Negócios

Petrobras esvazia o tanque para enfrentar a pandemia

Uma tempestade perfeita atingiu a Petrobras. A receita do presidente Roberto Castello Branco para sair dessa crise é reduzir produção, cortar salários dos executivos e revisar investimentos

 

Desde a última semana de fevereiro, o desembarque do Covid-19 no Brasil vem sendo acompanhado pelo derretimento de boa parte das ações listadas na B3. Nada se compara, no entanto, ao caso da Petrobras.

Além do surto, que trouxe redução na demanda, a tempestade perfeita da empresa passa ainda pela derrocada nos preços do petróleo no mercado internacional, em meio a uma guerra de preços protagonizada pela Arábia Saudita e a Rússia.

Nesse cenário, a companhia, que até então ostentava a posição de empresa mais valiosa do País, viu seu valor de mercado cair de R$ 392,8 bilhões, em 21 de fevereiro, para R$ 183,6 bilhões no fim de março. E perdeu seu posto, já na última semana de fevereiro, para o Itaú Unibanco.

A pandemia só acelerou a queda que já vinha se desenhando desde o recuo nos preços da commodity. No fim de 2019, o valor de mercado da Petrobras estava em R$ 407,2 bilhões, segundo a consultoria Economatica. E a imprevisibilidade desse cenário, especialmente no que diz respeito ao Covid-19, só reforça o desafio à frente da empresa.

“É como estar trancado em um quarto escuro em casa, sem saber para onde ir”, afirmou Roberto Castello Branco, presidente da Petrobras, em live realizada pela XP Investimentos na noite desta quinta-feira, 2 de abril. “O que conseguimos enxergar é o curtíssimo prazo. Estamos monitorando diariamente, como se fosse um paciente na UTI.”

A partir desse diagnóstico, uma das medidas mais recentes para aplacar os efeitos da crise veio à tona na quarta-feira, 1⁰ de abril. A companhia anunciou um corte de 200 mil barris diários na produção de petróleo, ampliando o volume de 100 mil barris, divulgado há uma semana, como parte de um plano de redução dos gastos operacionais para 2020 da ordem de US$ 2 bilhões.

“Temos trabalhado firme para evitar um excesso de estoque”, observou Castello Branco. “Ao mesmo tempo, estamos sendo bem-sucedidos – não em receita, mas em volume – em escoar parte da produção via exportação.”

Nessa frente, Castello Branco enxerga boas perspectivas até o mês de maio. Especialmente pela percepção de que a China está retomando sua atividade econômica e voltou a comprar bons volumes. Já no mercado interno, além da queda mais intensa e óbvia no querosene de aviação, a gasolina registrou uma contração de cerca de 60% nas últimas semanas.

“O que conseguimos enxergar é o curtíssimo prazo. Estamos monitorando diariamente, como se fosse um paciente na UTI”, diz Castello Branco

Para compensar esses recuos, outra válvula de escape é o segmento de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP). Popularmente conhecido como gás de cozinha, o produto foi o único que vem mantendo a demanda nas últimas semanas, registrando, inclusive, picos por “compras por pânico”.

Castello Branco afirmou que a Petrobras prepara uma leve redução também na produção do GLP. Mas ressaltou que não há riscos de desabastecimento do produto, já que a iniciativa já está sendo compensada com importações semanais da Argentina. No curto prazo, disse ele, haverá 5 milhões de botijões de gás de 13 quilos no mercado.

Redução de custos

O pacote de iniciativas da Petrobras envolve ainda uma série de outras medidas. A companhia reduziu, por exemplo, 30% dos salários dos executivos do alto escalão, incluindo os vencimentos de Castello Branco, além de adiar o pagamento de dividendos, da ordem de R$ 1,7 bilhão, para dezembro.

Os pagamentos de benefícios como extras e das bonificações por desempenho de funcionários também foram adiados. Bem como as promoções. No total, a expectativa é de uma economia com recursos humanos da ordem de US$ 2,4 bilhões.

A empresa também revisou sua projeção inicial de investimentos de US$ 12 bilhões, em 2020, para US$ 8,5 bilhões. “Não estamos cancelando os investimentos, mas postergando”, disse Castello Branco. “Quando as coisas melhorarem, vamos realizar esses aportes.”

Ele frisou que a prioridade é preservar a liquidez da companhia. Mas ressaltou que essa é uma orientação que já vem guiando a operação desde 2019. Em seu primeiro ano à frente da operação, o executivo priorizou esforços como a redução do endividamento e a venda de ativos.

O presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco

Somente no plano dos desinvestimentos, a Petrobras reforçou seu caixa com R$ 16,3 bilhões em 2019, ano em que registrou o maior lucro líquido de sua história, de R$ 40,1 bilhões, com uma alta de 55,7%.

Em linha com o que vem sendo feito desde então, o executivo reforçou que empresas de commodities precisam ser, necessariamente, operações de custo baixo. “Do contrário, quando há alta nos preços, você ganha um pouco de dinheiro”, afirmou. “Mas quando os preços mergulham, você mergulha junto.”

Segundo o executivo, a estimativa é de que houve uma queda na demanda global de petróleo de 20% no primeiro trimestre. “Cerca de 20 milhões de barris diários sumiram do mercado no período”, disse Castello Branco.

Entretanto, o mercado um sinal positivo hoje. O preço da commodity, que vinha flutuando em torno de US$ 20 nas últimas semanas, disparou depois que o presidente americano Donald Trump afirmou que havia conversado com a Arábia Saudita e a Rússia na tentativa de solucionar o imbróglio.

A alta de 17,8% do Brent, referência usada pela Petrobras, para US$ 29,14, também foi impulsionada pela informação de que a China vai reforçar seus estoques.

“Foi uma alta excepcional, mas não sei se ela irá se concretizar.”, disse Castello Branco, mesmo com a reação do mercado. “Acredito que essa disputa entre Rússia e Arábia Saudita ficou irrelevante diante da dimensão dessa crise do vírus. O preço vai permanecer baixo porque a demanda global caiu.”

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