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Um foi “coroné”. O outro é líder da resistência florestal. Eis a saga dos Badaró na Bahia

Descendente de Sinhô Badaró, coronel do sul da Bahia, personagem do escritor Jorge Amado, Diego Badaró se tornou um líder da resistência contra o desmatamento florestal ao apostar no ressurgimento do cacau. Ele explica ao NeoFeed como o seu trabalho e a marca de chocolates orgânicos AMMA mudaram a região

 

Diego Badaró, fundador da marca de chocolates orgânicos AMMA Chocolate

Por muitos anos, o sobrenome Badaró foi sinônimo de desmando e violência, marcas das disputas pelas terras de cacau, o “ouro branco”, que a partir do início do século 20 fez do Sul da Bahia berço da produção do fruto no país.

Sinhô Badaró, um dos maiores fazendeiros do Estado, virou personagem do romance “Terras do Sem-Fim”, a obra prima de Jorge Amado sobre o reinado dos coronéis do cacau. Esse império começou a ruir com a infestação da vassoura de bruxa, no fim dos anos 1980, praga que devastou boa parte das plantações e levou a maioria dos fazendeiros à ruína – incluído os Badaró.

Das 27 fazendas de propriedade da família (que somavam 10 mil hectares de extensão, equivalente a oito mil campos de futebol), sobraram apenas nove. Dessas, seis são atualmente administradas pelo sobrinho de Sinhô Badaró, um ex-estudante de comércio exterior que vem revolucionando o mercado de chocolate no Brasil.

Diego Badaró, 40 anos, é fundador  da AMMA Chocolate, marca pioneira no segmento de chocolates orgânicos, que produz mais de 80 toneladas por ano e exporta para 18 países. O produtor e empresário não revela números de seu negócio, mas se sabe que desde a sua fundação, em 2007, a AMMA, mesmo pequena diante das gigantes do mercado, tem contribuído para provocar mudanças no setor.

No Brasil, terceiro mercado de chocolate do mundo, a porcentagem mínima de cacau em um produto – para ser chamado de chocolate – é de 25%, o que representa 10% a menos do exigido na Europa. Além disso, muitas indústrias, por falta de fiscalização, burlam a resolução da Anvisa. Há no mercado marcas de chocolates com 5% e até 10% de cacau na formulação.

A AMMA, que só produz chocolates com no mínimo 45% de cacau (a de 100% é a preferida de Badaró), hoje está presente nos principais mercados do país. O pioneirismo da AMMA abriu caminho para o surgimento de outras marcas com o mesmo conceito, obrigando as grandes indústrias a olharem com mais atenção para o mercado de orgânicos.

A Dengo, do empresário Guilherme Leal, é uma delas. A Cacau Show, há tempos, tem sua linha, com tabletes de até 85% de cacau. A Garoto também: o Talento de Cupuaçu vem com 38% de cacau.

Para Badaró, esse é um caminho sem volta. Mais do que isso: com o consumo aumentando, e a demanda por chocolates com mais teor de cacau também, somado à queda da produção, num futuro bem próximo o chocolate será um produto muito mais caro e raro, mas de alta qualidade. “Ninguém mais vai comprar barra de chocolate no supermercado”.

Como a AMMA tem enfrentado as limitações impostas pela pandemia?
Nós fomos uma das primeiras empresas a parar. E uma das últimas a retomar a produção. A gente tinha estoque suficiente para manter a distribuição. Aproveitamos esse período para nos voltarmos mais para o mercado interno, para o Brasil, para fomentar a cultura do cacau, da biodiversidade, da importância do reflorestamento. Eles destroem, a gente planta.

Quando a AMMA começou, o mercado de chocolate orgânico no Brasil praticamente não existia. Atualmente são mais de duzentas marcas. Além disso, a grande indústria também passou a investir mais nesse conceito. Como lidar com tanta concorrência?
Tem espaço para todo mundo. Hoje, há outro olhar, uma busca por qualidade. E nós nunca deixamos de ser pioneiros. Lançamos seis sabores de chocolate na pandemia. Somos a primeira marca no mundo a lançar um chocolate com farinha de mandioca: o manioca. Os australianos, espanhóis e holandeses gostaram muito.

