Em uma das gestões mais longevas da história da indústria brasileira, Benjamin Steinbruch está deixando o cargo de CEO da siderúrgica CSN, após 24 anos. A partir de quinta-feira, 3 setembro, a cadeira será ocupada por Fabio Schvartsman, que comandou a Vale entre 2017 e 2019.
Desta forma, Steinbruch, que lidera a empresa há mais de três décadas, volta a ocupar o posto de presidente do conselho de administração da CSN, que estava vago. Ele foi chairman da empresa entre 1995 e 2023. E desde 1993 integra o conselho.
A chegada do novo CEO ocorre em um dos momentos mais desafiadores da companhia. A missão imediata de Schvartsman será a de avançar no plano de desalavancagem da CSN, que enfrenta hoje um endividamento de R$ 42 bilhões e uma alavancagem de 3,49 vezes a relação dívida líquida versus Ebitda.
“O Fábio vem com a missão de desalavancar a CSN, dentro do que for possível, para que a gente consiga ter uma redução da dívida de forma significativa, para continuar nosso trabalho, e não pagando essa carga de juros absurda e desnecessária”, diz Steinbruch ao NeoFeed.
Uma das frentes para este caminho está no desinvestimento de ativos, para garantir mais caixa para a empresa. O processo de venda da CSN Cimentos é o mais adiantado. A empresa já recebeu propostas de interessados e a perspectiva é que o negócio seja finalizado até novembro.
“A gente começou, há cerca de duas semanas, o processo bid, e agora eu acredito em mais uns 45 dias para discutir a formalização e a escolha da melhor proposta”, afirma o empresário.
Com a venda encaminhada, a perspectiva é a de reduzir de forma expressiva a dívida da companhia. “O nosso plano é de desalavancar entre R$ 18 bilhões e R$ 20 bilhões, dentro do processo que está implementado.”
Steinbruch também reconhece que será um desafio para ele próprio deixar o dia a dia da operação, já que, ao longo das últimas décadas, a CSN sempre foi diretamente associada à imagem de seu controlador.
“Essa é realmente uma questão. Parte da minha vida está aqui. São 33 anos. É um momento histórico de mudança. Pretendo continuar fazendo muita coisa, só que no conselho. Tenho uma ação importante do ponto de vista estratégico e de relacionamento”, diz Steinbruch.
Com isso, ele entende que será importante um processo de transição, já com Schvartsman na cadeira. “A gente vai fazer essa transição de forma imediata, mas com uma grande proximidade. Estarei disponível para ajudar o Fábio.”
Se hoje a CSN enfrenta um momento difícil, provocado principalmente pela dificuldade do cenário macroeconômico, foi na gestão de Steinbruch que a companhia deu um salto no mercado brasileiro e partiu para novas alavancas de crescimento.
No caso do próprio segmento de cimentos, que a empresa agora vai sair, o plano não existia há 12 anos. Hoje, é o segundo player do mercado, com 21% de participação, atrás apenas da Votorantim Cimentos, com 35% de market share.
Steinbruch diversificou a companhia, transformando-a em uma holding com atuação em diversos segmentos. Além do setor de cimentos, a CSN está presente na siderurgia, metalurgia, energia, infraestrutura e logística.
De qualquer forma, o empresário confirma que pretende vender participações da companhia em segmentos, para seguir o planejamento de realocação de capital.
“Depois do cimento, vamos trabalhar em participações minoritárias na infraestrutura e energia, venda de unidades independentes no exterior, e depois trazer parceiro para siderurgia para avançar em inovação e tecnologia.”
Com isso, o plano de Steinbruch, agora, é concentrar a atenção no equilíbrio financeiro, com o foco nas atuações consideradas mais estratégicas. E é esse desenho que o novo CEO precisará ter em mente.
O processo de mudança de comando vem sendo desenhado por ele há cerca de três anos, mas somente agora conseguiu implementar a passagem de bastão. Ele conta que foi ouvir o mercado sobre qual seria a principal opção para o posto e nome de Schvartsman ganhou força.
No fundo, Steinbruch sabia que seria difícil escolher um sucessor para a CSN, dado sua característica de ser um empresário que tem uma atuação muito forte na gestão e nas decisões da empresa.
“Comecei a procurar pessoas. É difícil procurar quem pudesse me substituir pela particularidade da empresa e pela minha particularidade, em acompanhar a empresa há tanto tempo. Achamos o Fábio, que me pareceu a pessoa adequada. Perguntei para muita gente e a referência foram as melhores”, afirma.
Schvartsman teve atuação de destaque em diversas companhias. Atuou por 22 anos no Grupo Ultra, onde chegou à cadeira de CFO. Foi CEO da Klabin entre 2011 e 2017, no período em que a empresa dobrou sua capacidade de produção. Desde 2022 integra o conselho de administração da Vibra Energia.
Na Vale, o agora CEO da CSN enfrentou a crise de um dos maiores desastres ambientais no Brasil, que foi o rompimento da barragem na cidade mineira de Brumadinho, em janeiro de 2019, e que resultou na morte de 272 pessoas.
Para Steinbruch, esse episódio não irá afetar o trabalho do executivo na companhia. “A carreira do Fábio é diferenciada. Aconteceu uma fatalidade durante o período em que ele era CEO e que realmente marcou”, afirma.
E completa: “Ele vai mostrar agora que isso não foi uma questão dele. Poderia ter acontecido com qualquer um. A percepção do mercado com relação a ele é muito boa. Eu tinha essa preocupação e que isso ocorresse de maneira adequada.”
No acumulado de 2026, as ações CSNA3 registram desvalorização de 31,6%. Em 12 meses, a queda é de 20%. A CSN tem valor de mercado de R$ 7,9 bilhões.