O boom do preço do petróleo que muitos esperavam para este ano, impulsionado pela crise no Estreito de Ormuz, não aconteceu — pelo menos por enquanto. Mas, segundo gestores de um fundo especializado em commodities, o choque foi apenas adiado.

A explosão dos preços deve ocorrer em 2027, quando a combinação de estoques esgotados, oferta insuficiente e demanda reprimida finalmente se encontrarem. Neste cenário, o barril acima de US$ 100 não será um pico momentâneo, mas uma realidade sustentada ao longo do próximo ano.

A avaliação vem de Leigh Goehring e Adam Rozencwajg, gestores do fundo Goehring & Rozencwajg Natural Resources Equity, e conhecidos por previsões contrárias ao consenso e por antecipar movimentos estruturais no mercado de commodities, desde petróleo e gás natural até urânio e ouro.

Os dois gestores fazem suas apostas utilizando ações em vez de contratos futuros. A estratégia tem um histórico sólido de apostas contrárias à tendência de curto prazo, registrando retornos anualizados de 14% desde o seu início, no final de 2015, e de 21% nos últimos cinco anos, mais que o dobro dos retornos do índice S&P Global Natural Resources.

Este ano, o fundo ficou abaixo de seus índices de referência, com um retorno de 6,4% até 31 de julho. Entre outros fatores, os gestores não aproveitaram a alta das ações de refinarias.

Rozencwajg lembra que, no início da guerra com o Irã, analistas projetaram um salto imediato nos preços caso o Estreito de Ormuz permanecesse fechado. Seis meses depois, o estreito continua praticamente bloqueado ao tráfego, mas o índice Brent não ultrapassou US$ 100 e tem oscilado abaixo de US$ 90. A aparente calmaria, segundo ele, mascara uma tensão profunda.

O primeiro sinal está no diesel, que está sendo negociado em máximas históricas. A demanda global pelo combustível pressiona uma oferta que encolheu com a redução da produção em refinarias da Rússia, China e Oriente Médio, afetadas pelos conflitos no Irã e na Ucrânia.

Para manter o abastecimento, países recorreram aos estoques — que agora estão no limite. “Empresas que dependem de estoques de diesel estão em pânico no mundo todo”, afirma ele. Mesmo que o estreito seja reaberto, o “estrago já está feito”: haverá uma corrida para recompor reservas, elevando rapidamente a demanda por petróleo bruto.

Segundo o gestor, o cenário lembra o início da pandemia. Nos primeiros meses, alertas sobre cadeias de suprimentos pareciam exagerados — até que o desequilíbrio se tornou evidente de uma vez. A analogia, para ele, é clara: o mercado de petróleo vive um momento semelhante, em que sinais de estresse são subestimados, mas tendem a se materializar de forma abrupta.

O fator decisivo para 2027, porém, está na oferta global. A produção de petróleo de xisto nos Estados Unidos, responsável pela maior parte do crescimento da oferta mundial na última década, entrou em declínio. As empresas reduziram investimentos em novos projetos, e o crescimento do xisto deve se tornar negativo nos próximos meses.

“Nenhum outro projeto no mundo pode compensar a diminuição da produção dos EUA”, afirma Goehring. A consequência é direta — a Opep, a organização dos países exportadores de petróleo, deve voltar a dominar o mercado sem a concorrência norte-americana, repetindo o ciclo de 2002 a 2008, quando os preços quadruplicaram.

Novas reservas

O alerta dos gestores ocorre num momento em que a perspectiva de escassez já mobiliza países  produtores de petróleo. Noruega, Estados Unidos e Brasil reativaram planos de exploração e buscam novas fronteiras para evitar um choque prolongado.

Na Europa, a Noruega corre para encontrar novas reservas e conter o declínio previsto até 2050. O ministro da Energia, Terje Aasland, defendeu nesta semana na Offshore Northern Seas (ONS) 2026 — um dos maiores fóruns globais de energia, realizado a cada dois anos em Stavanger, na Noruega — uma ação coordenada entre governo e indústria para ampliar a recuperação de campos existentes no Mar do Norte e viabilizar novas descobertas, inclusive no Mar de Barents, no Ártico.

O país nórdico é hoje o principal fornecedor de petróleo e gás do continente após as sanções à Rússia. Empresas como Equinor, Aker BP e Vår Energi já anunciaram recentemente planos exploratórios no Mar do Norte.

A pressão por novas reservas também cresce nos Estados Unidos, onde o governo de Donald Trump vê o Alasca como uma das regiões de maior potencial energético do mundo. A ambição inclui até a Groenlândia, cujo interesse estratégico envolve petróleo, gás e minerais críticos.

No Brasil, a busca por novas fronteiras se concentra na Margem Equatorial, apesar das críticas de ambientalistas. A Petrobras reforçou a aposta após anunciar uma descoberta na Bacia da Foz do Amazonas.

Para a diretora de Exploração e Produção da estatal, Sylvia dos Anjos, a fronteira já está aberta e deve ganhar ritmo nos próximos anos. “A Margem Equatorial é estratégica para a Petrobras porque pode ajudar a repor reservas de petróleo a partir da próxima década, quando a produção do pré-sal tende a atingir o pico e começar a declinar”, afirmou a executiva no fórum na Noruega.

O plano de negócios 2026-2030 da Petrobras prevê US$ 2,5 bilhões em investimentos na Margem Equatorial, com exploração de 15 novos poços, e também há expectativa crescente sobre a Bacia de Pelotas.

A busca por novas reservas coincide com a reversão da tendência de investimentos de muitas petroleiras no desenvolvimento de projetos de energia limpa, como na produção de hidrogênio verde, eólicas offshore, captura e estocagem de carbono (CCS) e biogás.

O CEO da TotalEnergies, Patrick Pouyanné, indicou que esses projetos ainda não conseguiram se provar economicamente viáveis, sobretudo frente a outras fontes renováveis, como geração solar e eólica terrestre.

“Há cinco anos, parecia óbvio para a indústria tentar desenvolver essas tecnologias, mas hoje estamos de volta ao fundamento da energia, que é o preço acessível”, disse Pouyanné durante o evento na Noruega. “É uma questão de eficiência: prefiro colocar esse dinheiro em solar e eólica onshore nas quais sei que posso ter lucro.”