Uma das principais gestoras de ativos alternativos da América Latina, o Patria Investimentos divulgou seu balanço de 2025 em 3 de fevereiro. No período, dois indicadores chamaram a atenção. O primeiro, uma captação recorde de US$ 7,7 bilhões no ano. O segundo foi a superação do patamar de US$ 50 bilhões de ativos sob gestão – a empresa fechou o ano com US$ 52,6 bilhões.

A meta de chegar a essa marca em 2025 havia sido definida dois anos antes, quando a gestora tinha dentro de casa pouco mais de US$ 27 bilhões. Agora, o Patria tem um novo objetivo. “A ambição agora é chegar a US$ 70 bilhões de ativos sob gestão em 2027. E ser uma das 30 maiores gestoras do mundo”, diz Daniel Sorrentino, managing partner e head global de clientes do Patria, ao NeoFeed.

A América Latina seguirá sendo o fio condutor desse roteiro. Ao mesmo tempo, as operações internacionais, em particular, em mercados como a Europa e os Estados Unidos, devem ganhar mais protagonismo no mapa da gestora, listada na Nasdaq e avaliada em US$ 2,2 bilhões.

"Diria que algo como um terço ou metade dessa expansão deveria vir desse projeto internacional”, afirma. “Toda semana, se não todo dia, alguma gestora importante anuncia uma nova transação. E nós queremos participar dessa história, com raízes latinas, mas sendo um dos grandes players globais.”

Nem tudo, porém, são flores nesse caminho. No fim de janeiro, o Patria viu suas ações derraparem após a SnowCap Research, casa de análise de short seller britânica, divulgar um extenso relatório explicando o motivo de ter montado uma posição vendida no papel da gestora.

Entre diversos pontos, o relatório aponta que o Patria estaria inflando os valuations de investimentos do seu portfólio e adiando o reconhecimento de perdas substanciais nos seus balanços. Além de colocar em xeque a liquidez da gestora.

“Somos uma empresa listada. Divulgamos os resultados em detalhes, sofremos escrutínios da SEC, dos nossos acionistas e investidores”, diz Sorrentino. “E o nível de diligência que sofremos de um investidor que vai investir US$ 100, 200, 300 milhões por 10, 15 anos antes dele tomar uma decisão é brutal.”

Ele completa: “O que temos é o nosso resultado e nossa mensagem, a nossa visão, o que acreditamos e estamos construindo. E, sobre isso, posso atestar que estamos muito satisfeitos com o que reportamos na última semana.”

Na entrevista, Sorrentino dá mais detalhes sobre os planos da gestora e fala ainda de temas como a mudança no fluxo global de alocação dos recursos de investidores. Confira:

O Patria divulgou seu balanço de 2025 na semana passada. O que os números dizem sobre o momento e, principalmente, sobre as perspectivas da operação?
Sem dúvida nenhuma, 2025 foi o melhor ano da história do Patria. Tivemos conquistas em todas as áreas de negócio, mas dois pontos foram destaques absolutos. O primeiro, a captação recorde de US$ 7,7 bilhões. Para dar um pouco da magnitude, cerca de 15% do que temos e mais de 40% do que captamos no ano anterior. É um sinal muito forte de que as direções estão corretas. E a conta que fazemos é que esse volume vai agregar aproximadamente US$ 45 milhões, US$ 50 milhões na receita nos próximos anos.

E o segundo destaque?
Nós atingimos um grande objetivo que era a marca de US$ 50 bilhões de ativos sob gestão. Na verdade, já passamos de US$ 54 bilhões.

Cumprida essa marca, o que vem pela frente? Qual é a meta para esse novo ciclo?
Esse ciclo é uma continuidade da estratégia, de um gestor local com escala global. A ambição agora é chegar a US$ 70 bilhões de ativos sob gestão em 2027, o que parece uma meta altamente factível. E ser uma das 30 maiores gestoras do mundo.

"A ambição agora é chegar a US$ 70 bilhões de ativos sob gestão em 2027, o que parece uma meta altamente factível. E ser uma das 30 maiores gestoras do mundo"

O quanto dessa nova meta virá dessa tese internacional, além da América Latina?
Diria que algo como um terço ou metade dessa expansão deveria vir desse projeto internacional e a outra metade ou, eventualmente, dois terços, de projetos da América Latina. É bem balanceado. Temos essa ambição de continuar fortalecendo essa posição relevante que temos na região e, ao mesmo tempo, vamos continuar expandindo nesses mercados maiores e mais desenvolvidos.

A impressão é de que esse projeto internacional está ganhando mais fôlego. O que explica esse movimento?
Sem dúvida, espaço e realidade. São duas grandes tendências que vemos hoje no nosso mercado. A primeira é um domínio dos maiores, as grandes gestoras conseguindo um espaço cada vez maior dentro dos seus clientes. E as marcas começam a ficar relevantes. Então, não invisto mais em private equity, invisto na Blackstone, na KKR, na Apollo. E, para ter marca, você precisa ser grande e ter escala.

