A Shein se acostumou, nos últimos anos, a ditar as tendências e o ritmo do mundo do varejo de vestuário global. Na bolsa, porém, sua estreia mostra que nem todo lançamento vira tendência — ao menos entre os investidores.
A companhia chinesa de varejo digital realizou sua oferta pública inicial (IPO) na Bolsa de Hong Kong na terça-feira, 1º de setembro, e viu suas ações caírem mais de 10% nos primeiros minutos do pregão, antes de encerrarem o dia praticamente estáveis, a 48,50 dólares de Hong Kong (US$ 6,20).
O desempenho decepcionante é o capítulo final de um IPO marcado por frustrações, com a Shein se vendo forçada a reduzir suas expectativas diante de pressões regulatórias e questões geopolíticas.
Após ser avaliada em US$ 100 bilhões em 2022, em uma rodada privada, a Shein viu seu valuation ser reajustado para baixo diversas vezes, até chegar aos US$ 26 bilhões com os quais estreou na Bolsa de Hong Kong. A empresa precificou as ações em 48,56 dólares de Hong Kong (US$ 6,19), no meio da faixa de preço, levantando HK$ 13,6 bilhões (US$ 1,7 bilhão).
A Shein ganhou o mundo durante a pandemia, quando os lockdowns e a repercussão nas redes sociais de vídeos de compras atraíram jovens consumidores para a tese de moda barata da companhia.
Na posição de maior nome do varejo de roupas do mundo, a Shein iniciou o processo de abertura de capital. No fim de 2023, a companhia apresentou um pedido confidencial para listar suas ações nos Estados Unidos, com o objetivo de realizar um dos maiores IPOs dos últimos anos.
A empresa buscava, naquele momento, um valuation superior a US$ 66 bilhões, com a pretensão de chegar a US$ 90 bilhões. Apesar de conquistar, em janeiro de 2024, a aprovação das autoridades chinesas para abrir capital nos Estados Unidos, o cenário rapidamente mudou.
A companhia se viu dragada pela disputa geopolítica travada entre Washington e Pequim. O governo americano passou a ver a Shein como possível instrumento do governo chinês, dificultando o avanço da abertura de capital.
A Shein também passou a estar sob o microscópio das autoridades chinesas. A Administração do Ciberespaço da China anunciou, no começo de 2024, uma revisão de segurança sobre as operações da Shein, examinando toda a cadeia de suprimentos da empresa no país.
Sem conseguir avançar nos Estados Unidos, a Shein passou a considerar a Bolsa de Londres como alternativa. Mas a empresa também enfrentou dificuldades em terras britânicas: questões regulatórias envolvendo ESG e preocupações sobre a estrutura societária da companhia e seu modelo de negócios travaram o processo e colocaram em xeque a viabilidade de uma listagem por lá.
Essas dificuldades, combinadas com a mudança do foco dos investidores para teses ligadas à inteligência artificial (IA), forçaram a Shein a repensar suas ambições de valuation — de US$ 100 bilhões, passou para US$ 66 bilhões em 2023, para uma faixa entre US$ 40 bilhões e US$ 55 bilhões quando considerava o IPO em Londres, até chegar aos US$ 26 bilhões atuais.
Diante das dificuldades, a Shein acabou optando por Hong Kong. No prospecto, a companhia revelou um esforço intenso para se reposicionar como uma plataforma de tecnologia, não apenas de moda, e convencer o mercado de seu crescimento sustentável.
O mercado pode ver também o desempenho financeiro da empresa. O lucro líquido da Shein caiu para US$ 2 bilhões no ano passado, após atingir o pico de US$ 3,4 bilhões em 2024, enquanto as margens de lucro líquido diminuíram drasticamente para 4,9%, ante 8,7% no mesmo período.
A empresa reportou também um prejuízo líquido de US$ 99 milhões no primeiro trimestre, alertando para os riscos das tensões comerciais entre China, Estados Unidos e União Europeia (UE) para seus negócios.
Apesar de todas essas dificuldades, a Shein chegou à Bolsa como um dos maiores nomes da moda em termos de valor, pouco abaixo do da sueca H&M, avaliada em US$ 28,9 bilhões. Na primeira posição está a Inditex, dona da Zara, cujo valuation soma US$ 206,6 bilhões.