Para a Legacy Capital, todos os ativos vão perder valor e uma recessão se aproxima

Em entrevista ao NeoFeed, Felipe Guerra, CIO da empresa com R$ 20 bilhões sob gestão, analisa a inflação no mundo inteiro, o conflito na Ucrânia e diz que o próximo presidente do Brasil, seja qual for, não vai respeitar o teto dos gastos

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Felipe Guerra, CIO da Legacy Capital

Minutos antes de falar com a reportagem do NeoFeed, Felipe Guerra, Chief Investment Officer (CIO) da Legacy Capital, com R$ 20 bilhões sob gestão, estava bem ligado em dois pronunciamentos fundamentais para a avaliação das decisões que ele tem de tomar à frente da estratégia de investimentos da gestora.

De um lado, escutava o pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, no qual o comandante americano falava sobre o conflito na Ucrânia e anunciava sanções econômicas à Rússia. De outro lado, assistia o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, falando de política monetária em um evento do BTG Pactual.

As informações sobre o que vai acontecer tanto lá na Rússia como no Brasil têm sido acompanhadas de perto. Afinal, dependendo do que virá pela frente, a economia global poderá virar do avesso. A Rússia já iniciou o processo de invasão na Ucrânia, na manhã desta quinta-feira, 24 de fevereiro. Em pronunciamento, Vladimir Putin, presidente da Rússia, disse que é apenas uma operação pontual.

Independentemente se o líder russo está falando a verdade, com ou sem intensificação do conflito, o gestor da Legacy já vislumbra dificuldades enormes pela frente. “Nos EUA, você tem juros a zero com uma situação de inflação bizarra. Estamos passando por um momento agora que quase nenhum gestor viveu”, diz ele ao NeoFeed. Na opinião dele, isso vai forçar o FED a aumentar os juros, podendo chegar a 4% ao ano – uma paulada que deve desacelerar a economia global.

Ele enxerga a mesma tendência de alta de juros em países como México, Polônia, Inglaterra. “A Inglaterra parece país emergente, a inflação totalmente descontrolada, o Banco Central totalmente leniente. O presidente do Banco Central na Inglaterra é um historiador, fica pedindo pelo amor de Deus para não pedirem aumento de salário.”

Isso deverá causar uma desaceleração econômica e uma recessão global. E não muito distante. “Acho que podemos ver uma recessão para o final do ano que vem”, diz ele. Na entrevista que segue, Guerra, que trabalhou no BBA, Citibank, Santander e comanda um dos principais multimercados do Brasil, fala sobre o cenário, explica quais são suas apostas e o momento difícil que se aproxima.

“Estamos em um momento que eu acho que tem uma probabilidade razoável de quase todos os ativos do mundo perderem valor. Não tem muito para onde correr”, diz ele. Sobre eleições presidenciais no Brasil, Guerra acredita que, seja qual for o vencedor, virão medidas populistas, o teto dos gastos não será respeitado e um tarifaço com aumento de impostos dará as caras por aqui. Acompanhe os principais trechos.

Antes de falar com o NeoFeed, você estava escutando o Roberto Campos falar de política monetária. O que tem chamado mais a sua atenção nesse tema?
Um tema que a gente acha de fundamental importância nesse momento é a necessidade de o FED apertar as condições financeiras dada a pressão inflacionária que estamos vendo. Nos EUA, você tem juros a zero com uma situação de inflação bizarra. Estamos passando por um momento agora que quase nenhum gestor viveu.

Por quê?
A maioria dos gestores nunca viu a inflação americana rodando a 8% e o salário rodando a 7%. Sempre trabalhamos com a inflação dos Estados Unidos muito próxima à meta, ciclos normais de ajuste de política monetária. Essa inflação só foi vista nas décadas de 1970 e 1980. Muita gente que está no mercado hoje nunca viu isso. O momento requer muita humildade, disciplina e respeito. Podem acontecer coisas que nunca vimos.