E qual é a segunda tendência?
A segunda tendência, muito relacionada, é a de que os pequenos passam a enxergar os grandes como uma forma de participar dessa festa. Então, toda semana, se não todo dia, alguma gestora importante anuncia uma nova transação. E nós queremos participar dessa história, com raízes latinas, mas sendo um dos grandes players globais. E para participar desse mercado, você precisa ter uma escala global. Então, é por isso que essa pauta internacional começa a ganhar força.

Quais são os próximos passos nessa escalada?
A Europa é um caminho muito interessante que temos explorado. E lá, hoje, temos só a primeira parte da nossa história, que é o private equity. Então, pensamos na expansão para outras classes de ativos. Infraestrutura, crédito e investimentos em real estate são as nossas novas fronteiras.

E como e quando vocês planejam executar essa expansão no mercado europeu?
O importante é a capacidade de ter times e sócios locais, porque queremos ser reconhecidos como uma gestora local. Uma gestora brasileira no Brasil, uma gestora chilena no Chile, uma gestora inglesa na Inglaterra e assim por diante. Então, isso passa por encontrar sócios e pessoas que estejam operando nesses mercados. Leva algum tempo para amadurecer esse diálogo. Mas estamos tendo conversas nas estratégias que eu mencionei. São agendas que gostaríamos de preencher em algum momento.

Recentemente, vocês compraram a gestora americana WP Global Partners. Como os EUA se encaixam nesse mapa?
Com a WP, nós mais do que dobramos o tamanho da gestora nos EUA. Hoje, dentro do tamanho do Patria, talvez seja um passo pequeno e inicial. São cerca de US$ 2,5 bilhões em cima de US$ 50 bilhões, menos de 5% dos nossos ativos. Mas é estratégico, porque fortalece esse negócio de private equity internacional e nos coloca mais próximos do maior mercado para nós, que é o mercado americano.

Há movimentos em outras geografias?
Nas outras geografias, temos escritórios basicamente focados em explorar relações com clientes. Nesse sentido, tínhamos um escritório em Hong Kong e estamos abrindo um em Pequim, que tem, obviamente, o objetivo de estreitar os laços com os clientes chineses. Mas, ao mesmo tempo, enxergamos muitos negócios entre empresas chinesas e latino-americanas. Então, temos também um trabalho de business development e estamos construindo uma posição lá, onde vemos todas essas teses, da inteligência artificial, eletrificação de veículos e, agora, do armazenamento de energia em baterias super escaláveis.

E, sob essa ótica mais de clientes, existem mais mercados no radar?
Nós também estabelecemos duas parcerias importantes esse ano, uma no Japão e outra na Austrália, onde estamos desenvolvendo com parceiros locais produtos ou fundos que deem a esses investidores acesso às estratégias do Patria. E aí, de novo, abrem-se outros caminhos e possibilidades.

"As marcas começam a ficar relevantes. Então, não invisto mais em private equity, invisto na Blackstone, na KKR, na Apollo"

E quanto ao Brasil e à América Latina? Onde o Patria está vendo mais oportunidades em 2026?
Há duas grandes oportunidades que são os grandes temas do ano. A primeira são todos os temas relacionados a crédito, nas suas diferentes moedas e formatos. No mundo de crédito para pequenas, médias e empresas, por exemplo, você não precisa mais daquela estrutura que o banco carrega para poder conectar uma empresa a um investidor. Essa é uma das tendências.

Quais outras tendências em crédito você destacaria?
O mercado de capitais está participando cada vez mais de operações para financiar as empresas. Hoje, ele tem um papel extremamente relevante no financiamento da infraestrutura no Brasil, que tradicionalmente era feito pelo BNDES. O mesmo acontece no mercado imobiliário, onde o funding de poupança, de FGTS, acabou. Os fundos imobiliários e os CRIs são instrumentos poderosíssimos que têm financiado esse segmento.

E, nesse cenário, qual é o racional por trás da aquisição recente da Solis?
É uma das grandes oportunidades que aconteceram nos últimos anos, que nasce com a regulamentação do FIDC e a tecnologia permitindo originar crédito em escala. Hoje, esse é um mercado de R$ 1 trilhão. Há 15 anos, não era de R$ 100 milhões. E é um mercado que vai sair de R$ 1 trilhão para R$ 2 trilhões nos próximos três a cinco anos. Então, imagine o tamanho da oportunidade que está sendo trazida. E a Solis é, de fato, um dos principais players nesse espaço, com a estruturação e gestão de FIDCs.

E quanto à outra grande oportunidade no radar do Patria?
A segunda, certamente, é o tema de infraestrutura, tanto na América Latina como no Brasil, com a agenda de concessões. Então, nessa área, estamos olhando toda a parte de transportes, logística, saneamento, telecomunicações e data centers.

