Os empresários que estão construindo uma “Riviera francesa” no Ceará

Com o terceiro hotel-boutique inaugurado em Fortim (CE), Jean-Michel e Celian Chaufour, do grupo JMC, consolidam as praias a 130 km de Fortaleza como um destino de “staycation”

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O Jaguaríndia, na praia de Canoé, tem 30 acomodações em 50 mil m² com vegetação nativa

Era só uma visita, uma parada a mais nas férias no Brasil. Dono de uma galeria de arte contemporânea em Paris, o francês Jean-Michel Chaufour não conhecia o litoral do Ceará e foi encontrar os amigos e artistas plásticos Juliane Rose e Jeff Manzetti, em Pontal do Maceió, um vilarejo de Fortim, a 130 km de Fortaleza.

“Mas quem pisa aqui não sai mais”, brinca ele. Os dias de arrebatamento na praia preservada, margeada pelo rio Jaguaribe, naquele ano de 2006, se concretizaram em um novo projeto de vida com a compra de um terreno e a construção de uma casa de veraneio para família.

Quinze anos depois, Jean Michel e o filho Celian Chaufour inauguraram, em dezembro do ano passado, o terceiro hotel-boutique de luxo do grupo JMC, na praia de Canoé, em Fortim. O Jaguaríndia consumiu R$ 50 milhões e atraiu investidores como Thomas Valantin e Philippe Austruy – que fez fortuna na área de saúde com casas de repouso e tem no portfólio vinícolas nas regiões de Provence, Toscana e Douro.

“Pelo ritmo de reservas devemos chegar ao ponto de equilíbrio já em 2023. Os brasileiros estão descobrindo o Brasil com a pandemia”, diz o fundador. Depois de um réveillon 100% ocupado, alcançaram 90% em janeiro.

Numa área de 50 mil metros quadrados, com 250 metros de frente para o mar, cercada por dunas e vegetação nativa, e com uma piscina de bordas infinitas, ergueu 30 acomodações amplas e com estrutura até para quem quiser trabalhar.

“Luxo é espaço e silêncio”, diz Jean-Michel. O lugar se enquadra dentro de uma tendência, aprofundada na pandemia, em que os viajantes passam mais tempo em um lugar, conectados a natureza, priorizando qualidade à quantidade, chamada de “staycation”.

Os bangalôs são “pé na areia” e contam com piscina privativa

A arte está presente no Vila Selvagem com peças de artistas e artesãos brasileiros e da francesa Anne Brunet, que reinterpretou em suas telas elementos de culturas indígenas. Todos os móveis e estruturas de madeira foram feitos na marcenaria própria montada há quinze anos para dar conta dos empreendimentos do grupo na região, a Arte e Madeira.

O restaurante JAG tem cardápio e consultoria do chef uma estrela Michelin, Emmanuel Ruz, que criou uma “experiência sensorial” para os hóspedes, usando ingredientes locais. E o spa adota produtos desenvolvidos sob medida, “clean beauty” e com ingredientes amazônicos. As diárias variam entre R$ 2,3 mil a R$3,6 mil.

Desde aquela primeira viagem a Pontal de Maceió, Jean-Michel identificou o potencial para o turismo, mas “não de massa” como Canoa Quebrada, a 10 km dali. Foi por isso que decidiu transformar naquela época sua casa numa pousada e mudar de vez para a região. “O vilarejo estava meio abandonado e as mais de 100 jangadas que ficam na praia já não conseguiam tanto peixe. Então, era uma oportunidade de também incentivar a economia local”, lembra.

Celian e Jean-Michel, filho e pai no “pionerismo” do luxo no litoral cearense

Sempre contratando trabalhadores da região em todos seus projetos, construiu 28 bangalôs que formariam o Vila Selvagem, inaugurado em 2009, numa área de 20 mil metros quadrados, com 100 obras de artistas nacionais e internacionais e destinado ao “consumidor de luxo”. Desde o princípio, “seguindo princípios sustentáveis”, com soluções arquitetônicas para minimizar impactos no ambiente, como sistemas de ventilação que dispensam ar-condicionado.

