Por que o Softbank investiu R$ 822 milhões na Afya? Spoiler: não foi pela área de educação

Grupo focado em medicina tem apostado pesado em soluções digitais para médicos, criando um ecossistema digital que vai muito além da educação. É nessa área que o Softbank vê um grande potencial de crescimento – e de retorno

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Solução da iClinic, comprada pela Afya por R$ 182,7 milhoes

Em outubro de 2020, o grupo educacional Afya pagou R$ 182,7 milhões pela plataforma de saúde digital iClinic, uma healthtech que havia recebido um investimento do Softbank Latin America poucos meses antes.

Em vez de deixar o negócio, o Softbank resolveu ficar com uma fatia ínfima de 0,2% da Afya, um grupo educacional com 21 instituições de ensino, sendo 18 delas com curso de medicina, que vale US$ 2,3 bilhões na Nasdaq.

Essa participação quase irrisória pode se transformar em uma fatia de 8,4% com o investimento de R$ 822 milhões (US$ 150 milhões) que o Softbank está fazendo na empresa por meio de um instrumento de dívida conversível em ações.

Mas por que o Softbank resolveu investir em um grupo tradicional de educação? A resposta, acredite, não tem nada a ver com educação. “Observamos que o mercado está enxergando uma Afya diferente do que ela está executando”, diz Felipe Affonso, diretor do Softbank Latin America ao NeoFeed. “E o mercado está precificando a Afya como uma empresa de educação tradicional, como Cogna e Yduqs.”

Em resumo: onde o mercado vê uma empresa de educação, o Softbank enxerga uma companhia que está apostando pesado na construção de um ecossistema digital voltado para o médico, com soluções que vão de sistemas de gestão para clínicas médicas, como o caso da iClinic, passando por soluções de prescrição médica digital e telemedicina.

“Não somos uma empresa tradicional de educação”, afirma Virgílio Gibbon, CEO da Afya ao NeoFeed. “Começamos com graduação e temos preparação para a residência e especialização, mas atuamos em toda a parte de oferta de serviços digitais, que acompanham a jornada do médico.”

A Afya comprou cinco empresas de tecnologia de saúde, tendo desembolsado R$ 340 milhões nesses negócios, desde 2020. De acordo com Gibbon, a Afya conta seis pilares nessa área digital. A primeira delas é a parte de conteúdo digital, onde está a MedCel e a Medical Harbour. Em seguida, vem as soluções que ajudam os médicos na tomada de decisões, como a PebMed e a MedPhone.

Outro pilar digital da Afya são as ferramentas de gestão para clínicas, área onde está a iClinic. O grupo educacional atua também em prescrição médica digital com o CliqueFarma e em marketplaces, com a parte de agendamento de consultas. E, por fim, conta com soluções de telemedicina. “Essa é uma área que precisamos aumentar a penetração”, afirma Gibbon.

Em 2020, a parte de serviços digitais representou 10% da receita de R$ 1,2 bilhão da Afya. De acordo com o CEO da empresa, considerando as aquisições feitas neste ano, elas ficariam, pro rata, com uma fatia de 15% do faturamento. “Mas esse negócio tem um potencial de ser 10 vezes maior”, afirma Gibbon. “Toda a cadeia de valor é gigantesca.” Atualmente, 200 mil médicos, de um total de aproximadamente 500 mil no Brasil, usam alguma solução digital da Afya.

Virgílio Gibbon, CEO da Afya

O negócio tradicional de educação continua sendo o mais relevante do ponto de vista de receita – representou 80% do faturamento de 2020. A Afya conta com 13 mil alunos, sendo que 11 mil deles estão cursando medicina ou estão em cursos preparatórios para residência médica.

“O negócio tradicional de educação é bom, cresce e gera um baita retorno”, diz Affonso, do Sofbank. “Mas estamos investindo pela parte digital. Quando olhamos o negócio digital, ele é muitas vezes superior ao negócio da educação.”

Os recursos que vão para o caixa da Afya serão usados para mais aquisições, tanto na área digital, como de novos cursos de medicina. Desde que abriu o capital, a Afya tem também mostrado apetite por consolidar o setor. Em agosto do ano passado, o grupo comprou a Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba por R$ 380 milhões.

Quando converter a dívida em ações, o Softbank passará a ser o terceiro maior acionista da Afya, atrás apenas da família Esteves (dos médicos Nicolau e Rosangela Esteves, fundadores da NRE, que deu origem à Afya), com 32%, e do fundo Crescera, com 25% do capital. Paulo Passoni, sócio do Softbank Latin America, vai ser indicado para uma cadeira no conselho de administração da Afya.

As ações da Afya sobem mais de 11% na Nasdaq, por volta das 16h30. No ano, elas caem 2,5%.

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