O que pode acontecer?
A nossa preocupação é de que estamos em um momento no qual você tomar risco, comprar ativos financeiros, a relação de risco retorno nunca esteve tão ruim. Pode até dar uma melhorada, a bolsa subir e você dizer que eu errei, mas nunca vi uma relação tão ruim de risco retorno. Se você tiver errado e o FED tiver que apertar e levar esses juros para 4% ou 5%, pode perder muito dinheiro. Estamos em um momento que eu acho que tem uma probabilidade razoável de quase todos os ativos do mundo perderem valor. Não tem muito para onde correr.

“O momento requer muita humildade, disciplina e respeito. Podem acontecer coisas que nunca vimos”

Se não tem para onde correr, o que você, como gestor, vai fazer?
A beleza do multimercado é que você pode ficar vendido em tudo. Não precisa comprar nada e ficar fora. Às vezes, se sentar na mão é uma sabedoria. Ficar quieto, reconhecer que o cenário não é propício para ganhar dinheiro e ficar com posições mais comedidas, é mais adequado. O momento requer muita cautela nas posições.

Em que posições a Legacy está?
Estamos com o portfólio um pouco mais negativo, mais tomado em juros. A gente acha que precisa de um aperto monetário muito grande nos Estados Unidos.

Mas você acha que vem uma paulada de lá? Chega a quanto?
Essa é a pergunta de bilhões de dólares. Difícil responder. Mas, se você pegar que o juro real americano está entre zero e 0,5%, precisa levar os juros para 2,5% ou 2,75%. Minha opinião pessoal é que o risco é ser próximo de 4%.

“Às vezes, se sentar na mão é uma sabedoria. Ficar quieto, reconhecer que o cenário não é propício para ganhar dinheiro e ficar com posições mais comedidas, é mais adequado”

Isso vai afugentar capital do Brasil…
De outros lugares e do Brasil. Aqui estamos em um momento um pouco mágico porque os juros subiram muito rápido, levamos para 12% e o mundo está sem juros em lugar nenhum. De certa forma, as pessoas enxergam que o processo aqui está mais adiantado. E tem outra questão do Brasil, com esse fluxo gringo de alguns bilhões para a bolsa e renda fixa, é que temos muita commodity. E há um conflito na Ucrânia com a Rússia, que é um dos maiores produtores de commodity do mundo. As pessoas estão saindo de lá e alocando em outros produtores de commodity como o Brasil, África do Sul, Chile. Nesse cenário inflacionário, estamos nos beneficiando porque as commodities funcionam muito bem num primeiro momento. Até o FED puxar muito os juros, provocar uma recessão e as commodities caem lá na frente. Mas, enquanto isso não acontece, as commodities vão cantando pneu. O petróleo vai para US$ 120, o minério de ferro para US$ 150, a soja não para de subir, o trigo não para de subir.

Até quando você acha que vai esse momento?
Até a hora que o FED bater na mesa. A hora que ele puxar 50 pontos e aí o mercado vai ter que botar 50 na outra e eventualmente o risco vai ser de 75. Imagina o que vai acontecer com os mercados, as bolsas vão cair muito.

Mas você acha que o FED vai agir logo?
Acho que estamos na iminência de isso acontecer. Se você pensar, o que está acontecendo na Rússia é altamente inflacionário. A Rússia é a maior produtora de commodity. Um ministro do Putin disse que vão cobrar mais pelo gás. Vão impor sanções para a Rússia e a Rússia vai subir os preços das commodities. Isso favorece o Brasil, mas bota a inflação lá para cima e joga o banco central americano e os outros BCs na parede. Todo cara que for responsável terá de ser mais agressivo na alta de juros. Senão, você faz papel de palhaço. A inflação subindo, você olhando e ficando para trás da curva. Depois, vai ter que dar um choque se não fizer isso logo. Precisa ter cautela para alocar capital.

“Vão impor sanções para a Rússia e a Rússia vai subir os preços das commodities. Isso favorece o Brasil, mas bota a inflação lá para cima e joga o banco central americano e os outros BCs na parede”

Vocês estão apostando na alta dos juros em vários países. Quais?
Nos Estados Unidos, México, Polônia, Inglaterra. A Inglaterra parece país emergente, a inflação totalmente descontrolada, o Banco Central totalmente leniente. O presidente do Banco Central na Inglaterra é um historiador, fica pedindo pelo amor de Deus para não pedirem aumento de salário. É um negócio com cara de país emergente. De uma hora para outra vai ter um choque de juros lá.