“Todo mundo de Fortaleza me dizia para não investir no luxo, que não tinha público para isso no litoral cearense. Mas eu via que a natureza ali, dunas, boca do rio, espaço, eram muitos atrativos para esse viajante que buscava tranquilidade e conforto”.

Para garantir a lógica da hospitalidade para o público mais exigente trouxe o filho Celian, que era sócio do restaurante Le Triporteur, em Paris. O Vila Selvagem logo passaria a figurar no Roteiro do Charme. “Fizemos 100% com capital próprio. Até tentamos conseguir recursos no BNDES e no Banco do Brasil, mas não fomos aprovados.”

Enquanto o empreendimento ia aumentando sua ocupação ano a ano e no boca a boca, Jean-Michel passou a assessorar a construção de casas de veraneio na região, em especial para os hóspedes que se encantavam com o lugar, vários franceses, e que queriam ter um refúgio. “Foram mais de 50 delas”.

Pontal de Maceió e o rio Jaguaribe, o cenário que fisgou Jean-Michel e onde instalou a Vila Selvagem

É por isso que Pontal de Maceió adquiriu um certo ar franco-brasileiro, com veranistas e empreendedores europeus circulando por ali e serviços como a Patisserie Zeste, por exemplo. Um dos bares mais famosos, o “Show de Bola”, apesar do nome, não se inspira no futebol. Mas na petanca, uma espécie de bocha popular na França, que ali é jogada na areia.

Jean-Michel não era um marinheiro de primeira viagem no Brasil. Na década de 80, chegou a morar em São Paulo. “Era um momento muito diferente do país.” Teve ali, de qualquer forma, um primeiro vislumbre da complexidade de se empreender no país.

Pai e filho consideram que foram os primeiros a identificar o potencial de luxo no litoral cearense. “Naquela época o mais próximo nesta categoria era o Vila Kalango e o Mosquito Blue em Jeriquaquara”, lembra Celian. Desde o 2006 até hoje, diz Jean-Michel, “o metro quadrado já valorizou 20 vezes” nas praias de Fortim.

Usaram a mesma receita de sofisticação intimista para outro hotel, o Jaguaribe Lodge, inaugurado em 2017, e concebido para o público de kitesurf. “Construímos em palafitas, mais um projeto que segue princípios sustentáveis. Contamos com investidores particulares desta vez”, conta Celian.

As condições naturais do litoral cearense já eram um fator de atração de viajantes para a prática de kite. Por isso, um dos diferenciais ali além do conforto (o hotel também faz parte do Roteiro do Charme), foi a escola que criaram para praticantes amadores ou não. Hoje, com estrutura independente do hotel, conta com mais de 20 instrutores, entre estrangeiros e brasileiros que estudam inglês e francês para atender o público internacional.

O Jaguaribe Lodge foi erguido com palafitas para não impactar o movimento das dunas

“Apesar de estamos preparados para atender viajantes de vários países, são os brasileiros que respondem por mais de 80% da ocupação de nossos hotéis. Nos fins de semana são os moradores de Fortaleza que veem e nas estadias de longa duração são hóspedes de São Paulo, em especial”, conta Jean-Michel. O fluxo aumentou ainda mais a partir de 2020, quando a Azul passou a operar voos de São Paulo, no aeroporto regional de Acati, a 23 km de Fortim.

Mas pai e filho não pararam por aí depois dos R$150 milhões já investidos nos três hotéis. Aguardam a licença ambiental para iniciar um novo projeto na cidade. Em um outro terreno de 3 hectares vão construir um conjunto de quatro pousadas, sempre de frente para o mar. Os investidores serão, a princípio, os mesmos do Jaguaríndia. “Assim, que tivermos a aprovação, levamos dois anos e meio para inaugurar. É mais um passo na consolidação de Fortim como destino do viajante de luxo”, diz Jean-Michel.

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