Na Oficina Muda, a moda tem um “up” a mais

A carioca Oficina Muda já recuperou 200 mil peças de marcas como Farm, Cantão, Animale, Dress to e Maria Filó dentro do principio upcycling. Agora, expande sua rede de butiques para São Paulo

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A Oficina Muda amplia vida útil das peças de vestuário, que pode incluir pequenos reparos ou a sua completa remodelagem

Já houve um tempo em que nem toda camiseta furada virava pano de chão. Muitos anos antes do fast-fashion acelerar radicalmente o consumo de vestuário, uma peça de roupa ganhava ajustes e remendos para continuar a sua jornada no guarda-roupa.

E é quase isso que propõe a Oficina Muda, que surgiu em 2019, no Rio de Janeiro: pegar roupas que foram recusadas pelo controle de qualidade das marcas – o que pode significar até 2% da produção das empresas – consertá-las e colocá-las à venda em butiques próprias.

Com quatro lojas no Rio, além de um e-commerce, a marca prepara a sua expansão para São Paulo, começando pela capital (na região de Pinheiros e Vila Madalena). “A ideia é ter quatro lojas em São Paulo e partir para o interior do estado”, diz Luiz Eduardo Lyra, sócio investidor da Muda, que vem dobrando de tamanho, ano a ano, e deverá faturar entre R$ 12 milhões e R$ 15 milhões este ano.

A Oficina Muda nasceu da cabeça da empresária Larissa Greven e começou a tomar forma em 2016, apostando no “upcycling” – termo que define esse “up” de vida útil para um item, que pode incluir pequenos reparos ou a sua completa remodelagem.

Três anos depois, com a entrada de Luiz Eduardo Lyra, a marca ganhou fôlego e uma flagship store no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, onde é possível ver costureiras em plena ação, transformando o que iria para o lixo em objetos de desejo.

“O objetivo é usar o upcycling não só como processo criativo, mas como forma de recuperar, nem que seja em parte, o valor comercial daquela peça”, explica Larissa. “Agregamos valor e sentido”.

Em média, cada roupa que é recuperada, vai para as araras da Muda custando 50% do valor original atribuído pela marca, às vezes, menos que isso. “Queremos que as pessoas entendam o valor desse trabalho”, diz Lyra.

Ele explica que a Oficina se apoia no tripé: marcas parceiras, preço acessível e apelo sustentável – uma vez que evita um maior acúmulo de lixo têxtil em aterros ou em áreas como o deserto do Atacama, que vem se tornando o lixão fashion do mundo.

Luiz Eduardo Lyra, sócio da Oficina Muda

O que Lyra chama de marcas parceiras são as que disponibilizam suas peças para a Oficina. São elas: Farm, Cantão, Animale, Dress to, Maria Filó, Agilità, Redley, Loja Três, A Teen, Love Dress, CCM e Sardina, por enquanto.

A grande vantagem, para as marcas fornecedoras, afirma o empresário, é trocar custo por faturamento, uma vez que deixam de gastar com armazenamento e descarte do que não teria mais valor de venda em suas lojas.

Vale dizer que os “defeitos” que fazem essas roupas serem rejeitas pode ser uma pequena mancha de sujeira ou a falta de um botão – o que pode ser facilmente solucionado. “Acredito que somos os primeiros a fazer esse tipo de negócio nessa escala, no Brasil”, diz o empresário. “Mesmo no exterior não conheço nada assim.”

Em 2021, a Oficina Muda chegou a processar cerca de 200 mil peças. Tudo isso é feito em um centro de distribuição localizado no bairro do Santo Cristo, no Rio de Janeiro, com 1.500 m², onde trabalham 15 costureiras. “Fazemos um upcycling de larga escala, cujo objetivo não é descaracterizar as peças, mas deixá-las o mais próximo de seu estado original, quando possível.”

Para dar conta do trabalho, a Oficina Muda tem uma verdadeira linha de montagem, que separa os tipos de artigos, analisa o que precisa ser feito e direciona para o serviço adequado – que vai de costura e lavagem e até a confecção de algo totalmente novo, a partir de retalhos e outros materiais. Uma vez nas lojas, cada peça traz a tag de sua marca original, junto com uma etiqueta da Muda contando como ela foi recuperada.

Com a Relevo, a Oficina Muda fez roupas a partir de tecido de guarda-chuva quebrado

A empresa também investe em coleções especiais, como a desenvolvida para a Farm, em fevereiro de 2020, e que foi comercializada em um corner dentro da Casa Farm. Mais recentemente, a Oficina desenvolveu uma coleção junto com a marca Relevo Store, para criar roupas e acessórios a partir de tecidos de guarda-chuvas quebrados.

Os próximos passos da Muda incluem a criação de outro centro de distribuição, em São Paulo, para abastecer o varejo local. “E nessa operação, queremos trabalhar com marcas paulistanas”, afirma Lyra, que também prepara o lançamento de uma linha masculina da Oficina Muda.

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