Especial

Dados, computação quântica e robôs: a Ford não é mais (apenas) uma fabricante de carros

Com a redução das vendas de veículos, a centenária empresa americana está se reinventando. E, além de investir em carros elétricos, pretende lançar um serviço autônomo de entregas em 2021. E com direito a robôs completando o percurso final

 

Ford vai usar o robô Digit, que já é produzido comercialmente, para seu serviço de entrega que integra carros autônomos com humanóides

Las Vegas – Ao dedicar boa parte de sua área na CES 2020, maior feira de tecnologia do mundo, à exibição de um robô, a Ford mostrou que quem não está recalculando a sua própria rota já está perdido. 

A centenária fabricante de carros tem também “derrapado” nas curvas da desaceleração do setor, que, apenas nos EUA, viu as vendas de automóveis recuarem 1,3% em 2019. Para sair deste aparente beco sem saída, porém, a empresa se recusou a dar marcha ré. 

Embora esteja investindo em novos modelos de carros, sobretudo os elétricos, como o Mustang Mach-E – também um dos destaques na CES –, a Ford apontou uma nova direção ao confirmar sua intenção de lançar um serviço de transporte (de pessoas e bens) totalmente autônomo em 2021. 

O veículo da marca que vai permitir dispensar motoristas foi desenvolvido em parceria com a Argo AI, empresa que, desde sua fundação, em 2016, recebeu US$ 3,6 bilhões em investimentos, sendo pelo menos US$ 1 bilhão da Ford. 

Para tornar o projeto ainda mais ambicioso, a organização anunciou que pretende adicionar os robôs Digits à essa equação. Criado pela Agility Robotics, o humanóide deve preencher a lacuna inicial e final do processo de entrega, aquela entre o balcão e a porta do carro e, depois, entre a porta do carro e o cliente.

Com pernas, braços e inteligência artificial que o permite interagir com humanos de carne e ossos, o Digit já começou a ser produzido comercialmente – e a Ford é seu primeiro cliente.

O robô modelo apresentado na feira, em Las Vegas, já trazia os últimos retoques: pés mais avançados, que permite ao robô se equilibrar em um pé ou contornar cuidadosamente os obstáculos, novos sensores de navegação e um hardware de computação embarcado mais potente.

“À medida que o varejo online continua crescendo, acreditamos que os robôs ajudarão nossos clientes comerciais a construir negócios mais fortes, tornando as entregas mais eficientes e acessíveis para todos”, diz Ken Washington, vice-presidente de Pesquisa e Engenharia Avançada da Ford.

Mas tanta tecnologia atrás do volante é inútil se ela não pode conversar com as ruas: carros inteligentes dependem de cidades inteligentes. Pegando carona nesta oportunidade, a Ford mostrou, na CES 2020, o poderio de seu departamento de análise de dados City Insights.

Sob a liderança de Bill Frykman, o departamento tem como missão traduzir todas as informações que recebe em ações práticas que visam a garantir maior segurança e fluidez no trânsito. 

“Temos trabalhado com cidades, condados e até Estados para potencializar as oportunidades identificadas. E isso não se limita aos Estados Unidos. Fizemos um workshop na Cidade do México e fomos procurados também pelo Oriente Médio”, conta Frykman ao NeoFeed.

Ainda segundo o executivo, as soluções encontradas a partir da análise de dados não são intangíveis. “Se trocarmos, por exemplo, os sinais de ‘pare’ nos cruzamentos por rotatórias, há provas empíricas de que isso reduziria o número de acidentes”, afirma Frykman. “Aliás, se implementarmos algumas dessas medidas de segurança que identificamos na cidade de Dearborn (Michigan), reduziríamos o custo com acidentes em US$ 6 milhões ao ano. Sem falar as vidas que salvaríamos com isso.” 

Mas, para resolver todos os complexos desafios da mobilidade urbana, é preciso pensar “fora da caixa”. E é aí que entra em cena o Dr. Joydip Ghosh, responsável pelo departamento de computação quântica da Ford. 

Ghosh explica ao NeoFeed que a computação quântica pode ser o grande “oráculo” da mobilidade urbana, se soubermos fazer a pergunta certa. “O maior desafio que enfrentamos é justamente esse: conseguir formular as questões de forma que a computação quântica possa processar e nos dar uma resposta prática”, diz o especialista em computação quântica da Ford.

Para ilustrar melhor esse cenário tão distante da maioria dos usuários, Ghosh analisa um cenário bastante palpável. “Imagine que tenhamos mil usuários solicitando simultaneamente caronas por um aplicativo. Cada pedido é processado individualmente e todos esses motoristas provavelmente façam uso do mesmo aplicativo de trajeto e de alerta de trânsito. Essa prática resultará, inevitavelmente. em congestionamento.” 

Com a computação quântica, pode-se processar uma rota alternativa otimizada, que distribua o trânsito e evite engarrafamentos. “Ruas e avenidas congestionadas são um problema difícil de resolver com algoritmos e softwares comuns”, afirma Ghosh. 

Já a computação quântica poderia ser uma luz no fim do túnel para um problema tão comum nas grandes metrópoles mundiais. O motivo é simples. A tecnologia trabalha com sobreposição e interferência. Grosseiramente falando, a computação quântica trabalha com um pensamento em “diversas dimensões”, ao contrário da tradicional, que funciona no sistema binário de zeros e uns. 

Essa inteligência já vem sendo aplicada em Seattle, onde Ford e Microsoft se uniram para propor novas soluções ao trânsito local. E os resultados têm sido animadores. 

De acordo com a empresa, aplicar a computação quântica naquele problema de milhares de pessoas pedindo carona ao mesmo tempo resultou em uma melhoria de 73% no congestionamento total e em uma redução de 8% no tempo médio de deslocamento. 

Embora tenha consciência do potencial disruptivo que seu setor tem nas mãos, Ghosh afirma que a computação quântica ainda está em engatinhando. E não apenas na Ford, mas no mundo. 

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