Três meses depois de levar seus produtos para as prateleiras da Amazon, o Magazine Luiza volta a expandir sua vitrine virtual para além dos seus domínios. E, mais uma vez, com um peso pesado do setor, com quem a varejista se acostumou a disputar os cliques dos consumidores.
A partir desta quarta-feira, 2 de setembro, o Magalu passa a vender os produtos do seu estoque próprio do e-commerce (1P) também no Mercado Livre, em um acordo que inclui ainda o portfólio de outras duas marcas do seu ecossistema - a Época Cosméticos e o KaBuM!, e-commerce de games e informática.
Nesse arranjo, a varejista vai ofertar cerca de 27 mil produtos no Mercado Livre. Além dos estoques da Época Cosméticos e do KaBuM!, esse mix incluirá categorias como móveis, linha branca, TVs, computadores e celulares. Todos esses itens serão entregues pelo Magalog, seu braço logístico.
“Hoje, as fronteiras competitivas estão menos claras. Há um espaço muito grande de cooperação e coopetição”, diz Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, ao NeoFeed. “E o Mercado Livre tem uma audiência muito grande, além de uma posição de liderança entre as principais plataformas.”
Dados do Instituto Retail Think Tank fornecem uma pista do que está em jogo nessa parceria. Segundo o estudo, o Mercado Livre liderou entre os marketplaces no País em 2025, com um GMV estimado em R$ 185 bilhões. O Magalu, com R$ 44,3 bilhões, ficou em terceiro nesse pódio, atrás da Shopee.
O Mercado Livre não divulga muitos números isolados do Brasil, que respondeu por 54,2% da receita de US$ 10,2 bilhões do grupo no segundo trimestre. Mas, a partir dessa representatividade, outros indicadores globais do período ajudam a dar uma dimensão da sua operação no País.
Entre abril e junho, o Mercado Livre reportou um GMV de US$ 21,9 bilhões, alta anual de 44%. Nesse intervalo, a plataforma contabilizou 795 milhões de itens vendidos e uma base de 89,3 milhões de compradores únicos ativos. E, nesse balanço, o Magalu também tem atrativos para o grupo.
“Há uma sinergia enorme. Temos a maior audiência do Brasil e essa base também está procurando produtos nos quais o Magalu é muito forte”, diz Fernando Yunes, vice-presidente executivo do Mercado Livre na América Latina e líder da empresa no Brasil, ao NeoFeed.
“Eles trazem sortimento, condições de preço e logística que nós não temos em algumas categorias”, afirma o executivo. “Especialmente em produtos pesados, mas também em games e eletrônicos, com a KaBuM!, e em marcas e produtos de cosméticos, com a Época.”
Até então, em categorias como móveis, a Casas Bahia era um dos grupos que mantinha uma parceria com o Mercado Livre, que assim como o Magalu, também vem ampliando os acordos dessa natureza com outros grandes players de diferentes segmentos. Entre eles, Assaí, Carrefour e GPA.
A partir dessa combinação de forças, o Magazine Luiza já tem uma estimativa de qual pode ser o seu saldo na associação com o Mercado Livre. “Nas nossas contas, três quartos dos clientes que irão comprar os nossos produtos na plataforma deles serão novos clientes para o Magalu”, observa Trajano.
De olho nessa base, o acordo também prevê a inclusão da Netshoes, braço artigos esportivos do grupo, nesse pacote. “A indústria da moda esportiva tem restrição para quem é mais generalista”, diz Trajano. “Então, as negociações dos produtos demoram um pouco mais para serem viabilizadas”.
A ampliação desse leque passa ainda pela alternativa de estender o acordo ao uso das lojas do Magalu como pontos de retirada e devolução de produtos vendidos por qualquer parceiro do Mercado Livre. Bem como do Magalog para realizar a entrega de terceiros na plataforma do novo parceiro.
“Hoje, o Mercado Livre entrega 95% dos produtos que ele vende”, diz Trajano. “Mas existe a possibilidade de, no médio prazo, eles usarem os serviços do Magalog, especialmente na modalidade rodoviária, de produtos pesados.”
Yunes acrescenta: “Nós nascemos entregando produtos pequenos e até lançamos um centro de distribuição e uma operação de última milha para pesados”, diz. “Mas se quiséssemos chegar ao Brasil todo teríamos que criar muito mais. Enquanto o Magalu já faz milhares dessas entregas diariamente”.
Enquanto a dupla ainda avalia estreitar esses laços, o Magalu já está avançando para novas etapas no acordo fechado com a Amazon. Em outubro, o Magalog passará a fazer entregas de produtos de terceiros na plataforma da gigante americana, além de ganhar um novo status com a parceira.
