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Parem as máquinas! O algoritmo que criou um cartel na Alemanha

Pesquisadores da Universidade de Queen, no Canadá, conduziram um estudo sobre softwares que controlavam, em tempo real, o preço da gasolina em postos de combustíveis da Alemanha. O resultado? Os sistemas, eventualmente, formam um cartel, ampliam as margens de lucro em até 30% e sufocam a concorrência

 

Pesquisa foi assinada por quatro pesquisadores da Universidade de Queen, no Canadá

Com a promessa de ajustarem os preços de forma mais rápida e precisa, equilibrando os centavos para refletir a perfeita equação entre a demanda e as diferentes ocasiões de consumo, os algoritmos têm um papel cada vez mais relevante nas estratégias das empresas.

Diante desse fenômeno, pesquisadores da Universidade de Queen, no Canadá, decidiram analisar o desempenho da aplicação desses recursos na precificação de um produto específico: a gasolina.

Dada a volatilidade dos valores da gasolina, a pesquisa concentrou suas observações em postos de combustíveis alemães, em 2017, dada a adoção em massa da ferramenta. Ao delimitar esse período, a ideia era identificar como os algoritmos manipulam o sobe-e-desce das cifras, e qual o seu impacto na receita final.

Para isso, os pesquisadores adotaram uma quebra estrutural no comportamento dos preços, levando em contra três variáveis: o número de mudanças de preço realizadas em um dia; a diferença média dessas alterações; e o tempo de resposta da atualização de preço de um posto em relação à mudança promovida por um rival.

Ao cruzar todas as variáveis, o resultado foi surpreendente. Os pesquisadores constataram que os algoritmos, eventualmente, formam um cartel e sufocam a concorrência.

“Por questões legais, é importante alertar que não temos conhecimento de que empresas de software ou postos de gasolinas apresentem qualquer traço de comportamento antitruste”, afirma o economista Daniel Ershoy, um dos responsáveis pelo estudo, ao NeoFeed. “Nossa análise se limita aos resultados dos algoritmos e isso apenas sob o ponto de vista econômico.”

De acordo com Ershoy, a pesquisa identificou que confiar às máquinas a tarefa da precificação leva a um aumento dos valores e da margem de lucro. Em alguns dos casos compilados, o avanço no segundo indicador foi de 30%.

No período, os postos que operavam sem o software mantiveram inalterada suas margens de lucro, cuja média não foi revelada. “Isso sugere que, com o tempo, os algoritmos aprendem e desenvolvem as táticas de cartel”, explica Ershoy.

Feroz defensor da inteligência artificial, Ershov se diz particularmente preocupado com a sua descoberta, pois os indicadores sugerem que essa organização algorítmica pode representar “um risco real à concorrência” e trazer prejuízos ao consumidor.

Junto a seus colegas, que assinam a peça publicada em agosto deste ano, ele alerta para que as autoridades “estejam preparadas para a adoção em massa de algoritmos de precificação nos mercados”.

Os pesquisadores ponderam, por fim, que outros provedores de softwares podem usar algoritmos diferentes e mais seguros, do ponto de vista da concorrência. Mas, que a implementação de um mesmo sistema, por diferentes players de um setor, tende a gerar a formação de cartéis.

Como alertou Adam Smith, em “A Riqueza das Nações” (1776), quando duas pessoas de uma mesma indústria se encontram, “a conversa termina em uma conspiração contra o público, ou em algum artifício para aumentar os preços”. Ershov e seus colegas acabam de mostrar que, aparentemente, o mesmo vale para o mau uso dos algoritmos.

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