Num momento em que a economia brasileira sente os efeitos dos juros altos e da instabilidade geopolítica, o Itaú Unibanco aposta no trabalho dos últimos anos de seleção de clientes, em que o conservadorismo ditou a construção da base de correntistas.

Os esforços fizeram com que o banco se sinta pronto para encarar um 2026 repleto de incertezas, a ponto de o CEO Milton Maluhy Filho não antever ruptura no ciclo de crédito nem deterioração na qualidade da carteira nos próximos trimestres, com o banco mantendo o ritmo de concessão de crédito.

“A gente prefere estar sempre no mercado, atendendo da melhor forma os nossos clientes, do que efetivamente ter um cenário em que você acelera muito o crédito e depois tem que fazer correções abruptas”, disse Maluhy Filho, em entrevista coletiva na quarta-feira, 6 de maio, para falar dos resultados do primeiro trimestre.

Na apresentação, Maluhy Filho e o CFO Gabriel Moura destacaram que o banco está conseguindo crescer com qualidade graças ao grupo de “clientes targets”, muitos dos quais têm renda mais alta, mas cuja principal característica é o comportamento ao longo de diferentes ciclos econômicos.

Segundo Moura, esses clientes são mais de 80% do portfólio e, na concessão de crédito, representam quase 100% das novas operações. Ele destacou que, entre dezembro de 2019 e janeiro de 2025, o endividamento desse grupo cresceu apenas 5%, enquanto o mercado registrou alta de 23%. “O foco nos clientes targets tem efeitos bastante importantes no atraso curto e também no atraso longo”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Maluhy Filho disse que as carteiras estão crescendo nos "públicos target" de forma relevante, em dois dígitos, validando a estratégia. Por conta disso, afirmou que o Itaú não mudou seu apetite por concessão de crédito neste momento – o guidance prevê um crescimento de 5,5% a 9,5% da carteira de crédito total, com o portfólio do Brasil expandindo de 6,5% a 10,5%.

“O guidance dado no início do ano está mantido para o crescimento da carteira”, disse. “Agora, vamos ter que observar ao longo dos próximos trimestres a dinâmica de mercado de capitais, que tem sido bem diferente do que vimos no ano passado.”

Os executivos ressaltaram que o banco também tem essa visão no caso das pessoas jurídicas, destacando que o Itaú elevou o peso da carteira com garantias de 36% em dezembro de 2019 para 55% no começo de 2025. No caso do agro, a carteira conta com garantias fortes e também alienação fiduciária, com 78% tendo essa cobertura.

No caso das grandes empresas, com nomes passando por apuros, Maluhy afirmou que o banco acompanha os casos de forma individual e que está bem provisionado para lidar com eventuais inadimplentes.

Com essa estratégia, a expectativa é de que o Itaú siga “subindo o sarrafo”, entregando resultados elogiados pelos analistas por sua robustez e previsibilidade.

O banco fechou o primeiro trimestre com lucro líquido de R$ 12,3 bilhões, aumento de 10,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao desconsiderar o efeito da distribuição antecipada de dividendos, ocorrida no fim do ano passado, o resultado recorrente gerencial teria sido de R$ 12,7 bilhões, recorde.

O retorno sobre patrimônio líquido (ROE) foi de 24,8%, alta de 2,3 pontos percentuais em base anual, melhor resultado desde o segundo trimestre de 2015. As operações brasileiras tiveram ROE de 26,4%, número que atinge 27,6% quando ajustado a um nível de capital de 11,5%, média do setor.

“A criação de valor no trimestre foi recorde, e isso é algo que a gente valoriza bastante”, disse Maluhy.

Por volta das 11h42, as ações preferenciais do Itaú caíam 1,55%, a R$ 41,80. No ano, os papéis acumulam alta de 6,77%, levando o valor de mercado a R$ 465,1 bilhões.