O setor elétrico brasileiro pode entrar em “curto-circuito” nas próximas semanas se o governo federal não conseguir uma solução para reduzir o descompasso entre a geração de energia e o consumo, que gera um pico de sobrecarga a partir da falta de demanda. A avaliação é de Ricardo Lisboa, sócio-fundador da Delta Energia.
“Estamos perto de um novo apagão no Brasil por excesso de oferta. A rede não cai só por falta de energia. Quando tem sobreoferta na rede, ela também se desliga, como uma forma de proteção”, diz Lisboa, ao NeoFeed.
Segundo ele, o caminho é incentivar o aumento do consumo, principalmente em relação às grandes indústrias e implementação de equipamentos como data centers. Sem uma ação prática, o problema pode vir à tona no mês que vem.
“Poderemos ter uma crise em julho. Só que o preço da energia no País não ajuda esse aumento de consumo. Ao contrário. Por isso que tantas empresas estão indo para o Paraguai”, afirma.
E, caso haja, de fato, este apagão, segundo o empresário, o Brasil poderia ficar alguns dias sem a distribuição de energia elétrica, justamente pelo fato de todo o sistema estar interligado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). “Se isso acontecer, eles precisam ter a agilidade para lidar com o problema.”
O problema maior está associado justamente à geração de energia por matrizes sustentáveis, como a eólica e a solar. Sem possibilidade de controlar o volume gerado, uma estratégia, segundo o empresário, está em gerar uma espécie de curtailment especificamente para pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), o que hoje não existe.
“Algumas delas não são controladas pela ONS. Quando isso acontece, é preciso pedir que as distribuidoras cortem. Houve um teste recentemente, mas que não deu o resultado esperado”, afirma Lisboa, que foi presidente do conselho da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel).
Para fugir em partes deste impacto e deste custo, a partir de uma necessidade forçada de interrupção de energia, a Delta Energia tem colocado seus “ovos” de investimentos em várias cestas. Com exceção de hidrelétricas, a companhia decidiu apostar em todas as matrizes energéticas, além de atuar em comercializadora.
Fundada em 2001 por Lisboa e Rubens Takano, a companhia atua no segmento de biocombustíveis, especialmente etanol e biodiesel, comercialização de energia para residências e pequenas e médias empresas (PMEs), geração térmica e solar, gestão de energia e mercado livre de energia e de gás.
“Essa é a parte boa da diversificação. Quando a comercialização não está indo muito bem, os outros negócios estão. E a gente nunca registrou dois ou três setores com problemas ao mesmo tempo. Um compensa o outro”, afirma.
Na visão do fundador da Delta Energia, que atua no segmento de combustíveis fósseis e sustentável, é muito difícil que o Brasil possa ter uma matriz 100% renovável. Hoje, o país gera 88% de sua energia a partir de fontes limpas.
“Existe uma vontade do mundo em ser totalmente sustentável no segmento de energia, mas isso é impossível. E quando há um pico de consumo, no fim do dia, quando o sol se põe, é preciso alternativa”, afirma. A Delta tem hoje 110 MW de capacidade de energia solar.
A perspectiva de Lisboa é que, em dois anos, de toda a receita da Delta, 40% venham do segmento de termelétrica, 30% de biodiesel, 10% da comercialização e os 20%, do varejo de energia.
A empresa não revela exatamente o faturamento, mas o sócio-fundador afirma que a receita da Delta está entre R$ 2 bilhões e R$ 5 bilhões, o que a coloca em um bloco de porte médio entre as companhias do setor.
Interesse no termelétrico
A expectativa de crescimento no setor termelétrico explica o interesse da empresa na participação do leilão de reserva de capacidade de energia elétrica, realizado em março pelo Ministério de Minas e Energia, e que gerou uma contratação de cerca de R$ 515 bilhões.
A Delta venceu dois lotes, com projetos de geração termelétrica a gás natural, e que somam 235 MW de potência disponibilizada no sistema elétrico brasileiro. A empresa vai ampliar a usina termelétrica William Arjona, que terá capacidade de 67 MW e vai construir uma unidade de 168 MW. As unidades ficam em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
Na avaliação do fundador, estes projetos devem gerar, quando estiverem concluídos, uma receita extra de pelo menos R$ 1 bilhão, o equivalente a uma fatia de 20% do faturamento da empresa. “É algo relevante. Um projeto bem importante para a Delta.”
A ideia da companhia é de antecipar a entrega da primeira fase para agosto de 2027, que tinha como prazo anterior o mesmo mês de 2028. “Estamos conversando com os fornecedores e o governo para checar esta possibilidade da unidade que vai ser ampliada.” A segunda será em 2029. Lisboa não revela o volume de investimentos, mas diz que os recursos serão próprios.
O resultado do leilão chegou a ser suspenso pela Justiça Federal do Ceará, que argumentou que a contratação de energia geraria um custo anual de R$ 48 bilhões para a conta de luz dos consumidores. Mas, dois dias depois, a decisão foi derrubada pela Justiça do Distrito Federal.
“Não tenho mais preocupação quanto a qualquer risco de segurança jurídica. Para mim, seria uma surpresa qualquer problema. A Aneel já homologou”, afirma.
Na segunda-feira, 22 de junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou a minuta do segundo leilão de transmissão de energia neste ano, previsto para 30 de outubro. A perspectiva é que o certame gere investimentos de R$ 87,9 bilhões.