Uma posição relevante montada em meados de junho deste ano por um investidor pessoa física na T4F Entretenimento, dona da marca Time For Fun, chamou atenção. Ela foi construída quase três meses depois de a empresa anunciar a oferta pública de aquisição de ações (OPA) para fechar capital e sair da bolsa. E o nome do comprador, que desembolsou pouco mais de R$ 2 milhões por 340 mil papéis, era desconhecido.
Ao contrário de investidores individuais como Luiz Barsi Filho e Lírio Parisotto, Francisco Asclépio Barroso Aguiar prefere manter sua carteira milionária de ações longe dos holofotes. Mas assim como eles, construiu uma fortuna na bolsa brasileira.
A entrada dele como acionista da T4F ocorreu já a um valor próximo ao preço de referência da OPA, que seguiria sendo corrigido pela Selic até o vencimento do direito de venda. Era, na prática, uma aposta de renda fixa "disfarçada", mas com alíquota mais branda do que em uma aplicação do Tesouro Nacional.
O movimento, que sugere menos aposta e mais engenharia financeira, feito por Aguiar mostra que o discreto investidor é experiente. Segundo levantamento da Elos Ayta a pedido do NeoFeed, ele tem posição relevante em quatro empresas da B3: Minupar (8,47%), Banco Pine (3,07%), Hercules (7,78%) e Cedro Têxtil (2,15%).
Considerando apenas essas posições, que são públicas, sua carteira soma R$ 102,8 milhões - mais de três quartos concentrados em uma única fatia, a do Banco Pine. O NeoFeed também identificou sua participação como acionista em assembleias da Brava Energia e da Blau Farmacêutica, indicando que sua carteira é potencialmente maior do que revelam os dados públicos.
Para identificar quem é esse investidor e reconstruir sua trajetória, o NeoFeed passou as últimas semanas reunindo dados, documentos e depoimentos de pessoas que já se relacionaram, de alguma forma, com Aguiar. E o fato mais surpreendente é que ele é funcionário de carreira da Petrobras.
Sem fotos, redes sociais ou entrevistas vangloriando-se de seus métodos de investimento, Aguiar foi quase sempre um lobo solitário no meio de gigantes. Se posiciona não só no ativo, mas nas discussões sobre o futuro dos negócios. Nas quatro empresas com posição relevante, possui assento no Conselho de Administração ou no Fiscal.
Com raízes em Irauçuba, uma cidade do sertão cearense com cerca de 24 mil habitantes, Aguiar construiu sozinho sua própria fortuna. Ainda jovem, se mudou para Fortaleza, onde se formou em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e em Matemática pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Mas sua vida mudou mesmo aos 26 anos, quando entrou para a Petrobras. O ano era 1987, época na qual a estatal era sinônimo de estabilidade e prestígio em um Brasil que atravessava hiperinflação e sucessivos planos econômicos fracassados.
Na Petrobras, Aguiar foi se especializando. Fez pós-graduação em Engenharia Nuclear (UFRJ), Engenharia Metalúrgica (UFRJ) e Análise de Sistemas (PUC-RJ), enquanto subia de cargo na estatal, passando por exploração terrestre até chegar a projetos de grande porte.
Foi levando essa vida de funcionário de carreira da Petrobras — que, segundo fontes, continua até hoje — que Aguiar entrou para o mercado financeiro.
A primeira experiência, porém, não foi como investidor e sim como conselheiro. Em 1996, Aguiar assumiu uma cadeira no conselho fiscal da então Telemar-TeleBahia e da TeleCeará, empresas ligadas ao Grupo Jereissati, um dos mais tradicionais conglomerados empresariais do Ceará, com raízes na família que viria a controlar os shoppings de bandeira Iguatemi.
Essa relação com o Grupo Jereissati durou pelo menos 25 anos. Depois da Telemar-TeleBahia e da TeleCeará, Aguiar seguiu como conselheiro fiscal de outras empresas ligadas ao grupo de forma praticamente ininterrupta entre 1996 e 2011.
