No Neon, os destinos do cheque bilionário do BBVA (e um IPO no radar)

Com o aporte de R$ 1,6 bilhão do banco espanhol, a fintech se torna unicórnio e vai reforçar sua oferta de crédito, além de desenvolver sua plataforma de investimentos. E não descarta um IPO fora do País. Jean Sigrist, presidente do Conselho de Administração, conta os planos

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Jean Sigrist, presidente-executivo do Conselho de Administração do Neon

O ano começou agitado para o Neon. Depois de anunciar, em janeiro, a aquisição da financeira Biorc, em acordo que ainda depende de aprovação regulatória, a fintech brasileira anunciou nesta segunda-feira um aporte de R$ 1,6 bilhão do BBVA, que avaliou a operação em cerca de US$ 1,6 bilhão (post-money).

Com os recursos da rodada, injetados integralmente pelo banco espanhol BBVA, que já investia no Neon desde 2018, por meio do seu braço de corporate venture capital Propel, chega a uma fatia de 29,7% na empresa brasileira.

“O BBVA é um dos bancos mais bem-sucedidos do mundo em digitalização”, afirma Jean Sigrist, presidente-executivo do Conselho de Administração do Neon, ao NeoFeed. “E, o mais importante, entende o que nós falamos e sabe como nós pensamos.”

O investimento chega em um bom momento do Neon, que encerrou 2021 com uma base de 15 milhões de clientes, dos quais, 88% são das classes C, D e E. E que planeja se consolidar, cada vez mais, como a fintech do “trabalhador brasileiro”.

Para isso, uma das prioridades é seguir fortalecendo seu portfólio de crédito voltado a esse público, que conta com ofertas em segmentos como empréstimo pessoal, consignado e cartão de crédito. Hoje, o Neon tem uma carteira de crédito de R$ 1,3 bilhão.

Outra área que deve ganhar espaço, gradativamente, no portfólio da fintech é a sua plataforma de investimentos. Com a oferta de CDBs já disponível, o Neon planeja que esses usuários tenham acesso, em breve, a dois fundos da empresa.

Entre os planos à frente, a companhia também não descarta acessar o mercado de capitais no exterior, por meio de uma oferta pública inicial de ações. Esses e outros temas foram abordados na conversa com Siegrist. Confira:

O BBVA já era um dos investidores do Neon. Qual a importância de ter o banco como um sócio relevante a partir dessa nova rodada?
O BBVA está conosco desde a série A, por meio do braço de corporate venture capital deles. Assim como eles acompanham a nossa trajetória, nós acompanhamos a deles. É um dos bancos mais bem-sucedidos do mundo em digitalização. Então, é um banco que entende o que nós falamos e sabe como nós pensamos. Por outro lado, a capacidade de concessão de crédito e o conhecimento que eles têm, em muitos países do mundo, pode ser bastante complementar ao que temos feito.

Como esse novo aporte do BBVA se encaixa nos momentos e nos planos do Neon?
Nós estamos vindo de um crescimento muito forte nos últimos anos e já temos um negócio com uma escala muito grande, com um foco importante em crédito para o trabalhador brasileiro. E crédito consome capital. Temos uma operação intensiva em capital. E esse aporte nos ajuda a seguir crescendo nosso negócio de crédito, mas sobretudo, nossa operação de tecnologia. E tudo que tenha a ver com informação. Nossa área de ciência de dados é muito importante para que possamos usar data points não estruturados, que possam ajudar na modelagem de crédito para esse trabalhador. Vamos fortalecer esses times.

“O BBVA é um dos bancos mais bem-sucedidos do mundo em digitalização. Então, é um banco que entende o que nós falamos e sabe como nós pensamos”

Qual é o time atual do Neon e qual é o plano de expansão desse quadro. E em qual prazo?
Nós contratamos mais de mil pessoas no ano passado e temos hoje 1,6 mil profissionais. E devemos terminar o ano com um time de 2,2 mil a 2,3 mil funcionários.