O cenário que você traçou é de aumento de juros nos principais países do mundo. Isso, obviamente, vai desacelerar a economia. Caminhamos para uma recessão global?
Acho que mais adiante, sim. Como todo o ciclo econômico.

Você tem ideia de quando?
Olhando o que está acontecendo hoje, com a alta do preço do petróleo, com essa questão da Rússia e Ucrânia, com a persistência da inflação em países desenvolvidos, achamos que isso vai acontecer mais rápido. Acho que podemos ver uma recessão para o final do ano que vem.

“Acho que podemos ver uma recessão para o final do ano que vem”

Além de todos os problemas globais que você elencou, teremos um ano conturbado pela frente, com eleições presidenciais polarizadas entre o ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro. Com qual cenário vocês estão trabalhando?
A gente acha que a eleição não é um tema para agora, está muito longe ainda. Se você olhar as duas últimas eleições, na retrasada o Eduardo Campos morreu em maio. Na última, o Bolsonaro tomou uma facada. Na minha visão, tudo pode acontecer. A gente tenta olhar o País como está agora, se beneficiando das commodities e dos juros altos, e como estará no próximo mandato, independente de quem será o próximo presidente. Será fácil ou complicado?

Qual é a sua visão?
Será totalmente complicado. A dívida vai escalar muito. Estamos numa toada de crescimento baixo, inflação alta que requer juros altos. Ou seja, vai pagar mais juros com uma dívida mais alta e com um crescimento muito baixo. A nossa relação dívida PIB vai subir muito. O próximo presidente, seja Lula ou Bolsonaro, a primeira decisão que terá de tomar é: mantemos o teto dos gastos ou não? Acho que, quem quer que ganhe a eleição, não vai manter o teto dos gastos, vai tentar outro arcabouço fiscal. E vai vir cheio de promessa social populista.

Como você acredita que será?
Acredito que teremos um tarifaço, uma subida de imposto muito importante, seja CPMF, de dividendos. Isso vai acontecer de alguma forma. O grande desafio do Brasil é crescer com esse tarifaço. Olhando uma perspectiva mais longa do país, o Brasil tem trabalhado com uma inflação acima da meta na média, muito difícil bater essa meta de inflação de 3% em 2023 e 2024, vai exigir uma manutenção nos juros muito alto, o país vai ter uma dificuldade de crescer enorme. Para crescer, teria que ter reforma e choque de confiança. Acredito que nenhum candidato que está aí vai fazer reformas ou dará um choque de confiança.

“Acredito que teremos um tarifaço, uma subida de imposto muito importante, seja CPMF, de dividendos. Isso vai acontecer de alguma forma”

O que fazemos então?
Estamos com posições mínimas em Brasil, nesse momento. Uma boa alternativa de investimento aqui é crédito. Para as empresas, apesar de toda a confusão da Covid, o mercado de capitais foi muito aberto nos últimos 18 meses. Teve muita emissão de crédito, de emissão de ações. Os balanços das empresas estão saudáveis nesse momento.

Mas tem muito negócio acontecendo…
O Brasil tem muito potencial. Apesar de tudo que estamos passando, toda a confusão, a quantidade de negócios que aconteceu no setor real do Brasil nos últimos 18 meses é incrível. Teve a Localiza comprando a Unidas, a Hapvida com a NotreDame Intermédica, o marco do saneamento, privatização da Cedae. O Brasil ainda tem muita oportunidade e setor para ser desenvolvido. Não gosto de ser nem muito otimista e nem muito pessimista. O país avança aos poucos. Vamos continuar assim, sempre menos do que deveria, quando parece que vai quebrar, não quebra. Brinco que o Brasil é igual aquele bêbado que bate no meio fio. Parece que vai cair, aí se levanta, vai para o outro lado, vai de um lado para o outro. Esse é o Brasil.

Se um ET chegasse aqui no país e perguntasse para você o que é o Brasil, o que diria para ele?
O Brasil é uma jabuticaba. É um negócio complexo. Admiro o estrangeiro que se joga aqui no Brasil. São leis complexas, impostos que mudam de uma hora para outra, um país muito complicado de se investir.

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