Anos depois, ele reapareceu no conselho fiscal da própria Jereissati Participações, holding que reúne os negócios da família — entre eles a rede de shoppings Iguatemi, eleito em 2015. Em outubro de 2021, ainda nessa função, assinou o parecer favorável à operação societária que, três anos depois, daria origem à atual estrutura do Iguatemi na bolsa.
Quem o conhece elogia Aguiar por sua inteligência e objetividade, mas também reconhece que é uma figura construtiva dentro dos conselhos. “Não é um minoritário belicoso”, disse ao NeoFeed um ex-colega de conselho.
A descrição de hoje contrasta com o primeiro registro documentado de Aguiar como investidor. Em dezembro de 1996, quando era acionista minoritário da Cemepe Investimentos, holding carioca ainda negociada na bolsa, ele apresentou duas reclamações formais à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contra o então presidente do conselho da companhia, Daniel Benasayag Birmann.
As denúncias envolviam aumentos de capital que beneficiavam empresas ligadas ao próprio Birmann, além da não divulgação de uma mudança de controle acionário, e deram origem a um processo administrativo sancionador que terminou dez anos depois.
O resultado foi uma das multas mais pesadas já aplicadas até então pela CVM: R$ 27,5 milhões, além de inabilitação temporária do executivo para atuar como administrador de companhia aberta.
Aguiar também teve uma longa passagem pela Recrusul, fabricante gaúcha de implementos rodoviários. Sua história com a empresa começou em 2007, quando começou a comprar ações preferenciais da companhia, que se encontrava em recuperação judicial.
Um ano depois, integrou o grupo de investidores que adquiriu o controle da Recrusul — e assumiu, ele mesmo, a presidência do Conselho de Administração e a Diretoria de Relações com Investidores, cargos que ocupou em 2009.
Na época, chegou a sofrer um processo da CVM por não ter comunicado o mercado que sua participação individual tinha superado a marca de 5% da empresa — um erro relativamente simples, do tipo que costuma pegar quem está estreando como acionista relevante e ainda não se familiarizou com as obrigações regulatórias que acompanham esse tipo de posição. Aguiar foi multado em R$ 50 mil, valor que o Colegiado da CVM manteve em recurso julgado em 2013.
Foi o único deslize público de Aguiar em quase duas décadas como investidor. Desde então, ele não apareceu mais em nenhum processo da CVM - e sua atuação foi ficando cada vez mais sofisticada.
Segundo levantamento da Elos Ayta, Aguiar manteve posição relevante na Recrusul por quase oito anos — entre maio de 2008 e maio de 2016. Um novo registro de participação relevante voltou a aparecer em agosto de 2017. Só a partir de 2021, ele reaparece com mais destaque no mercado, passando a acumular novas posições relevantes: primeiro na Minupar, depois na Hercules (2023) e no Banco Pine (2024).
O padrão, segundo pessoas que já conviveram com ele, é buscar empresas a preços baixos e permanecer a longo prazo no investimento. “A minha percepção é que ele compra as coisas na bacia das almas, ações que estão subavaliadas na visão dele”, disse uma fonte.
Outra fonte próxima de Aguiar disse ao NeoFeed que "ele tem sempre a intenção de contribuir para que as companhias se valorizem. Ele quer também agregar valor com a atuação dele”.
Resta saber se o trade da Time For Fun foi uma oportunidade pontual, de curto prazo, ou se sinaliza uma mudança na forma como Aguiar, hoje na casa dos 60 anos, passa a investir.
Procurado, Aguiar não retornou aos pedidos de entrevista para esta reportagem.
O NeoFeed perguntou também à Petrobras se a companhia tem conhecimento da atuação de Aguiar em conselhos de administração e fiscal de empresas abertas e se enxerga conflito de interesse na sobreposição — inclusive diante da posição que ele já deteve na Brava Energia, concorrente direta da estatal na exploração e produção de petróleo.
Até a publicação desta reportagem, a assessoria de imprensa da Petrobras não havia respondido.