Maior startup da Europa, recém-avaliada em US$ 45 bilhões, a Revolut chegou ao Brasil em maio de 2023, quando o mercado estava povoado de bancos digitais em estágios mais avançados. O plano era cauteloso e focava em ser uma plataforma multi moedas no mercado local.
Agora, a fintech britânica está ampliando seu campo de atuação para além das contas globais, anunciando uma série de produtos voltados ao mercado local, entrando de cabeça na ferrenha disputa do mercado de bancos digitais.
“A Revolut está saindo de sua proposta original, de ser um produto de nicho, com contas multi moedas e plataforma de cripto simplificada, para ser uma plataforma do dia a dia dos clientes”, diz Glauber Mota, CEO da Revolut no Brasil, ao NeoFeed. “Queremos competir com os grandes bancos e as fintechs no longo prazo.”
A empresa iniciou o movimento com o lançamento de uma conta corrente em reais, com cartão de débito, serviços de pagamentos de contas e PIX. Mas a Revolut não pensa em parar por aí. Neste ano ainda, planeja ter um cartão de crédito local e um programa de benefícios por assinatura, com direito a descontos em diversos serviços.
O pipeline de lançamentos prevê ainda empréstimo pessoal e produtos de investimento na plataforma no futuro próximo. A Revolut também estuda a possibilidade “subir de categoria” e ter licença de banco múltiplo do Banco Central (BC), o que daria mais fôlego para expandir de tamanho, ainda que esta seja uma opcionalidade, segundo Mota – desde meados de 2023, a fintech conta com a licença de sociedade de crédito direto (SCD).
Mota diz que a Revolut sempre viu o Brasil como um centro importante, considerando o tamanho do mercado de fintechs, mas o ganho de escala e relevância não estava previsto para ocorrer tão cedo. A evolução vista no primeiro ano das operações, no entanto, mostrou que valia priorizar o País perante outros mercados.
Sem abrir números, porque a Revolut não divulga dados por operação, ele diz que a base de clientes cresceu quase 150% entre 2023 e 2024, com aumento no número de transações, volume e receita mensal em proporções semelhantes.
Outro ponto que motivou acelerar os planos previstos para o Brasil foi o perfil de uso dos clientes. Quando chegou ao Brasil, a Revolut esperava que os primeiros usuários fossem um público de alta renda, concentrado na faixa mais velha da população, por terem maior capacidade financeira.
Mais de 75% dos clientes, no entanto, possuem de 18 anos a 44 anos e a distribuição reflete a pirâmide populacional brasileira. “Isso foi um motivador para a empresa entender que essa turma não está transacionando de forma relevante no exterior, mas pode usar nosso produto no dia a dia”, diz Mota.
Por conta disso, o Brasil acabou ganhando preferência no plano de expansão internacional da Revolut. Depois da oferta secundária em agosto do ano passado, a companhia decidiu investir em vários mercados, para crescer para além de Reino Unido e Europa.
A fintech tem como ambição chegar a 100 países, com 100 milhões de clientes ativos e receita de mais de US$ 100 bilhões, sem especificar uma data. O caminho é longo, considerando que atualmente a Revolut atua em 38 países, possui 45 milhões de clientes e registrou uma receita de US$ 2,2 bilhões em 2023 – a divulgação dos resultados de 2024 está prevista para meados do primeiro semestre.
“O Brasil é o primeiro país a trabalhar nesse novo formato, conquistando mais cedo a paridade de produtos com aquilo que já é maduro na Europa”, afirma. “Tudo aquilo que foi lançado lá e que no plano inicial seria trazer em quatro, cinco anos, acabou acelerado, para fazer essa paridade nesse primeiro ano da estratégia.”
Com os lançamentos, o Brasil começa a se aproximar dos mercados mais avançados da Revolut, como Austrália e Singapura, que estão num segundo nível de maturidade, mas distante do Reino Unido e da Europa, que possuem plataformas mais completas.
“Hoje, o Brasil ainda não é top 10 da Revolut, em tamanho atual, mas em termos de perspectiva é outra história, porque o Brasil é um país muito grande, tem cases de sucesso de fintechs”, diz. “A gente espera colocar o Brasil no top 3 da Revolut no longo prazo.”
Disputa acirrada
Apesar do tamanho e do renome, a vida da Revolut no Brasil não promete ser fácil. Desde de que o BC instituiu a regulamentação que abriu caminho para a criação de fintechs e bancos digitais, em 2013, o mercado passou por uma profunda transformação num curto espaço de tempo.
O número de players se reduziu, mas ainda é considerável, sendo que o mercado se consolidou em alguns nomes, como Nubank, Inter e C6. Houve também o surgimento de instituições atuando em teses específicas, caso do BS2 com pessoa jurídica e NG.Cash com a geração Z. E os grandes bancos, como Itaú e Santander, se mexeram e buscaram adaptar suas operações.
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A situação torna difícil a chegada de novos players, sendo que a complexidade local sempre foi uma questão para estrangeiros – a fintech alemã N26 saiu do Brasil, em novembro de 2023, por não ter conseguido escalar sua operação, conforme apurou o NeoFeed na época.
Para Bruno Diniz, sócio da consultoria Spiralem, novos entrantes precisam apresentar novas experiências aos consumidores, seja uma nova forma de consumir os produtos ou trazer serviços num novo formato, além de terem robustez financeira.
“Existem outras formas do jogo ser jogado, seja na base da interface ou aproveitando um sub-nicho, e, para quem é maior, agregar mais soluções suas e de terceiros para ganhar tempo de tela e monetizar, visto que os clientes não esperam que um banco digital cobre tarifa”, diz.
A Revolut aposta na qualidade de seus produtos para conseguir competir. Mota diz que os retornos recebidos dos clientes fizeram com que a fintech tivesse um “case bem definido para dobrar a aposta, investir e priorizar o Brasil em relação a vários países”.
Na frente de experiência, a Revolut quer trazer algumas funcionalidades próprias para as tecnologias bancárias brasileiras. Uma delas é a possibilidade de combinar o PIX com uma feature do app de divisão de conta. A tecnologia permite que uma pessoa pague uma conta e o valor seja repartido com outras pessoas.
“Minha expectativa é de que, com esses lançamentos, todos os volumes que transacionavam de tempos em tempos, quando tinha uma grande volatilidade no dólar, no cripto, ou quando a pessoa ia viajar, seja diluído para o dia a dia, porque agora vai poder pagar o cafezinho, fazer transações em reais”, diz. “Temos que conquistar a confiança no dia a dia e esperamos que o cliente migre pouco a pouco e nos dê a principalidade”
Ele destaca que a Revolut não pretende repetir o que outros nomes estrangeiros fizeram quando começaram a operar no Brasil, replicando sua plataforma no País, sem considerar as características do País. “Somos uma instituição financeira local com capital estrangeiro, se alavancando na experiência em vários países e usando essa plataforma para ganhar escala”, diz.
A expectativa é criar o chamado “efeito de rede”, algo que a Revolut faz em diversos mercados, apostando no crescimento orgânico, sem fazer grandes investimentos em publicidade. Mota diz que a estratégia ajuda a trazer clientes de qualidade, prioridade ante volume.
A expectativa da Revolut é de ir ganhando tração aos poucos, porque o produto está em construção. “Depois de um, dois anos, com todos os produtos lançados, espero estar competindo de igual para igual com qualquer um dos bancos e fintechs”, afirma.