 2,17 bilhões. A receita líquida avançou 6,6%, para € 23,97 bilhões. O lucro operacional cresceu 16,4%, para € 3,63 bilhões. Em volume, as vendas aumentaram 3,1%, enquanto o mercado global ficou estável, segundo a consultoria Statista.

Somente a marca Heineken cresceu 8,3% em volume vendido no mundo em 2019. No Brasil, a alta superou os 10%, enquanto o mercado de cerveja no país cresceu 2%.

Dados da Nielsen sobre o mercado de cervejas no Brasil, publicados com exclusividade pelo Valor Econômico, mostraram que a Ambev perdeu participação de mercado, enquanto Heineken e Grupo Petrópolis cresceram.

Em dezembro do ano passado, a Ambev mantinha uma participação de 59,4%, queda de 2,3 pontos percentuais em comparação ao mesmo período de 2018.

A Heineken atingiu 21% ante 20,1% em dezembro de 2018. O Grupo Petrópolis, por sua vezm estava com 15,2%, alta de 0,5 ponto percentual em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

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