Palco de intensas movimentações nos últimos anos, a partir da chegada de novos players e de mudanças em seu arcabouço regulatório, o mercado de benefícios corporativos está ganhando mais um concorrente de peso.

O BTG Pactual anunciou na manhã desta quinta-feira, 20 de agosto, que está ingressando no setor com o lançamento do cartão BTG Benefícios, com bandeira Mastercard e que reúne vale-alimentação e vale-refeição.

Segundo o banco, o cartão terá ampla rede de aceitação e contará com gestão digital para empresas e departamentos de recursos humanos com uma experiência integrada ao aplicativo do BTG Pactual Banking para os usuários.

“Queremos simplificar a gestão para as empresas e, ao mesmo tempo, oferecer aos colaboradores uma experiência mais prática e integrada no dia a dia”, afirmou, em nota, Marcelo Flora, sócio-diretor do BTG Pactual.

No comunicado, o BTG observou que essa plataforma vai permitir realizar recargas, emitir cartões físicos e virtuais, acompanhar a operação em tempo real e integrar a gestão aos sistemas de folha de pagamento.

O banco também ressaltou que, ao reunir essas rotinas em uma única plataforma, a proposta é simplificar processos, aumentar a eficiência e integrar parceiros de benefícios, oferecendo mais visibilidade e controle às empresas na gestão dessa área.

Para os usuários, o cartão estará disponível nas versões física e virtual, e poderá ser utilizado em compras presenciais, online e por meio de carteiras digitais. Já pelo aplicativo, será possível ativar o cartão, gerar a versão virtual e acompanhar saldo e transações.

O movimento do BTG Pactual acontece dois dias depois de o C6 Bank anunciar que a estreia nesse espaço será um dos próximos passos de sua estratégia para os clientes do segmento de pessoa jurídica no segundo semestre de 2026.

“O segmento de benefícios é bastante complementar ao que já ofertamos para pequenas e médias empresas. Vamos entrar com esse produto totalmente integrado ao nosso app e ao nosso cartão ainda nesse semestre”, afirmou Marcelo Kalim, cofundador e CEO do C6 Bank, ao NeoFeed, na terça-feira, 18 de agosto.

A entrada do C6 Bank e do BTG Pactual torna ainda mais acirrada a competição num segmento que, historicamente, é dominado por Ticket, Alelo, Pluxee (ex-Sodexo) e VR. Todas elas, com grandes bancos como sócios.

Enquanto o Bradesco e o Banco do Brasil têm participações na Alelo, o Itaú detém uma fatia na Ticket e, o Santander, na Pluxee. Há cerca de sete anos, esse quarteto começou a ver, no entanto, seu domínio ser ameaçado com a chegada de startups dispostas a disruptar o setor.

Fundada em 2019, uma dessas “novatas” é a Flash, que, na quarta-feira, 19 de agosto, anunciou a captação de uma rodada Série D de R$ 150 milhões, liderada pela Battery Venture e por Kevin Efrusy, sócio da Accel Partners e que ficou conhecido por encampar um dos primeiros aportes no Facebook.

Com esses recursos, a startup, que já havia captado mais de R$ 800 milhões, planeja acelerar a tese que vem construindo nos últimos três anos, também centrada em reunir em uma única plataforma diversas rotinas dos RHs, inclusive, em áreas como pessoas e gestão de despesas corporativas.

Além da Flash, o grupo de startups que passaram a “incomodar” as quatro grandes do setor inclui nomes como Swile e Caju. Posteriormente, esse trio ganhou a companhia de outros players que ingressaram no segmento, entre eles, o iFood e o PicPay.

Essa competição ganhou capítulos, inclusive, na esfera judicial, a partir de um processo movido pela Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador (ABBT). A entidade alegava que essas startups atuavam de maneira ilegal no âmbito do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT).

Com uma receita anual de R$ 150 bilhões e cobrindo um universo de aproximadamente 22 milhões de usuários, o PAT é justamente o programa que rege as práticas dos segmentos de vale-alimentação e vale-refeição.

A disputa entre a ABBT e as startups teve seu ponto final em março deste ano, quando o Tribunal de Justiça de São Paulo encerrou o imbróglio ao julgar improcedentes as acusações de concorrência desleal registradas pela associação.

O encerramento do caso não significou, porém, o fim das batalhas nesse front. Uma outra disputa envolve um processo no âmbito do Conselho Administrativo de Defesa e Desenvolvimento (Cade) contra o iFood.

A autora da ação é, novamente, a ABBT, que, entre outros pontos, acusa a plataforma de favorecer o iFood Benefícios, sua oferta no segmento, em detrimento de concorrentes. E, curiosamente, a Flash, antigo alvo da entidade, pediu recentemente sua admissão como terceira interessada no processo.

Todo esse contexto tem ainda como pano de fundo uma série de mudanças que vem sendo sancionadas e implantadas nos últimos anos na esfera do PAT. Parte delas começou a entrar em vigor nesse ano.

Além de estabelecer questões como arranjos abertos e o limite da taxa cobradas de restaurantes a um teto de 3,6%, esse novo arcabouço passou a proibir práticas, até então, bastante comuns no setor, como os rebates.

Na prática, os rebates eram os descontos, em média, de 2% a 5%, concedidos pelas empresas de benefícios às companhias, em particular, as de grande porte, que contratavam os seus serviços no âmbito do PAT.

Diante desse cenário, fontes do setor acreditam que esse mercado passará por um processo de consolidação. Alguns movimentos, inclusive, já foram ensaiados nesse espaço, envolvendo um incumbente e um entrante.

Há cerca de um ano, o iFood manteve negociações avançadas para comprar a Alelo, em uma transação estimada, na época, em cerca de R$ 5 bilhões. Entretanto, o negócio não foi concluído, entre outras questões, justamente pelas mudanças regulatórias no PAT.