Tallis Gomes e sua G4 encontraram “o dinheiro desamparado” (e um baita filão)

De olho em um público mal atendido pelo mercado, a edtech G4 Educação, fundada por Tallis Gomes, Alfredo Soares e Bruno Nardon, inaugura nova sede e investe em M&As, softwares, cursos online e um marketplace

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Alfredo Soares (à esq.), Tallis Gomes e Bruno Nardon, os fundadores da G4 Educação

O que faz um CEO? Foram essas palavras que Tallis Gomes digitou no Google depois de a Easy Taxi, aplicativo criado por ele, fechar seu primeiro aporte, de R$ 10 milhões, com a Rocket Internet. O ano era 2012 e, para uma startup, o valor era raro no País. Assim como as referências de gestão nesse espaço.

A Easy Taxi chegou a 35 países antes de ser avaliada em R$ 1 bilhão e comprada pela Cabify. Gomes criou outros projetos e ajudou a desbravar um ecossistema que hoje é abundante em recursos e informações. Mas, com novas conotações, a pergunta permanece: o que faz um CEO?

Atento a essa questão, em 2019, Gomes fundou a G4 Educação, ao lado de outros dois nomes: Alfredo Soares, sócio da VTEX e presidente da Loja Integrada; e Bruno Nardon, cofundador do e-commerce de artigos esportivos Kanui, ex-CEO da Rappi no Brasil e cofundador da Norte Ventures.

A partir dessa bagagem, o trio quer ensinar o caminho das pedras da chamada gestão 4.0 e da nova economia. “Em uma escola tradicional de negócios, você vai aprender sobre Henry Ford ou o modelo just in time da Toyota”, afirma Gomes, chairman da G4, ao NeoFeed. “Mas não o que o Elon Musk está fazendo na Tesla.”

Com a meta de gerar 1 milhão de empregos até 2030 nas empresas que contratam seus serviços, a G4 tem claro qual é o seu alvo. “Queremos o empresário médio. É lá que está o dinheiro desamparado”, diz Gomes. “Já tem muita gente olhando o pequeno e, nos grandes, é um oceano vermelho.”

E prossegue: “Ninguém ensina o que fazem as empresas que mais crescem no mundo para o dono de uma fábrica no interior do Mato Grosso”, afirma. “Esse cara fatura R$ 350 milhões, tem um bom negócio, mas bateu num teto de crescimento e está contratando da mesma forma que aprendeu na década de 1980.”

Essa proposta começou a tomar forma no fim de 2018, quando Gomes sofreu um acidente de paraquedas. Com três placas de titânio na perna e obrigado a ficar de molho por seis meses, ele decidiu escrever um livro com práticas de gestão e chamou Soares e Nardon para ajudarem na empreitada.

O projeto ganhou novos ares quando eles decidiram transmitir parte desse conteúdo em um fim de semana de imersão e palestras, e cobrar caro por isso – R$ 12 mil por aluno. Em menos de uma hora, fecharam duas turmas de 50 pessoas e entenderam que havia uma demanda reprimida. Nascia ali a G4, batizada inicialmente de Gestão 4.0.

“Eles tiveram a sacada de perceber algo que a FGV, o Insper e a Fundação Dom Cabral não viram”, diz uma fonte de mercado. “Só agora essa tríade das principais escolas tradicionais de negócios está tentando reagir.”

A nova sede da G4 Educação, na Vila Olímpia, em São Paulo

Desde que encontrou quem estivesse disposto a pagar por seu conteúdo, a G4 já formou mais de 22 mil alunos, de 30 mil empresas, cujas receitas somadas superam R$ 1 trilhão. E como um reflexo desse avanço, está de mudança para o seu quarto escritório.

Instalado na Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo, o prédio de três mil metros quadrados abrigará a nova sede e um segundo campus. Até o fim do ano, a equipe será ampliada, de 208 para 450 pessoas. No momento, são mais de 100 vagas abertas. “Vamos passar dos nove dígitos de receita em 2022”, diz Gomes. Em 2021, a receita foi de R$ 52 milhões.

Ecossistema

Para alcançar esses números, Gomes e seus sócios na edtech estão construindo um ecossistema que tem a oferta de cursos presenciais e online como porta de entrada.

Já são mais de 20 opções disponíveis, com preços que, na modalidade presencial, variam de R$ 9,9 mil a R$ 29,9 mil. No topo dessa tabela está justamente o de Imersão e Mentoria Gestão 4.0, que deu origem à startup.

Com uma abordagem prática, que mescla conteúdo e networking, os cursos exploram temas como growth e customer experience. E, além dos fundadores, são ministrados por nomes como Dennis Wang (ex-Nubank), Theo Orosco (Exact Sales) e Marcelo Toledo (Klivo).

