Com números superlativos, que reforçam a estratégia do governo de aumentar os desembolsos de créditos para financiamento visando o estímulo da economia, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou na terça-feira, 25 de fevereiro, o balanço do quarto trimestre e o seu resultado consolidado em 2024.

Durante a apresentação, o presidente do banco, Aloizio Mercadante, destacou que o BNDES atingiu “a maior injeção de crédito da história” da instituição, com aprovações e garantias a financiamentos que chegaram a R$ 276,5 bilhões em 2024 – aumento de 22% em relação ao ano anterior e de 81% comparado a 2022, último ano da gestão Jair Bolsonaro.

A carteira de crédito registrou aumento da 13% em comparação com o ano passado, o maior porcentual desde 2017. Outros dados confirmaram os resultados robustos obtidos pelo banco em 2024, entre eles o lucro líquido de R$ 26,4 bilhões, aumento de 20,5% em relação ao ano anterior, e o crescimento de 4,7% do patrimônio líquido no mesmo período.

"São resultados muito fortes, tivemos avanços muito expressivos", afirmou Mercadante, durante a apresentação da diretoria, ressaltando que a aprovação de crédito do BNDES está em 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, enquanto os desembolsos estão em 1,1%: “A expectativa é que a aprovação se mantenha em torno de 2% do PIB e os desembolsos em 1,5% do PIB até 2026.”

A pisada no acelerador da atual gestão em aprovar medidas para incentivar financiamentos vem causando preocupações no mercado financeiro e entre economistas de uma possível volta do “velho” BNDES dos governos petistas anteriores - uma torneira aberta de concessão de crédito que acabou elevando a inflação e contribuindo para mergulhar o País na crise econômico-financeira de 2015-2016.

Entre essas preocupações, a contradição entre a ampliação do crédito do BNDES e as limitações impostas pelo arcabouço fiscal, num momento em que a equipe econômica e o Banco Central lutam para conter o aumento da inflação.

Na semana passada, o NeoFeed ouviu economistas que mostraram como o governo federal está usando desembolsos crescentes do BNDES como atalho para driblar as limitações do arcabouço fiscal – a chamada política parafiscal, pela qual o governo repassa ao banco recursos do Orçamento transformados em elevadas concessões de crédito, alimentando a inflação.

Na apresentação dos resultados, o diretor de planejamento de relações institucionais, Nelson Barbosa, não se referiu às medidas parafiscais, mas voltou a negar que o BNDES esteja retomando a mesma trajetória de crescimento descontrolado dos anos 2010-2014.

“O tamanho do BNDES no final de 2024 representa um banco de R$ 841 bilhões e 7,1% do PIB, abaixo da série histórica de 7,5% de 2008 e menos da metade do BNDES da crise de 2010-2014, quando respondia por 15% do PIB, isso é fato”, advertiu. “Essa preocupação é infundada, uma vez que o BNDES cresce em bases sustentáveis.”

Segundo ele, o banco representou apenas 1,4% de todo o fluxo de crédito da economia em 2024, valor equivalente ao visto antes da crise de 2008.

Embora 61% do crédito concedido pelo banco tem taxas incentivadas, Barbosa observou que, retirando contratos do Plano Safra e do crédito emergencial ao Rio Grande do Sul, o crédito incentivado representou apenas 3,7% do total.

Em outro momento, o diretor da área financeira do BNDES, Alexandre Abreu, destacou que o aumento de recursos do banco se deu pela rubrica do FAT (Fundo de Auxílio ao Trabalhador), do aumento de captações internacionais – aproveitando os juros mais baixos em relação ao mercado interno – e de recursos da Letra de Crédito de Desenvolvimento (LCD), papel criado no ano passado que já rendeu R$ 9 bilhões ao banco.

Segundo ele, receitas com dividendos e juros sobre o capital próprio não incluídas no lucro recorrente somaram R$ 10,4 bilhões, basicamente oriundas da Petrobras e da JBS. A carteira de ações do banco somou R$ 82 bilhões em 2024 (valorização de R$ 19 bilhões), com destaque para Petrobras, Eletrobras, JBS e Copel.

"Se tivéssemos vendido essas ações, teríamos perdido esse dinheiro", afirmou Abreu, criticando a gestão anterior, que optou por reduzir a participação acionárias em empresas.

Indústria beneficiada

Outros indicadores reforçaram os setores escolhidos pelo branco para priorizar a concessão de crédito. A indústria segue como a preferida - pela primeira vez desde 2017 ficou à frente do agronegócio nas aprovações de financiamentos pelo banco, com aumento de 132% em relação a 2022.

No total, foram aprovados R$ 190 bilhões em 2023 e 2024 dentro do programa Nova Indústria Brasil (NIB). Depois vêm o agro (aumento de 92% em crédito em relação a 2022), comércio (+83%) e infraestrutura (+16%).

Na apresentação, duas áreas chamaram a atenção: a política de desembolsos para pequenas e médias empresas (PMEs) e a mudança de estratégia em infraestrutura.

Segundo Mercadante, o financiamento para PMEs foi recorde no ano passado, com R$ 156,3 bilhões liberados  - 119,8% mais do que em 2022, último ano do governo anterior.

A menção teve duplo alvo: uma crítica indireta à gestão Bolsonaro, que havia priorizado a concessão de crédito do BNDES para PMEs, e a confirmação de que a atual gestão deixou de lado a política de "campeões nacionais" de gestões anteriores do PT.

Na área de infraestrutura, Mercadante confirmou uma mudança no perfil de investimentos do banco, com o setor de saneamento perdendo espaço para o crédito rodoviário.

Em 2024, o banco aprovou um volume recorde de crédito para concessões rodoviárias, totalizando R$ 23,5 bilhões. Este ano estão previstos 15 leilões de rodovias federais e o banco está apostando em financiamentos via debêntures de infraestrutura, títulos de dívida que não têm cobrança de Imposto de Renda (IR).

“Tivemos no ano passado a maior emissão de debêntures de infraestrutura da história do Brasil, com R$ 9,4 bilhões do BNDES, na ampliação da Via Dutra”, destacou Mercadante. “A expectativa é que o crédito para rodovias alcance R$ 30 bilhões em 2025.”

Ao longo de 2024, o BNDES aprovou R$ 28,2 bilhões em financiamentos de todas as áreas do setor via debêntures de infraestrutura. O total aprovado com uso desses papeis foi quase o dobro dos R$ 14,4 bilhões de 2023.

Esse tipo de operação é diferente dos tradicionais empréstimos. Nos empréstimos, o BNDES contrata um valor total e libera o crédito aos poucos, conforme o andamento dos investimentos — que pode levar anos. Com as debêntures subscritas pelo banco, o BNDES ajuda a empresa cliente a buscar investidores para participarem do financiamento.

Antes do anúncio de resultados do banco, o BNDES aprovou a financiamento de R$ 7,3 bilhões para a EcoRioMinas, concessionária que opera o antigo trecho da Rio-Teresópolis. Desse valor, R$ 6,6 bilhões serão repassados via debêntures.

Confirmando a continuidade da política de liberação de crédito, Mercadante defendeu a atuação do banco. “Há um esforço imenso do BNDES para contribuir com o arcabouço fiscal”, assegurou, mas evitando cravar se esse esforço vai prosseguir em 2025.

“Depende de como vai evoluir a economia, nossos desembolsos e crescimento do crédito – ou seja, depende dos resultados do banco”, prosseguiu, reclamando de setores de imprensa. “Precisamos lidar com stalkers institucionais, críticos ao desembolsos, que estão presentes no debate, mas isso faz parte da democracia.”