Passei seis semanas em Stanford interagindo com pesquisadores da Graduate School of Business, profissionais de venture capital, empreendedores, executivos de empresas como Apple, Meta e Cisco, além de gente de negócios de outros cantos dos Estados Unidos e de praticamente todos os continentes. Fui para aprender, naturalmente.
Voltei com mais perguntas do que respostas, o que talvez seja a melhor definição de uma boa temporada por lá. Ter vivido tudo isso justamente quando a inteligência artificial acelera de forma quase desconcertante tornou estas semanas ainda mais especiais.
No Vale, existe uma lei que todos conhecem. A Lei de Moore diz, de forma simplificada, que a capacidade dos chips tende a dobrar em ciclos de aproximadamente dois anos. Há décadas se anuncia a sua morte. Porém, com alguma adaptação, ela continua vivíssima. Mas outra lei parece explicar melhor o espírito atual do lugar: a Power Law.
A ideia é simples. Em muitos mercados, poucos vencedores ficam com uma parcela desproporcional do valor criado. Vale para aplicativos, plataformas, empresas e fundos. A Nvidia é o exemplo mais visível. Sua posição em chips para AI criou um abismo em relação aos concorrentes.
No mercado financeiro, vemos fenômeno semelhante quando algumas empresas atraem volumes gigantescos de recursos e viram os chamados flow monsters. Quanto mais fluxo recebem, mais liquidez ganham, mais entram nos índices e mais fluxo atraem. O sucesso passa a financiar o próprio sucesso.
O venture capital talvez seja a expressão mais pura dessa lógica. A maioria dos fundos entrega resultados que, ajustados ao risco e à falta de liquidez, não parecem tão extraordinários. Uma minoria, porém, captura retornos excepcionais.
Peter Ziebelman, fundador da Palo Alto Venture e ligado a Stanford, resumiu a dinâmica de forma provocativa: cerca de 90% das gestoras ficam próximas do retorno da bolsa, enquanto o grupo do topo concentra os múltiplos realmente fora da curva, retornando 3,5x o capital investido.
O capital percebe isso e corre para os vencedores. A power law atua duas vezes, nas empresas investidas e nos investidores que conseguem acesso a elas.
Tudo no mesmo lugar, por muito tempo
O próprio Vale do Silício é uma grande power law geográfica. A China apertou o cerco e a disputa tecnológica passou a ser inseparável da geopolítica. Israel também tem um ecossistema extraordinário, principalmente considerando-se o tamanho de sua população. Reino Unido e Índia formam empreendedores em escala relevante. Nova York, Boston, Austin e outros polos americanos produzem tecnologia de primeira linha.
Ainda assim, o Vale permanece em um patamar à parte. Nenhum outro ecossistema reuniu, por tanto tempo e no mesmo lugar, tamanho estoque de capital, conhecimento, ambição e, sim, tolerância ao risco. Ali estão várias das maiores empresas de tecnologia do planeta, os principais fundos de venture capital, uma concentração incomum de unicórnios e fundadores e, no centro de tudo, Stanford.
Muitas companhias globais mantêm seus braços de corporate venture capital na região. Executivos saem de uma big tech, criam uma empresa, recebem capital de alguém que já financiou dezenas de histórias parecidas e contratam gente que fez o mesmo percurso em outro lugar. O ecossistema recicla talento, dinheiro e reputação numa velocidade difícil de reproduzir.
A conclusão a que todos chegam é que não dá para copiar o Vale, nem mesmo dentro dos Estados Unidos. Mas é possível, isso sim, entender o ecossistema e extrair algumas lições. Para isso, vale olhar para quatro partes que sustentam esse sistema: a universidade, os founders, as big techs e os investidores de risco.
"Em Stanford, problemas difíceis não são evitados. Eles funcionam como ímã"
Stanford ocupa um lugar quase mítico nessa história. A narrativa mais conhecida começa com Frederick Terman, professor e depois reitor da Escola de Engenharia, incentivando William Hewlett e David Packard a construir uma empresa na Costa Oeste dos EUA, em vez de seguir o caminho habitual dos formandos e buscar oportunidades na Costa Leste.
A HP nasceu em 1939 e ajudou a inaugurar uma relação entre universidade e indústria que se tornaria uma das grandes vantagens competitivas da região. Décadas depois, mesmo tendo assistido ao declínio da própria HP, Stanford se tornou a universidade que mais formou fundadores de unicórnios.