Como essa injeção de recursos vai se refletir no portfólio?
Já temos uma oferta bastante completa, tanto do ponto de vista de produtos de transacionalidade como de crédito, que é o nosso principal foco. Vamos fortalecer a oferta de empréstimo pessoal, de cartão de crédito, de consignado. O que queremos é tornar essa oferta mais robusta e escalável em termos de funcionalidades.

Qual é a carteira de crédito atual do Neon e como esse aporte é importante no que diz respeito ao funding dessas operações?
Nós fechamos 2021 com R$ 1,3 bilhão em nossa carteira de crédito. O funding é o menos relevante. Acabamos de fazer uma captação – que não abrimos o valor – para um FIDC na Consiga+, nossa operação de consignado. Compramos também a financeira Biorc, em janeiro, ainda em fase de aprovação. A parte relevante do aporte irá mesmo para o time, marketing, para construir uma marca mais reconhecida pelo trabalhador brasileiro. Esses são os grandes destinos.

E quanto à oferta de opções de investimentos para essa base de clientes?
Nós seguimos desenvolvendo essa área, onde já oferecemos CDBs. Estamos construindo um track record dos nossos fundos e preparando essa oferta de investimentos para os clientes. Temos dois fundos que hoje não estão abertos para captação. Lançamos no começo do ano passado. Estamos amadurecendo o produto e testando para lançar, em breve, para esses clientes. Lembrando sempre que esse cliente é o trabalhador brasileiro. Então, não vemos essa plataforma de investimentos voltada a um cliente afluente, com centenas de produtos. Nosso foco é oferecer algo simples, para ajudar esse perfil que normalmente tem bastante dificuldade de lidar com a questão financeira. Essa oferta vai evoluir devagar e sempre com esse foco na simplicidade.

O Neon fez sua quarta aquisição no início do ano. Essa estratégia inorgânica segue no escopo da empresa?
Sim, temos feito pelo menos uma aquisição todo ano e temos bastante apetite ainda. Isso nos ajuda muito a adquirir competências técnicas que, eventualmente, não temos ainda, e encurta nossa curva de aprendizado. Nós olhamos para os times, principalmente em empresas menores, que têm uma concentração de talento maior.

Existe algum segmento específico que está guiando a busca por esses ativos?
O que olhamos basicamente são duas frentes. Ou negócios que tenham sinergia com a nossa estratégia, crédito, por exemplo, ou empresas com foco muito grande em tecnologia.

Com essa nova rodada e na sequência dessa trajetória, o IPO seria um dos próximos passos do Neon?
É possível que, em algum momento, nós acessemos o mercado de capitais via IPO. Hoje, é difícil dizer, mas, quando isso acontecer, a tendência é que façamos esse movimento fora do Brasil. As empresas de tecnologia, principalmente aquelas que têm a nossa escala, têm buscado o mercado lá fora. É um ambiente mais familiar para os nossos investidores atuais e que dá acesso a um número muito maior de investidores. Mas o Neon sempre foi uma empresa de um passo de cada vez, de baixar a cabeça e trabalhar quieto. É possível que façamos uma série E ou um IPO.

“É possível que, em algum momento, nós acessemos o mercado de capitais via IPO”

Recentemente, você inverteu as posições na operação com o Pedro Conrade, fundador do Neon. Qual foi o racional dessa troca?
Nós trocamos no início de janeiro. Eu assumi como presidente-executivo do conselho e o Pedro voltou a ser o CEO. Temos perfis muito complementares, que se alternam à medida que sentimos as necessidades e os desafios da empresa, em função do desafio. Eu tenho uma trajetória longa como executivo de grandes bancos e sou empreendedor também. O Pedro é o contrário de mim. Está se tornando um gestor, mas é um dos mais reconhecidos empreendedores do Brasil. Ao longo desses anos, construímos uma empresa super robusta, com governança, processos, e que virou um reloginho, uma máquina que funciona super bem. O que precisamos agora é seguir garantindo esse DNA de empreendedorismo e inovação, que ele tem dentro dele. Então, ele está mais próximo da operação. Mas eu também continuo muito próximo e tenho ingerência, principalmente, em toda a parte financeira e de compliance, onde eu tenho mais experiencia. Mas seguimos tocando a empresa juntos e essa dobradinha tem funcionado cada vez melhor.

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