O estoque de empresas em recuperação judicial cresceu 21,2% de junho do ano passado para junho deste ano, totalizando 6.341 empresas brasileiras protegidas da falência pela Justiça, mostra um levantamento produzido pelas consultorias RGF e Bizdoc, especializadas em reestruturação.

O aumento das reestruturações faz parte de uma dinâmica desafiadora para o cenário de crédito: enquanto bancos e gestores enxergam mais risco e ficam mais seletivos na concessão, as empresas em recuperação judicial (RJ) ou extrajudicial (RE) demandam capital de longo prazo para sustentar o turnaround da operação.

Do lado dos credores, os gestores de special situations no Brasil demonstram ceticismo quanto à capacidade das empresas de recuperar plenamente suas operações após uma reestruturação.

“Estamos cada vez mais céticos no Brasil de que uma empresa em dificuldade vai fazer um movimento para reestruturar a operação e a partir daí o fluxo vai bem”, afirmou Sergio Goldstein, sócio e responsável pela área de crédito estruturado da Itaú Asset, durante o 3º Congresso de Special Situations e Litigation Finance, realizado na quinta-feira, 20 de agosto.

Para Goldstein, operações de recuperação extrajudicial seguidas de recuperação judicial, como a das Casas Bahia, são um exemplo desse padrão.

A varejista entrou com um processo de recuperação extrajudicial em 2024 para renegociar R$ 4,1 bilhões em dívidas. A RE não resolveu integralmente as questões da companhia, que continuou a dar prejuízo e acabou recorrendo a uma segunda tentativa de reestruturação, dessa vez mais abrangente, via RJ, com passivo de R$ 17,3 bilhões.

Segundo Antenor Camargo, sócio da gestora Farallon, o padrão atual do mercado é não conceder crédito a empresas com alavancagem superior a 2,5 vezes a geração de caixa.

“Quem precisa de crédito não tem crédito e nem rolagem da dívida. Falta capital para novas transações e vai continuar em falta”, disse o gestor, que enxerga grandes oportunidades em bonds e debêntures do mercado secundário.

A escassez de crédito é um desafio ainda mais urgente do outro lado da mesa. Em painel realizado na sequência, executivos apontaram a dificuldade das empresas em reestruturação para conseguir crédito de longo prazo, em um mercado no qual a maior parte do capital tem horizonte mais curto e caráter oportunístico.

“Normalmente, o capital concedido é de curto prazo, não é capital estratégico. No momento que a companhia bota um pouco a cabeça para fora vem pressão de saída”, afirmou Bruno Serapião, CEO da Atvos.

Serapião entrou na companhia em meio ao processo de RJ, que tinha passivos originalmente de R$ 11,9 bilhões. “É um conflito com o time de gestão, que quer a empresa longeva”.

O momento logo após a reestruturação também é um desafio relevante na avaliação de Camille Faria, conselheira de PetroReconcavo e ex-CFO da Americanas. Durante a reestruturação, as companhias acessam linhas de crédito e recebem proteção judicial que permitem a retomada das operações e da geração de receita. Com o fim do processo, no entanto, esses mecanismos deixam de estar disponíveis.

“No dia seguinte à reestruturação, a companhia não tem mais essa proteção judicial ou linhas que negociou em RJ, não tem acesso ao mercado de crédito. O trabalho que é feito para garantir a longevidade das empresas fica muito comprometido”, disse a executiva.

Para Faria, o mercado também precisa mudar a forma como encara os processos de reestruturação. Os agentes, segundo ela, devem ter um papel de educar o empresariado de que as reestruturações “não são o fim do mundo nem o último passo antes da falência”, e sim instrumentos que devem ser usados de forma oportuna.

Muitas empresas, em sua visão, ainda esperam demais para recorrer ao mecanismo de RE e chegam à reestruturação já pré-insolventes – cenário que reduz a margem de negociação e tende a ampliar o desgaste entre credores e devedores.