A Oncoclínicas anunciou na noite de quinta-feira, 5 de março, a escolha de Carlos Gil, diretor médico da companhia desde 2018, para assumir a cadeira de CEO no lugar do sócio-fundador Bruno Ferrari.

O processo de sucessão foi antecipado pelo NeoFeed em setembro do ano passado, embora tenha sido negado em entrevista concedida pelo próprio Ferrari no fim daquele mês. O sócio-fundador ficará apenas no conselho de administração da empresa, presidido por Marcelo Gasparino da Silva.

Como CEO, Gil dará continuidade aos planos de simplificar a estrutura da companhia, desinvestindo de áreas não prioritárias e utilizando o dinheiro para reorganizar a saúde financeira da empresa.

“Nos últimos anos, a companhia acabou direcionando esforços para outros negócios. Agora, o objetivo é voltar a olhar para as clínicas de oncologia, que são o que realmente gera caixa para a companhia”, afirma Gil, em entrevista ao NeoFeed. "É o back to basics, que a companhia tem comunicado desde outubro."

O objetivo, segundo Gil, é tornar a empresa mais eficiente, aumentando a geração de receita em relação aos gastos, sem precisar recorrer a planos de expansão como no passado. "Temos muitas clínicas. Mas, como nos últimos anos a companhia focou em outros negócios, talvez tenhamos otimizado essas unidades que, na verdade, são as que geram caixa."

A escolha de Gil para o comando da Oncoclínicas ocorreu após meses de busca de um executivo para a vaga, em processo que contou com os serviços de headhunter da Spencer Stuart. Diversos executivos de mercado foram sondados, como Irlau Machado, ex-CEO da NotreDame, e Fabio Schvartsman, ex-CEO da Vale.

O encontro oficial de Gil com o mercado deverá ocorrer na apresentação do resultado do quarto trimestre, prevista para 31 de março. Até lá, no entanto, o executivo terá que lidar com uma assembleia de credores prevista para a penúltima semana do mês.

Em jogo estarão pedidos de waiver para que não seja rompido o covenant da dívida, caso o índice de alavancagem (dívida líquida/Ebitda) supere 3,5 vezes no balanço anual de 2025.

Para lidar com a dívida da companhia, Gil terá a ajuda da CFO Camille Faria, que passou pela reestruturação da Oi e Americanas e chegou à Oncoclínicas há cerca de quatro semanas.

Segundo Faria, conversas preliminares com auditores do balanço indicaram a possibilidade de o índice de alavancagem superar o limite do covenant, e o pedido de waiver seria uma forma de a companhia se preservar desse risco.

“Tem instrumentos que são bem concentrados e estão na mão de instituições financeiras conhecidas. Nesse caso, é uma conversa mais fácil. Eu converso com meia dúzia de pessoas e explico a situação da companhia”, disse Faria.

No caso dos CRIs, que têm uma base mais pulverizada, a CFO afirma que está buscando identificar os principais detentores para tratar o assunto antes da assembleia.

Estrutura de capital e potenciais operações na mesa

No balanço do terceiro trimestre, a dívida líquida da companhia estava em R$ 4 bilhões, 4,2 vezes seu Ebitda, enquanto, no fim de 2024, essa relação era de 2,8 vezes.

Dois fatores, no ano passado, foram determinantes para a deterioração desse indicador. Do lado da receita, a Oncoclínicas foi afetada pela falta de pagamentos da Unimed Ferj, que chegou a uma dívida de R$ 790 milhões com a companhia. Do lado do caixa, a quebra do Master tornou praticamente irrecuperáveis os quase R$ 500 milhões que a companhia detinha em CDBs do banco.

Em caso de inadimplência, como ocorreu, os CDBs tinham como garantia as ações detidas pelo Master, que representavam cerca de 9% da empresa.

Segundo Faria, a empresa não conseguiu executar a garantia porque as ações haviam sido transferidas para o BRB, em transação que a CFO considera “ilegítima”.  Na Justiça, a Oncoclínicas obteve uma liminar que impede o BRB de vender as ações, mas ainda não recebeu os ativos.

Para assegurar a saúde financeira, a companhia recebeu de seus acionistas uma injeção de R$ 1,4 bilhão, em novembro, e converteu parte de sua dívida em participação.

A operação, que alterou a estrutura societária da companhia, abriu espaço para a Latache conseguir maioria no conselho de administração da empresa e concluir a desejada troca de comando. A gestora é a segunda maior acionista da Oncoclínicas, com cerca de 14,62% da empresa, atrás apenas do fundo Josephina, ligado ao Goldman Sachs.

Embora a operação tenha dado fôlego extra à Oncoclínicas, as contas da CFO indicam que a companhia terá que voltar a acionar o mercado para a equalização da dívida.

“O tamanho das obrigações financeiras não necessariamente é incompatível com a capacidade de geração de caixa da companhia, mas talvez o perfil temporal das obrigações precise ser ajustado”, diz Faria.

Na mesa, afirma, estão algumas opções, como um novo aumento de capital, reperfilamento da dívida ou mesmo fazer empréstimo de capital de giro. “Estamos olhando. Mas ainda é cedo para dizermos qual será a bala de prata.”

Na frente de desinvestimentos, a companhia tem mais dois de três hospitais a serem vendidos. Para a venda do Hospital Vila da Serra, a empresa já tem uma proposta vinculante da Fundação Felice Rosso. A empresa, agora, busca um comprador para o Hospital Marcos Moraes, mas não descarta a possibilidade de converter o espaço em uma clínica de oncologia.

O ativo tinha venda encaminhada para a NotreDame. Mas a transação não foi efetivada após uma tentativa, por parte da compradora, de mudar os termos do negócio já próximo de sua conclusão.

Na B3, a ação ONCO3 está em queda de 21% em 2026. Em 12 meses, o papel da Oncoclínicas recua 58,4%. O valor de mercado da companhia é de R$ 2,4 bilhões.