A petroleira americana Chevron – a única gigante internacional do setor que explora petróleo na Venezuela – se uniu à gestora de private equity Quantum Capital Group para fazer uma oferta pelos ativos internacionais da petrolífera russa Lukoil, que desde outubro de 2025 estão sob sanções impostas pelo Departamento do Tesouro dos EUA.
A proposta, revelada na quarta-feira, 7 de janeiro, pelo jornal britânico Financial Times, vem à tona no mesmo dia em que o governo americano anunciou a apreensão de um petroleiro da Venezuela que navegava sob bandeira russa em águas internacionais do Oceano Atlântico, o que gerou protestos do governo de Moscou.
A eventual negociação envolvendo a Chevron e o fundo de private equity sediado no Texas abrange todo o portfólio de ativos internacionais da Lukoil, incluindo a produção de petróleo e gás, instalações de refino e mais de 2.000 postos de abastecimento na Europa, na Ásia e no Oriente Médio.
Caso o acordo seja fechado, a Chevron e a Quantum planejam dividir os ativos entre si, avaliados em US$ 22 bilhões pela Lukoil. Além da participação da Chevron, o fundo de private equity planeja adquirir os ativos em colaboração com a Artemis Energy, empresa de seu portfólio sediada em Londres.
A Quantum recusou-se a confirmar o negócio, assim como a Chevron. “Por política da empresa, não comentamos declarações de terceiros nem assuntos comerciais”, disse ao FT um porta-voz da petroleira americana.
Fontes citadas pelo jornal britânico, porém, confirmaram que a Quantum, fundada pelo magnata do petróleo texano Wil VanLoh, já havia entrado em contato com funcionários do governo de Donald Trump sobre a proposta e argumentado que ela consolidaria a propriedade americana sobre ativos energéticos de importância estratégica.
A venda dos ativos internacionais da Lukoil precisa de autorização do governo dos EUA porque, após as sanções de outubro, qualquer operação envolvendo a empresa — inclusive a venda de subsidiárias fora da Rússia — está legalmente bloqueada e só pode ocorrer mediante uma licença específica emitida pelo Departamento do Tesouro.
Sem essa autorização, qualquer comprador ou intermediário estaria violando sanções financeiras dos EUA, mesmo que a transação ocorra fora do território americano.
O processo de leilão teve início em novembro, quando a empresa suíça de comércio de commodities Gunvor desistiu de um acordo com a Lukoil para a aquisição dos ativos, após o governo Trump afirmar que bloquearia a transação por classificar a Gunvor como "marionete do Kremlin".
Os ativos não-russos da Lukoil atraíram depois propostas do fundo de private equity Carlyle e do conglomerado International Holding Company, de Abu Dhabi, mas não houve confirmação de que as negociações teriam evoluído.
O tempo corre a favor da proposta conjunta da Chevron com a Quantum, uma vez que o Departamento do Tesouro concedeu uma prorrogação para que empresas interessadas negociem com a Lukoil até 17 de janeiro - qualquer acordo precisaria da aprovação dos órgãos reguladores dos EUA, o que daria ao presidente Donald Trump um poder de veto efetivo.
Um alto funcionário do governo dos EUA saudou a proposta da Quantum-Chevron. “Estamos buscando uma alienação que coloque a propriedade desses ativos nas mãos de um proprietário e operador americano por tempo indeterminado”, disse a fonte, citada pelo Financial Times. “Não queremos uma situação de compra e revenda, então esta é uma opção atraente.”
Para a Chevron, a aquisição de ativos da Lukoil se encaixa em sua estratégia de diversificação. A petroleira americana mantém presença na Venezuela há décadas – que detém as maiores reservas de petróleo do mundo.
Atualmente, as operações da Chevron no país são limitadas por licenças especiais dos EUA. A empresa produz cerca de 200 mil barris por dia por meio de diversas joint ventures com a estatal venezuelana PDVSA. Parte dessa produção é exportada para refinarias americanas na Costa do Golfo.
Tensão com a Rússia
O fato de Trump ter admitido que a operação militar americana na Venezuela tinha como objetivo obter controle da produção do petróleo do país sul-americano reforçou a intenção da Casa Branca de coibir o mercado internacional clandestino de combustíveis fósseis.
Mesmo sob sanções americanas, a Venezuela exportava petróleo para a China, o mesmo ocorrendo com a Rússia – que vende sua produção, abaixo do preço internacional, para a Índia e outros países, além da China.
A apreensão, pelos EUA, do petroleiro Marinera, que navegava sob bandeira russa, abre uma nova frente de tensão diplomática, agora entre o governo americano e o de Vladimir Putin. A Rússia emitiu um comunicado acusando os Estados Unidos de violarem o direito marítimo - a apreensão ocorreu no Atlântico Norte, em águas internacionais.
"De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982, a liberdade de navegação aplica-se em alto mar, e nenhum Estado tem o direito de usar a força contra embarcações devidamente registradas nas jurisdições de outros Estados", afirma o comunicado.
A embarcação, que antes se chamava Bella 1, havia sido interceptada inicialmente pelos EUA perto do litoral venezuelano no final de dezembro, mas conseguiu escapar ao cerco. O navio, que estava vazio, passou a receber escolta de um submarino russo.
Para evitar atritos com a Rússia, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou após a apreensão que o bloqueio de petroleiros venezuelanos "continua em vigor em todo o mundo".