O que mais chama atenção não é apenas a qualidade dos professores. É a escolha dos problemas. Em Stanford, problemas difíceis não são evitados. Eles funcionam como ímã.
Na GSB, Baba Shiv e Jonathan Levav recorrem à neurociência para entender como líderes tomam decisões, inclusive o papel do cortisol, da serotonina e da dopamina. A velha disputa entre razão e emoção reaparece com uma conclusão incômoda para quem gosta de imaginar o executivo como uma planilha ambulante: a emoção tem muito mais peso do que admitimos.
Como seria de esperar, AI está em toda parte. Fei Fei Li, uma das pioneiras do campo e que já foi executiva do Google Cloud, lidera pesquisas que aproximam inteligência artificial, visão computacional e robótica. Para quem acompanha isso do Brasil, parte da conversa ainda pode soar futurista.
No Vale, ela já circula pelas ruas. Waymos levam passageiros sem motorista e quase ninguém olha duas vezes. Robôs humanoides aparecem em demonstrações que hoje ainda têm bastante de entretenimento, inclusive dancinhas, mas apontam para aplicações que devem aparecer em breve em indústria, saúde, atividades domésticas e defesa.
As estrelas do show
Uma das discussões mais interessantes veio do economista Charles Jones, que está tirando uma licença de Stanford para trabalhar na Anthropic. Os Estados Unidos aumentam a renda por habitante a uma taxa média próxima de 2% ao ano há cerca de 150 anos, desempenho sem paralelo pela duração e consistência.
Esse crescimento foi construído por ondas sucessivas de inovação, das ferrovias ao automóvel, do telefone à internet. AI pode ser uma tecnologia mais poderosa e avançar mais rápido do que todas elas. Mas sua adoção será determinada pelos elos fracos: sistemas legados, regulação, mudanças de processo, treinamento e resistência humana.
A tecnologia pode correr a cem por hora e a empresa continuar esperando a integração com um sistema criado em 1998. Por isso, Jones acredita que AI deve elevar o crescimento, mas talvez não produza imediatamente os números quase mágicos que alguns imaginam. É possível que AI seja “meramente” a nova tecnologia que permita manter os mesmos 2% ao ano de crescimento.
Se Stanford é a usina intelectual, os founders são as estrelas do show. No Brasil, como executivo de banco e banqueiro de investimento, muitas vezes tive a sensação, falsa ou não, de estar perto do topo da cadeia alimentar corporativa. No Vale, banqueiros, advogados, consultores e auditores estão todos no mesmo nível. E esse nível fica alguns andares abaixo dos fundadores.
São eles que ocupam o Olimpo local. Alguns se tornam bilionários, outros poucos trilionários. Mas, mesmo os “meros” milionários, ainda conseguem uma mesa bastante boa no jantar. Professores citam fundadores com quem trabalham, aqueles que orientaram e os que passaram por Stanford. Isso não soa como celebridade vazia. É parte do sistema.
"Empresas financiadas por venture capital ajudaram a formar boa parte do topo do mercado americano"
Os founders têm traços em comum. Trabalham muito, é claro, mas sobretudo identificam problemas e perseguem soluções com uma intensidade fora do normal. A diferença é que, ali, os problemas escolhidos costumam ser grandes. Eles querem mudar o mundo, frase que em outros lugares pode soar pretensiosa, mas que no Vale funciona quase como descrição de cargo.
As big techs são o motor nessa engrenagem. Apple, Google, Meta, Nvidia, Intel e Cisco nasceram na região. O Google começou como um projeto de pesquisa em Stanford, em 1996. Seu primeiro sistema de armazenamento, montado com peças de Lego e fitas adesivas (é sério!) para acomodar discos rígidos, ainda está exposto no campus.
Tesla também nasceu no Vale e mantém sua fábrica em Fremont, colada à Stanford, embora tenha levado a sede para o Texas. Microsoft e Amazon, criadas em outros lugares, construíram operações relevantes ali. A interação entre seus executivos é constante, em conferências, encontros privados e projetos com Stanford.
Muitos executivos atuam como professores convidados, muitos professores atuam como mentores de executivos. As fronteiras entre universidade, empresa e investidor são porosas. Uma conversa acadêmica pela manhã pode virar tese de investimento à tarde e empresa alguns meses depois.
