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Um pacote de bolacha Oreo por US$ 17 mil? A “culpa” é da Supreme

Avaliada em US$ 1 bilhão, marca de streetwear levou a moda de rua para novos endereços e possibilidades. Colecionadores chegam a pagar para guardar lugares nas filas dos lançamentos, quando produtos comprados por US$ 8 podem ser revendidos por US$ 17 mil

 

À esquerda, casaco Supreme feito para a Louis Vuitton e, à direita, bolacha resultado da parceria com a Oreo

No começo de fevereiro, um pacote de bolacha Oreo que custava US$ 8 esgotou nas prateleiras. Mas ainda pode ser encontrado por inacreditáveis US$ 17 mil no site de leilões eBay.

Sob qualquer régua, é um absurdo pagar US$ 17 mil por um pacote de bolacha que custa alguns poucos dólares. Mas o biscoito desejado tinha o “toque de Midas” da Supreme, com sua marca estampada.

Para quem não conhece, a Supreme é uma grife de streetwear cultuada pelos skatistas, e queridinha de muitas empresas. A empresa, fundada em 1994, em Manhattan, foi a “manobra” mais arriscada do empresário americano James Jebbia.

Desde então, a grife já foi estampada nos mais diversos produtos, da tradicional Louis Vuitton até os isqueiros Zippo, as garrafas Nalgene e, acredite, os sacos plásticos Ziploc.

Mas, quando surgiu, a Supreme não tinha nenhum glamour. Os produtos da primeira loja eram dispostos no perímetro do espaço, deixando o seu centro completamente livre. O layout então inédito fazia sentido entre a clientela: ali, os skatistas tinham espaço de sobra para transitar com suas mochilas e acessórios.

Esse “detalhe” arquitetônico agradou o público certo, na hora certa. Em 1995, foi rodado o controverso filme “Kids”, do diretor Larry Clark, que contava a história de adolescentes nova-iorquinos que consumiam álcool e drogas sem moderação.

A trama, que virou um ícone do universo cult, explorava a subcultura do skate em Manhattan e alguns dos figurantes do longa trabalhavam como vendedores na primeira loja da Supreme.

O entra-e-sai de skatistas aumentou junto com a popularidade do filme. Até que a marca chegou ao armário de Tony Hawks, uma lenda vida no mundo do skate.

Num documentário sobre a sua vida, Hawks se deixou filmar usando uma camisa com o logo nada original da Supreme: um bloco vermelho com letras brancas.

Embora não traga exatamente um diferencial estético, o apelo visual da marca foi suficiente para captar a atenção de um telespectador “especial”: o jogador de basquete TJ Warren.

O camisa 1 do Indiana Pacers abriu o meio-de-campo para a marca de Jebbia deslanchar na NBA, a liga profissional de basquete dos EUA, onde foi usada por craques como Kobe Bryant, ex-astro dos Los Angeles Lakers, que morreu há poucas semanas num acidente de helicóptero.

Essa “propaganda gratuita” da Supreme por astros dos esportes chamou a atenção do público, mas também de empresa e artistas. A partir daí, a marca passou a firmar parcerias estampando sua logomarca em uma série de produtos de outras companhias, como a americana Vans, a japonesa A Bathing Ape e a inglesa John Smedley. A marca também contou com a colaboração de criativos como o fotógrafo Terry Richardson, Damien Hirst e Jeff Koons.

Das colaborações que estabeleceu, a mais longeva é com a Nike, e, entre os tênis que fizeram juntas, o mais valioso deles é o Nike Dunk SB Low Paris. O modelo está sendo leiloado no site StockX, especializado na revenda de sneakers, por um lance mínimo de US$ 79,9 mil.

O tênis Nike Dunk SB Low Paris, feito em parceria com a Supreme, está sendo leiloado no site StockX por um lance mínimo de US$ 79,9 mil

Embora seja “um pouco” acima da média, as cifras da Supreme tendem a ser altas mesmo. Jebbia justifica os valores com a qualidade, e garante que a etiqueta é o mais razoável possível. “Fazemos o produto da melhor forma possível, cobrando o valor mais justo que somos capazes. Não queremos uma camiseta de US$ 600, mas uma que custe por volta de US$ 100”, disse o empresário em entrevista à revista americana GQ.

Na internet, um tapete de porta da marca é vendido por US$ 168 e um moletom branco que traz apenas o logo da empresa é anunciado por US$ 1,2 mil no site de luxo Farfetch.

Ainda de acordo com Jebbia, os valores justos para itens de tão boa procedência se devem à estrutura comercial da marca, que se apoia em suas lojas físicas e seu e-commerce. Alguns produtos feitos em parcerias também são negociados em outros canais de venda que façam sentido.

Um bom exemplo de itens vendidos em plataformas de lifestyle diversas são os modelos frutos da parceria que a empresa de Jebbia estabeleceu com a Louis Vuitton, em 2017. Juntas, as gigantes lançaram vários produtos, entre eles um casaco que atualmente é avaliado em mais de US$ 7 mil e um baú vendido por mais de US$ 205 mil. O craque Neymar, por exemplo, é um assíduo usuário da marca.

As cifras altas, no entanto, não intimidam a clientela. Fãs da marca encaram horas de fila para garantir acesso em primeira mão aos lançamentos da empresa. O jornal britânico The Guardian revelou em uma reportagem que alguns colecionadores chegam a contratar pessoas para guardar lugares nessas filas.

Tanto alvoroço ao redor da grife chamaram a atenção do fundo de private equity Carlyle, que comprou 50% das ações da companhia, avaliando a Supreme em US$ 1 bilhão.

Por se tratar de uma empresa privada, os números, metas e planos da Supreme não são divulgados. A única certeza que é que nenhum centavo foi ou será gasto com marketing.

Desde o princípio, Jebbia sempre fez do bom e velho “boca-a-boca” sua única ferramenta de publicidade. E parece que funcionou:  o empresário foi de uma unidade avulsa em Nova York para uma rede composta por onze lojas, em diferentes cidades – Los Angeles, Brooklyn, São Francisco, Paris, Londres e Tóquio. Nesta última, seis lojas Supreme estão em operação.

Em todas elas, o empresário parece desafiar os limites da moda, aplicando sua marca a itens que escapam às passarelas. Nas mãos da Supreme, a moda de rua ganhou novos endereços, possibilidades e valores.

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