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Quem é o homem por trás do FaceApp, o novo fenômeno das mídias sociais

Milionário e reservado, o russo Yaroslav Goncharov é o fundador do aplicativo que tem mostrado como seria a aparência dos usuários caso fossem do sexo oposto. App foi baixado por mais de 150 milhões de pessoas

 

Yaroslav Goncharov é formado em ciência da computação

Que atire a primeira pedra quem nunca pensou na própria aparência envelhecida; nunca desejou estar sorrindo mais (ou menos) em uma foto ou nunca tentou suavizar as marcas de expressão de uma imagem digitalizada.

Pois esses e muitos outros “milagres” acontecem no apertar de alguns comandos no FaceApp, um aplicativo que está fazendo sucesso por mostrar aos usuários como seriam seus rostos caso fossem do sexo oposto.

Mas de quem é a face por trás do aplicativo que tem dominado as redes sociais? É a do russo Yaroslav Goncharov, um empresário low profile que tem no currículo passagens pela Microsoft e a venda milionária de outro aplicativo antes de criar o app que foi baixado por mais de 150 milhões de pessoas. 

Formado em ciência da computação pela Universidade de São Petersburgo, o empresário começou sua carreira como desenvolvedor de softwares da companhia suíça Infomind, onde atuou por dois anos.

Depois, a convite da Microsoft, Goncharov se mudou para os Estados Unidos e fixou residência na pequena cidade de Redmond, em Washington, onde fica o campus da gigante fundada por Bill Gates. 

Entre dezembro de 2003 e fevereiro de 2006, ele fez parte da equipe Windows Mobile, área dedicada a celulares antes mesmo da chegada dos iPhones e Androids. Ali, ele cuidava da arquitetura e implementação do AirSync, um protocolo desenvolvido para a sincronização de contatos, e-mails, calendários, notas e tarefas entre celulares e outros aparelhos. Ainda ativa, a ferramenta tem hoje o nome de Exchange ActiveSync.

Fora do horário de expediente, o empresário continuava treinando outras habilidades. “À noite, eu codificava um bot para jogadores de pôquer”, contou Goncharov em uma entrevista ao site russo Afisha Daily, em 2017, revelando o começo de sua relação com a inteligência artificial, que viria a ser sua “galinha dos ovos de ouro”. 

A dupla jornada entre Microsoft e os diversos outros projetos que abraçava teve fim em 2006, quando o executivo retornou à Rússia para aceitar o cargo de CTO e sócio na SPB Software.

Ali, junto dos sócios Vassili Philippov e Sebastian-Justus Schmidt, Goncharov liderava a parte técnica da companhia que desenvolvia soluções para celulares. Seu principal produto eram telas especiais para Windows Phone e aparelhos Android. Com a solução da SPB Software, o usuário conseguiria customizar a home de seu celular.

Tamanho potencial de desenvolvimento chamou a atenção da Yandex, uma espécie de Google russo. A gigante desembolsou, em 2011, US$ 38 milhões para fazer a aquisição da startup, e, embora Goncharov não revele quanto lucrou com a transação, confirma que “ganhou o suficiente para começar sua própria empresa sem ter que se preocupar em ter investidores externos”.

Já que dinheiro não era mais uma preocupação, o executivo teve o privilégio de apostar em sua paixão – e ele estava fascinado com a inteligência artificial, especialmente com a possibilidade de um algoritmo ser capaz de criar um rosto a partir de atributos como idade, gênero e cor de cabelo. 

Esse experimento foi o embrião do FaceApp, criado em 2016, mas que foi ao ar em 2017. Mesmo em sua versão beta, o aplicativo viralizou: um filtro “embelezador” ganhou tração por conta das redes sociais.

“A qualidade, na época, era terrível, mas havia magia”, confessou Goncharov em entrevista à Forbes, em 2019. Ainda de acordo com o desenvolvedor, ele passou seis meses trabalhando nos resultados para que as imagens criadas por seus algoritmos fossem muito melhores dos que as que estavam disponível. 

No ano passado, o app caiu no gosto dos brasileiros por criar uma versão envelhecida dos usuários, e hoje volta ao centro das atenções por mostrar como seria a aparência dos curiosos caso fossem do sexo oposto.

FaceApp mostra como usuário seria se fosse do sexo oposto ou mais velho

Embora o download e o uso do FaceApp sejam gratuitos, os usuários que pagam uma mensalidade de US$ 4,99 ou optam por uma taxa anual de US$ 29,99 conseguem evitar os anúncios e marcas d’águas nas fotos digitalizadas. 

Goncharov não revela quanto a companhia faturou com a comercialização dessa versão premium, mas afirma que apenas 1% de sua base de usuários é pagante. O empresário confirma ainda que a companhia é lucrativa desde o começo, e que 99% da receita é proveniente das mensalidades e anuidades, enquanto o 1% restante vem dos banners de anúncio exibidos no app. 

Por fim, o russo está ciente de que poderia conseguir um bom investimento no Vale do Silício, mas reitera que tem o suficiente para crescer organicamente. Para se ter uma ideia, o aplicativo VSCO, um dos editores de fotos mais populares, levantou US$ 90 milhões em três rodadas, das quais participaram fundos como Accel e Obvious Venture. 

Paralelo a se recusar a levantar capital adicional, o empresário mantém sua estrutura enxuta – a equipe conta com apenas 12 funcionários, e não há previsão de crescimento. Pelo menos ainda. O objetivo de Goncharov é lapidar ainda mais seus algoritmos para fotos e, eventualmente, aplicá-los também em vídeo. 

Polêmicas pelo caminho

Apesar dos milhões de downloads, discussões sobre privacidade sempre orbitaram o universo da empresa, que garante não vender ou compartilhar dados dos usuários. 

De acordo com a empresa, os usuários que solicitam a remoção de suas informações pessoais do sistema também são atendidos. Além disso, o FaceApp diz deletar em até 48 horas todas as imagens enviadas pelos usuários. 

Dados de reconhecimento facial são valiosos pelas mais variadas razões. Uma delas é para o marketing predatório, que poderia utilizar softwares de inteligência artificial para analisar expressões faciais e segmentar produtos ou serviços de acordo com o estado de espírito de um usuário.

Outro “efeito colateral” dos softwares de reconhecimento facial seria a possibilidade de fraude de identidade, caso os dados vazem, além de facilitar a prática de espionagem conhecida como “stalking”.

Sobre todas essas discussões sobre abuso de privacidade, a advogada Tiffany Li, professora da universidade de Boston, postou em seu Twitter: “Pare de usar o FaceApp porque não há controle sobre o uso de dados. Mas pare também de andar por lugares que tenham mecanismos de reconhecimento facial e possam incluí-lo em uma base de dados. Então… pare de sair de casa? O modelo de proteção de privacidade atual não funciona”. 

Não bastasse ter de lidar com essas questões, o FaceApp também foi alvo de queixas racistas. Depois que um usuário testou um filtro “embelezador” em uma foto do ex-presidente Barack Obama, o algoritmo criou um rosto sem rugas, mas embranquecido. 

Goncharov argumenta que os testes e o desenvolvimento do aplicativo se deu na Rússia, com a beleza local – majoritariamente caucasiana. Depois, em comunicado oficial, o executivo disse lamentar o ocorrido de natureza tão séria, e diz já estar tomando as devidas providências. A primeira delas foi renomear o filtro: “hotness” (“gostosura”, em tradução livre) se tornou “spark” (“faísca”). Mas, pelo menos por enquanto, os efeitos são o mesmo. 

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