A partir desse primeiro contato com a G4, esse empreendedor tem à disposição um leque cada vez mais amplo para seguir se atualizando e colocando em prática o que aprendeu. Ao navegar nesse ecossistema, ele consome mais ofertas da empresa, boa parte delas, com receita recorrente.

Uma das opções nesse menu é o G4 Skills, um software na nuvem que mapeia as lacunas de conhecimentos das equipes das empresas clientes. E que estabelece uma trilha personalizada de conteúdo em linha com a demanda de cada profissional.

Em geral, a demanda pelo sistema vem de CEOs que querem estender o que aprenderam nos cursos da G4 às suas equipes. O software também oferece um painel para acompanhar a evolução desses times. Cerca de 4,7 mil alunos, de 100 clientes já usam a plataforma.

Outra alternativa é o G4 Hub, espécie de marketplace composto por 14 empresas parceiras – de agências de marketing digital a boutiques de M&A – com produtos e serviços relacionados aos conteúdos abordados nos cursos da edtech.

Esse braço começa a ser usado pela própria G4 para mapear oportunidades de M&A. Fechada nesse ano, a primeira compra envolveu a Tract, startup de recrutamento de profissionais de vendas. “O que estiver plugado no G4 Hub e se destacar, podemos comprar ou fazer dentro de casa”, diz Gomes.

No fim de março, a própria Tract já rendeu frutos, com o lançamento da GoCademy. Trata-se de uma plataforma para capacitar e ofertar profissionais em áreas como design, marketing e gestão.

O portfólio inclui ainda frentes como o G4 Scale, programa que funciona como uma espécie de board coletivo. São seis encontros anuais, nos quais o empreendedor tem acesso a empresários e executivos com conhecimentos em diferentes áreas para discutir os rumos do seu negócio.

“Ninguém ensina o que fazem as empresas que mais crescem no mundo para o dono de uma fábrica no interior do Mato Grosso”, Tallis Gomes, da G4 Educação

Outra opção é o G4 Club, que reúne 150 fundadores e CEOs de empresas de 18 estados do País, em encontros mensais. É preciso desembolsar R$ 140 mil por ano para fazer parte do clube, que oferece, por exemplo, palestras com professores da Ivy League, as universidades de ponta americanas.

Existem ainda opções para outros bolsos e perfis de clientes. Para pequenas empresas, a maior aposta está nos cursos online, com conteúdos mais condensados e preços que variam de R$ 238 a R$ 3,9 mil.

Já para as grandes empresas, a edtech tem alternativas como os programas in company, desenvolvidos sob medida. Companhias como Bank of America, Ambev, Itaú Unibanco, Facebook e Natura já recorreram a esse expediente.

Renato Mendes, sócio da consultoria F5 Business Growth, ressalta que, com esse modelo, a G4 está atraindo, retendo e rentabilizando cada vez mais os clientes em sua plataforma. “Os fundadores têm track record e muitos fãs e seguidores, o que, naturalmente, reduz o custo de aquisição desse cliente”, diz.

“E eles acertaram em cheio ao levarem as práticas e a mentalidade de startup, já muito disseminadas na Faria Lima, ao Brasil real”, destaca Mendes. Ele faz, porém, uma ressalva: “Abrir muitas frentes simultâneas sempre traz um desafio de foco. Muita coisa pode se perder no caminho.”

Para reduzir esse risco, a G4 se divide em startups internas, com seus respectivos líderes se reportando a Luccas Riedo, CEO da G4 Educação. Enquanto isso, Gomes pensa no próximo grande passo. Ele diz que essa é a maneira de o “navio” que se tornou a edtech não perder a velocidade de quando era um “jet ski”.

Responsável por definir esses rumos, enquanto Riedo toca a operação no dia a dia, ele não descarta buscar investidores para embarcar nessa jornada, percorrida, até aqui, apenas com recursos próprios. Mas  cujo leme pode mudar, eventualmente, para que a operação alcance um outro estágio.

“A G4 cresce gerando caixa e todos os sócios já tiveram seus eventos de liquidez. Nosso jogo não é mais dinheiro. Buscar um funding só fará sentido se for uma rodada pré-IPO”, explica. Gomes acrescenta que, mesmo nesse cenário, uma abertura de capital não é, necessariamente, o roteiro a ser perseguido.

“Muitas vezes, empresas listadas são forçadas a tomar decisões de curto prazo e, além disso, não sabemos qual Brasil teremos a partir de 2023”, diz. “A única certeza é que, em um ou dois anos, teremos um negócio com porte e pronto para fazer um bom IPO.”

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