O conflito no Oriente Médio provocou forte aversão ao risco pelo segundo dia consecutivo. Na terça-feira, 3 de março, o preço do petróleo subiu e as bolsas globais caíram.
No Brasil, o clima de pânico global derrubou o Ibovespa em 3,28%, após chegar a cair mais de 4,4% pela manhã, marcando uma das maiores quedas desde 2025. O dólar fechou em alta de 1,91%, alcançando R$ 5,265, impulsionado pela fuga de capitais e pela busca por proteção em ativos considerados mais seguros, movimento que intensificou a evasão de divisas do País.
Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos - grupo financeiro que mantém corretora, private banking e uma plataforma de investimentos com mais de 1 milhão de clientes -, a reação negativa dos últimos dois dias era esperada após esses eventos no Oriente Médio.
“Ainda é cedo para formular hipóteses consistentes sobre o futuro da economia mundial e brasileira”, diz Camargo, ao NeoFeed. “O que seria surpreendente e mais preocupante é uma crise prolongada."
Para Camargo, o cenário de incerteza quanto aos efeitos da guerra está levando investidores a buscar segurança nos Estados Unidos, revertendo a tendência de 2025 e início de 2026 de entrada de recursos no Brasil, sobretudo em renda fixa.
O fato de a próxima reunião do Copom estar agendada para 18 de março, porém, pode levar o Banco Central (BC) a ser mais cauteloso no início do ciclo de corte de juros. Camargo afirma que a Genial previa um corte de 0,50 ponto percentual (p.p.) na Selic agora em março, levando os juros até 12% ao ano no fim de 2026.
“Com a guerra, aumentou a probabilidade de um corte menor, de 0,25 p.p., por exemplo, na reunião do dia 18. Se a crise persistir por mais tempo, existe a possibilidade de encerramento do ciclo de corte de juros em dezembro acima de 12%”, afirma o especialista.
Segundo ele, a divulgação dos dados do PIB do País - crescimento de apenas 0,1% no quarto trimestre e consolidado de 2,3% no ano - não influenciou na queda do Ibovespa na terça, 3, pois os resultados eram esperados. E o governo tem poucas ferramentas para atenuar o impacto da crise externa.
“Como o choque é externo e geopolítico, não há muito que o governo brasileiro possa fazer além de evitar expansão fiscal adicional e resguardar a independência do Banco Central”, diz ele.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Os mercados caíram, aqui e no exterior, por causa da ofensiva conjunta dos EUA e Israel contra o Irã e da resposta iraniana, internacionalizando o conflito no Oriente Médio. A reação dos mercados surpreendeu, tendo em vista que existe ampla oferta de petróleo?
A reação negativa dos últimos dois dias era esperada após esses eventos no Oriente Médio. O que seria surpreendente e mais preocupante é uma crise prolongada. Por isso, ainda é cedo para formular hipóteses consistentes sobre o futuro da economia mundial e brasileira; é necessário acompanhar a evolução do conflito. Mas o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 30% do petróleo bruto do mundo, pode levar o preço do barril, hoje na faixa de US$ 80, para acima de US$ 100, causando uma pressão nos Estados Unidos, onde a gasolina impacta diretamente no índice de inflação. O preço da gasolina nos EUA é livre e muito suscetível a essas crises.
“Se o petróleo subir além de US$ 100 o barril e pressionar preços, o Fed pode manter postura mais cautelosa em relação à política monetária”
Isso pode afetar outros setores da economia americana?
Se o petróleo subir além de US$ 100 o barril e pressionar preços, o Fed pode manter postura mais cautelosa em relação à política monetária, o que reforça a fuga para ativos seguros e amplia a desvalorização de moedas emergentes, retroalimentando a pressão global.
Qual é o maior impacto até aqui no Brasil, na sua visão?
A guerra e o impacto no mercado de petróleo com o fechamento do Estreito de Ormuz levaram investidores a buscar segurança nos EUA, revertendo a tendência de 2025 e início de 2026 de entrada de recursos no Brasil, sobretudo em renda fixa. Essa busca por menor incerteza é típica em crises, e já se observa desvalorização do real e saída de capitais. O índice Bovespa, que vinha bem no ano, já sente esse cenário mais sombrio.
A crise atual pode impactar no início do ciclo de cortes da Selic pelo Banco Central?
Ainda é cedo para o BC adotar medidas drásticas. A intensidade e duração do conflito serão determinantes para a trajetória dos mercados e para a necessidade de resposta monetária. As primeiras reações foram negativas, mas a avaliação estrutural depende da persistência do choque. Persistindo a alta do petróleo combinada com desvalorização cambial, a inflação sobe e pode forçar o Banco Central a interromper o ciclo de cortes da Selic mais cedo. O fato de a próxima reunião do Copom ocorrer no próximo dia 18, aumenta a possibilidade de o BC tomar uma postura cautelosa.

Isso seria não iniciar já o ciclo de cortes ou começar cortando os juros abaixo do esperado?
Nossa projeção inicial aqui na Genial era de um corte de 0,50 p.p. na Selic agora em março, levando os juros até 12% ao ano no fim de 2026. Com a guerra, aumentou a probabilidade de um corte menor, de 0,25 p.p., por exemplo, na reunião do Copom da semana do dia 18, dependendo da evolução internacional. Caso o cenário externo permaneça adverso por um ou dois meses, é provável maior cautela, com possibilidade de encerramento do ciclo de corte de juros em dezembro acima de 12%. Mas se a crise se dissipar rapidamente, o impacto sobre a política monetária pode ser nulo.
O anúncio do PIB brasileiro do quarto trimestre (0,1% de crescimento) e do consolidado do ano em 2,3% influenciou na forte queda de hoje do Ibovespa?
O PIB estagnou no segundo semestre, com crescimento concentrado no primeiro, refletindo a intensidade da política monetária e juros elevados. Houve queda de investimentos e estagnação do consumo das famílias. Apesar disso, a queda na Bolsa do dia foi atribuída principalmente ao cenário externo, com os dados domésticos tendo pouco peso nesse movimento.
Há algum espaço para a equipe econômica do governo tomar alguma medida fiscal para conter o impacto aqui da crise lá fora, caso ela se prolongue?
Como o choque é externo e geopolítico, não há muito que o governo brasileiro possa fazer além de evitar expansão fiscal adicional e resguardar a independência do Banco Central para calibrar a política monetária. Interferência do governo na política monetária seria um risco negativo relevante.
O fato de o presidente Donald Trump ser imprevisível em suas iniciativas, causando incerteza política nos EUA, tende a agregar um “prêmio de risco” aos ativos americanos?
Tradicionalmente, os ativos dos EUA têm “prêmio zero” de risco. Houve aumento pequeno no prêmio sob a gestão Trump, dada a imprevisibilidade e choques, como nas tarifas e intervenções militares que ele fez. Mesmo assim, em comparação aos emergentes, a percepção de segurança dos EUA segue maior, e crises como a guerra tendem a reverter fluxos para lá.
“Houve aumento de prêmio de risco nos EUA por causa de Trump, mas a percepção de segurança lá segue maior que nos países emergentes”
O fato de Trump estar com popularidade em baixa e necessitando criar fatos novos para a eleição de meio de mandato não significa mais instabilidade para os mercados até o segundo semestre?
A incerteza sobre ações futuras de Trump e o desfecho da guerra tornam difícil precificar o cenário até dezembro. Ou seja, há muita dificuldade de antecipar agenda e duração da crise. Mas o mercado ajusta posições conforme sinais de resolução ou escalada.