Em 2014, a AMMA fez uma tentativa de entrar no mercado americano. Vocês conseguiram, inclusive, o selo USDA Organic (que permite a comercialização de alimentos orgânicos nos Estados Unidos). Como foi a experiência?
É um mercado muito competitivo e era necessário muito investimento. Deixamos a operação e preferimos intensificar o olhar para o Brasil, onde há muito o que se fazer ainda, sobretudo na questão ambiental. Lançamos a primeira embalagem compostável, 100% vegetal, que, após o consumo, desaparece em até 180 dias, agregando nutrientes ao solo.

Você tinha apenas 21 anos quando resolveu encarar o desafio de recuperar o plantio de cacau nas fazendas da família em Itacaré, sul da Bahia. Foi considerado louco pela maioria dos parentes…
Sim, ninguém entendeu. Era praticamente um caso perdido. O nosso vizinho de terras tinha se suicidado. Deu um tiro na cabeça antes mesmo da vassoura de bruxa terminar de varrer a sua plantação. Nas fazendas da minha família o cenário também era de horror. Os colaboradores estavam derrubando jacarandás para fazer cabo de vassoura.

“Lançamos a primeira embalagem compostável, 100% vegetal, que, após o consumo, desaparece em até 180 dias, agregando nutrientes ao solo”

E como você conseguiu, nesse momento tão crítico, conscientizar os trabalhadores?
Eu cheguei de mansinho, explicando para cada um deles que uma fazenda transformada em pasto não interessava a ninguém, muito menos a eles, que não teriam mais do que viver. Muito mais interessante, em termos produtivos, seria preservar uma das regiões mais ricas em biodiversidade do mundo. Só em Itacaré foram identificadas mais de 450 espécies de árvores por hectare.

E quais foram os resultados?
Começaram a aparecer muito rapidamente. Primeiro, foi também preciso convencer os trabalhadores a valorizarem um fruto tão desacreditado como o cacau.  Eles estavam acostumados a misturar os grãos de cacau bons com os estragados. Depois, fui aos poucos introduzindo uma nova mentalidade de plantio e cultivo, 100% orgânica. Em três anos, dobramos a produção de cacau. Mais do que isso: eliminamos totalmente a incidência de vassoura de bruxa. O nosso cacau passou a ser tão forte que conseguiu resistir à praga.

E quais são os planos daqui para frente?
A nossa obsessão sempre foi recuperar as florestas brasileiras. Fazer do chocolate um dos agentes dessa frente de resistência, que se mostra ainda mais importante nos dias de hoje. A nossa palavra de ordem aqui é regeneração. E uma coisa leva à outra: mais cuidado com o plantio, com o cultivo, com a preservação, mais qualidade. É um movimento sem volta. Num futuro próximo o chocolate será um produto muito mais refinado, mais exclusivo, por uma mera questão produtiva.

“A nossa obsessão sempre foi recuperar as florestas brasileiras. Fazer do chocolate um dos agentes dessa frente de resistência, que se mostra ainda mais importante nos dias de hoje”

Por quê?
Porque o consumo vem aumentando e a produção diminuindo. A maior produção de cacau vem da África. E lá, a grande maioria dos produtores já está à beira da aposentadoria. E sem sucessores. Na Indonésia, por exemplo, o terceiro maior produtor mundial, cada vez mais se desmata a floresta para extrair óleo de palma. Enquanto isso, a demanda por chocolate com mais cacau aumenta todo ano, por causa do crescimento dos produtos orgânicos.

Essa conta não vai fechar…
Não vai. O chocolate vai virar um produto muito mais exclusivo, caro, porém com alta qualidade. Ninguém mais vai comprar chocolate em supermercado. Existirão muito mais marcas como a AMMA. E a produção não estará mais nas mãos das grandes indústrias e sim dos pequenos e médios produtores.

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