O Patria também tem investido bastante em real estate. Recentemente, por exemplo, vocês compraram a carteira de fundos da RBR Asset. Quais os próximos focos no segmento?
O primeiro avanço foi buscar uma fatia relevante de mercado, onde, ao mesmo tempo, não era importante apenas crescer, mas também ter toda oferta, dos diferentes FIIs. Daqui para frente, o objetivo é ganhar escala dentro dessas estratégias. O tamanho ideal para um fundo hoje seria de R$ 5 bilhões a 10 bilhões de ativos. Já temos um fundo, de logística, que passou dos R$ 10 bilhões e queremos buscar esse mesmo tamanho nas outras estratégias. Ao mesmo tempo, hoje, na nossa estrutura, temos cerca de 30% dos fundos em CRIs. Então, o tijolo vai continuar sendo importante, mas temos também um espaço para crescer no crédito imobiliário.

E no private equity, negócio de origem do Patria, quais setores e oportunidades estão na mira?
Os setores que acreditamos, historicamente, são saúde, alimentos e bebidas, agronegócio e serviços, particularmente serviços digitais. Esse é o nosso mundo no private equity.

O Patria tem espaço para alguma tese nova em outros segmentos?
Tem muita coisa. Recentemente, anunciamos um negócio muito interessante do nosso fundo de Growth Equity, que foi uma parceria com a Randon para explorar um negócio de consórcios. Isso faz parte dessas teses que olhamos, de mercados em ebulição. Temos também um investimento numa empresa chamada Consorciei, que faz a aquisição de cotas de consórcio no mercado secundário. Então, tem muita coisa. No Brasil e na América Latina, de uma maneira geral, podemos reclamar de tudo, menos da falta de oportunidade de investir.

"O nível de escrutínio e diligência que sofremos de um investidor que vai investir US$ 100, 200, 300 milhões por 10 anos, 15 anos antes dele tomar uma decisão é brutal"

Mas o private equity, em particular, passa por um momento mais restrito. Como você enxerga as perspectivas nesse espaço?
Temos sinais muito positivos que vêm primordialmente desse momento global, com o fluxo de capital dos Estados Unidos e de moeda americana migrando para uma diversificação. E para nós, na América Latina, qualquer pequena mudança nessa alocação já é uma infinidade de dinheiro. Então, a valorização da bolsa brasileira em 2025, a valorização nesse ano, são indicadores que mostram que estamos entrando num novo ciclo. Estou otimista com a perspectiva dos próximos dois anos de que o mercado de private equity vai ganhar de novo um dinamismo.

Você entende que essa diversificação da alocação para além dos Estados Unidos é algo de curto prazo?
Esse movimento não é desprezível. Tenho a oportunidade de sentar com os maiores investidores do mundo. E estava nos EUA com alguns deles no Liberation Day. Ali, todos ainda estavam tentando entender se aquilo era uma mudança estrutural, permanente ou de curto e médio prazo. E o que mais me chamou a atenção foram os gestores se questionando se suas alocações de recursos nos EUA não estavam demasiadas. Das perguntas à ação foram menos de 12 meses. E esse fluxo é estrutural. Acredito muito na manutenção desse cenário por um período mais longo, o que deve ser uma notícia positiva para nós, latino-americanos.

De que maneira esse cenário pode impactar os negócios do Patria?
Chama muita atenção o nível de atividade que tem acontecido. Com os chineses, os canadenses, que, ao longo desses últimos meses, também têm anunciado uma série de investimentos na região. Então, é muito bom estar nessa posição privilegiada que o Patria tem hoje e ver isso a cores e ao vivo.

Falando em impactos, a SnowCap publicou um relatório explicando porque montaram uma posição vendida no Patria e dizendo, entre outras questões, que a gestora estaria inflando os valuations dos seus ativos e não tem liquidez. O que você tem a dizer a respeito?
Somos uma empresa listada. Temos auditoria intensa das maiores auditorias do mundo. Divulgamos os resultados em detalhes, sofremos escrutínios da SEC, dos nossos acionistas, dos nossos investidores. E o nível de escrutínio e diligência que sofremos de um investidor que vai investir US$ 100, 200, 300 milhões por 10, 15 anos antes dele tomar uma decisão é brutal. Como deveria ser. Então, é um tema muito sério e por isso que estamos sempre trabalhando para ter os melhores e mais rigorosos processos de avaliação, de diligência, de auditoria.

O Patria tem problemas de liquidez?
É só abrir o resultado e ver. Ao contrário. Atualmente, temos um programa de recompra de ações estabelecido. Obviamente, temos que respeitar os limites que são estabelecidos pelo mercado, mas o que eu posso dizer é que eu e meus sócios estamos comprando as ações do Patria.

Mas como você responde às alegações feitas pela SnowCap?
Quando você se dispõe a ser uma empresa pública, você está sujeito ao escrutínio de investidores, a opiniões e visões. O que temos é o nosso resultado e nossa mensagem, a nossa visão, o que acreditamos e estamos construindo. E, sobre isso, posso atestar que estamos muito satisfeitos com o que reportamos na última semana.