A nova edição do relatório “Mapeando os Preços Mundiais”, produzido pelo Deutsche Bank, revela um panorama global do custo de vida profundamente alterado.
A combinação entre movimentos cambiais, inflação persistente e tensões geopolíticas redesenhou a hierarquia de preços em 69 grandes cidades pesquisadas, criando um mapa que pouco lembra os levantamentos do início da década passada.
Desde 2012, quando o estudo foi lançado, o mundo passou por uma inversão completa de condições econômicas. Naquele ano, o iene estava no auge e o dólar vivia um período de fraqueza histórica — exatamente o oposto do que se observa hoje.
A pandemia, a crise energética, o fortalecimento do dólar em seu ciclo mais intenso em uma geração e a multiplicação de conflitos regionais mudaram radicalmente a percepção sobre quais centros urbanos são caros e quais se tornaram oportunidades inesperadas.
A pesquisa do Deutsche Bank transforma Tóquio em um espelho invertido da economia global. Em 2012, a capital japonesa figurava entre as mais caras do planeta; hoje, é a grande metrópole mais barata do mundo, graças à desvalorização do iene no período.
Enquanto Nova York cobra US$ 8,9 mil por um aluguel de três quartos em áreas nobres, Tóquio entrega o mesmo por US$ 2,4 mil – ou seja, cerca de um quarto do valor em Manhattan. O Japão também se tornou o lugar mais barato do mundo para comprar um iPhone, com preço 5% abaixo dos praticados nos Estados Unidos.
Para se ter uma ideia, basta comprovar a queda do nível de preços pela paridade do poder de compra na capital japonesa: caiu de 173 em meados da década de 1990 para apenas 60 atualmente – sendo que um índice acima de 100 significa que os preços locais são mais altos do que a referência global.
Isso explica um cappuccino custar menos em Tóquio do que em 44 das 69 cidades analisadas, incluindo mercados emergentes. Uma refeição para um casal na capital japonesa agora custa menos do que em Varsóvia ou Praga. Até um “encontro barato” em Tóquio custa metade do preço de Londres.
O contraste com os Estados Unidos é ainda mais gritante. Desde 2012, o iene desvalorizou 51% frente ao dólar, enquanto os preços no Japão subiram apenas 20%.
Já os EUA, que naquele ano ainda se recuperavam da recessão e exibiam um dólar fraco, tornaram-se a economia desenvolvida mais cara do mundo em termos relativos. Nova York e São Francisco estão entre as cinco cidades mais caras do planeta, enquanto nenhuma cidade americana aparece entre as dez melhores em qualidade de vida — um ranking dominado por europeias como Luxemburgo, Copenhague, Frankfurt, Genebra e Zurique.
O drama do iene
A pergunta é como o Japão chegou a esse ponto? E, mais importante, há saída para o iene? A resposta passa por uma política monetária que, por mais de uma década, manteve o país em uma espécie de bolha de juros ultrabaixos.
Desde 2012, o Banco do Japão praticou repressão financeira, segurando as taxas de juros artificialmente próximas de zero enquanto o resto do mundo normalizava sua política monetária.
O resultado foi uma moeda cada vez mais usada como instrumento de financiamento barato — o famoso carry trade, pelo qual investidores estrangeiros tomam empréstimos a custo mínimo em ienes e aplicam em moedas com juros mais altos, embolsando a diferença. O tamanho dessa engrenagem varia conforme a estimativa: entre US$ 500 bilhões e mais de US$ 1 trilhão.
Com inflação baixa e moeda fraca, o Japão tornou-se uma barganha global. Mas o mesmo mecanismo que barateou Tóquio pode, em algum momento, virar de ponta-cabeça. O Deutsche Bank e a consultoria Gavekal sugerem que a repatriação de capital — o retorno de investimentos japoneses mantidos no exterior — pode ser o gatilho para uma reversão do iene.
As instituições japonesas detêm entre US$ 3,4 trilhões e US$ 7 trilhões em ativos estrangeiros, dependendo da metodologia. Um movimento coordenado de volta ao mercado doméstico poderia gerar um fluxo entre US$ 400 bilhões e US$ 450 bilhões, equivalente a 10% do PIB japonês.
Nas últimas semanas, sinais políticos reforçaram essa possibilidade. A ministra das Finanças, Satsuki Katayama, indicou que o fundo de pensão do governo pode aumentar sua exposição a ativos domésticos.
A proposta inclui a ampliação do uso de títulos do governo japonês em esquemas de investimento populares e isentos de impostos — uma mudança que, se sustentada pelo governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, poderia pressionar instituições financeiras a reequilibrar suas carteiras em favor do mercado local.
Há ainda um vetor estrutural que pode redefinir o futuro do iene: a inteligência artificial. O Japão enfrenta um desafio demográfico profundo — população envelhecida, força de trabalho em queda, produtividade estagnada.
Para o Deutsche Bank, tecnologias de IA são uma oportunidade econômica e política rara. O governo japonês declara abertamente a ambição de se tornar o país mais amigável à IA do mundo, e a base industrial avançada do país oferece vantagem real na construção de infraestrutura tecnológica.
Se a IA conseguir compensar parte da escassez de mão de obra e elevar a produtividade, o Japão pode entrar em um ciclo de crescimento capaz de sustentar juros mais altos — e, portanto, um iene mais forte.
Mas o relatório do Deutsche Bank deixa claro que a história do iene está em um ponto de inflexão. Tóquio, antes símbolo de preços proibitivos, agora é a vitrine global de uma moeda subvalorizada.
Se a repatriação de capital ganhar força, se o Banco do Japão ajustar sua política e se a IA realmente impulsionar a produtividade, o carry trade pode começar a se desfazer — lentamente ou de forma abrupta.
A cidade mais barata entre as grandes pode, em pouco tempo, voltar a ser apenas Tóquio: cara, vibrante, complexa. E o iene, depois de uma década de queda, pode finalmente reencontrar seu peso no mundo.