Os investidores de risco dão combustível a essa máquina. A maior concentração deles fica em Sand Hill Road, ao lado de Stanford, uma espécie de Faria Lima do Vale. A comparação, porém, termina aí. Não há prédios altos, trânsito de gente pelas calçadas ou restaurantes lotados de ternos.
Sand Hill parece uma região de campo, com árvores, escritórios discretos e muitos ciclistas (lá conhecidos como MAMILs, Middle Aged Men in Lycra).
A força econômica desse modelo é difícil de exagerar. Empresas financiadas por venture capital ajudaram a formar boa parte do topo do mercado americano. Entre as gigantes atuais estão Nvidia, Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla.
Cinco delas nasceram no Vale. O que começou como uma indústria de apostas em pequenas empresas se tornou um dos principais mecanismos de criação de valor do capitalismo americano.
Onde o futuro chega primeiro
E o Brasil nisso tudo? A resposta é um pouco frustrante. Visto de lá, o Brasil parece mais distante dessa fronteira do que imaginamos. Enquanto discutimos se AI deve ser usada para resumir uma reunião, há empresas construindo robôs, novos chips, modelos avançados e sistemas autônomos. Não se trata de desmerecer o que fazemos. A questão é reconhecer a velocidade e a escala do que está acontecendo.
Também estamos fora do centro do mapa dos grandes investidores globais. Em 2025, AI absorveu mais da metade do valor investido globalmente por venture capital, com uma concentração enorme nos Estados Unidos e na China (e a primeira metade de 2026 viu mais investimentos do que todo o ano de 2025).
A América Latina ficou com uma parcela ínfima (cerca de 2%). O consolo, que não é irrelevante, é que o Brasil aparece com frequência nas conversas sobre fintechs.
Professores citam empresas brasileiras como exemplos de inovação financeira, e David Vélez, fundador do Nubank, que estudou em Stanford, é mencionado de forma recorrente. Em pagamentos, crédito digital e infraestrutura financeira, temos algo real a ensinar.
Mas o risco é nos contentarmos com essa exceção. O Vale ensina que ecossistemas poderosos não nascem apenas de capital ou de boas universidades.
"Visto de lá, o Brasil parece mais distante dessa fronteira do que imaginamos"
Eles exigem circulação entre pesquisa e empresa, aceitação do fracasso, ambição global, capacidade de atrair talentos e, principalmente, vários caminhos para o sim. No Brasil, ainda somos especialmente talentosos em construir caminhos para o não.
Viver essas seis semanas em Silicon Valley foi ainda mais especial por acontecer no meio desta transformação acelerada de AI. As discussões sobre modelos fechados (também chamados de frontier models), como os da OpenAI e da Anthropic, e modelos abertos, incluindo alternativas chinesas como DeepSeek e Kimi K3, não são apenas debates tecnológicos.
Elas revelam uma disputa por padrões, talento, chips, dados e influência global. Condoleezza Rice, que foi Secretária de Estado americana e hoje (adivinhem…) é professora em Stanford, trata essa competição em linguagem geopolítica, como uma guerra velada. Faz sentido. O que está em jogo não é somente quem terá o melhor chatbot. É quem definirá a infraestrutura, as regras e os limites da próxima grande plataforma tecnológica.
Com essa rivalidade cada vez maior, é legítimo perguntar se o Vale do Silício ainda é o centro do Universo. Talvez a própria pergunta carregue a arrogância do lugar.
A China avança, Israel surpreende, a Índia ganha escala e ideias importantes podem nascer em qualquer lugar. Mas, depois de seis semanas ali, saí com uma impressão bastante clara: o Vale pode até não ser o centro do Universo. Mas ainda parece ser o lugar onde uma parte desproporcional do futuro chega primeiro.
*Renato Ejnisman é graduado em Física e mestre em Física Nuclear pela Universidade de São Paulo (USP), além de PhD em Física pela University of Rochester. Com décadas de experiência no mercado financeiro, integrou o comitê executivo do Santander Brasil, onde liderou o Santander Corporate & Investment Banking no país. No Bradesco, onde permaneceu por 16 anos, chegou a vice-presidente executivo e integrou a diretoria executiva por oito anos. Também foi CEO do banco digital next e liderou áreas como Bradesco BBI, Ágora, Private Bank e Bradesco Asset. Sua trajetória inclui ainda passagens pelo Bank of America, BankBoston e McKinsey.