“A Amazon vai passar a considerar o Magalu como se fosse uma operação de estoque próprio”, explica o CEO do Magalu. “E, a partir disso, vamos ter diversas vantagens, entre elas, prazo de entrega menor, prioridade no buy box. Na prática, é como se o fulfillment fosse da Amazon”.
Em paralelo a esse avanço, o Magalog começa a ganhar tração “fora de casa”. Hoje, 30% da receita dessa operação já é gerada além dos limites da varejista, com clientes como Samsung, O Boticário, Renner e, inclusive, concorrentes como a Centauro – uma das grandes rivais da Netshoes.
“Esse é um movimento super estratégico e importante”, diz Trajano. “Quanto maior a escala do Magalog e fora do nosso ecossistema, melhor vai ser para o próprio Magalu, porque conseguimos diluir o custo dessa operação”.
Macro complexo, micro mais competitivo
Essa orientação vale tanto para a logística, que hoje inclui uma malha com 21 centros de distribuição, 175 CDs de cross-docking e 1.247 lojas como mini-hubs, quanto para outros braços que o Magalu ergueu nos últimos anos. Entre eles, a Magalu Cloud, de serviços de tecnologia e nuvem.
Em uma lógica que também já guiou os passos de players como a própria Amazon, a varejista entendeu que a infraestrutura construída para atender sua própria operação poderia render muito mais resultados se fosse ofertada também a terceiros.
Tal abordagem se aplica, inclusive, como uma boa moeda de troca nessas parcerias com outras plataformas, uma estratégia que teve início em 2024, por meio de acordos com players como AliExpress, Itaú Shopping, Americanas e Livelo. E que começou a ganhar mais fôlego neste ano de 2026.
“A audiência está cada vez mais pulverizada e o custo de aquisição de clientes bem mais elevado, até pela guerra entre as plataformas”, diz Trajano. “E num contexto macroeconômico complexo e, no micro, muito mais competitivo, precisamos voltar a ganhar escala no online, que é 70% do nosso faturamento.”
Os números do Magalu no segundo trimestre trazem o retrato mais recente desse cenário. Enquanto as vendas das lojas físicas do grupo cresceram 10,3%, para R$ 5,1 bilhões, as do e-commerce recuaram 11,9%, para R$ 9,3 bilhões. Nessa equação, as vendas totais caíram 5,1%, para R$ 14,5 bilhões.
Trajano observa que, a partir dos acordos costurados com a Amazon e o Mercado Livre, a expectativa é virar a chave de volta ao crescimento na operação online já no quarto trimestre. E que há espaço para novas parcerias nesses moldes, desde que elas atendam a algumas premissas.
“Não vamos crescer em detrimento da rentabilidade”, afirma o CEO do Magalu. Ele frisa que o acordo com o Mercado Livre, por exemplo, traz condições muito mais atrativas na comparação com o que o grupo teria de custo para atrair um cliente ao seu ecossistema.
Questionado se essa maior diversidade de prateleiras não pode trazer conflitos de canais e precificação, ele responde que o Magalu adota um preço-base para todas as plataformas, próprias ou de terceiros. E que eventuais promoções estarão na conta desses parceiros e de suas estratégias comerciais.
“Essas plataformas têm a liberdade de fazer essas ações, mas isso não será com a minha margem”, afirma. “Isso também tende a melhorar um pouco a nossa dinâmica de despesas financeiras, porque não seremos nós que faremos o financiamento ao consumidor final”.
Os esforços do Magalu não se resumem, porém, a essas parcerias. Em paralelo, nos seus canais próprios, o grupo tem se concentrado em uma abordagem de investir em menos produtos e mais curadoria, num pacote que ainda inclui boas doses de inteligência artificial (IA).
“Nós acreditamos que o consumidor muitas vezes vai querer comprar numa plataforma generalista, mas, em outros momentos, vai preferir um produto mais específico, adquirido com um especialista”, diz. “Então, eu entendo que esses dois mundos podem conviver.”
Ao mesmo tempo, o Magalu começa a retomar a expansão em lojas físicas. O ponto de partida nessa frente veio no fim de 2025, com a abertura da primeira Galeria Magalu, formato que reúne todas as marcas do grupo. Já no segundo trimestre deste ano, uma loja da rede foi inaugurada em Ceilândia (DF).
“Vamos abrir outra agora na Ilha do Governador e converter algumas lojas do Magalu no conceito da Galeria. E também estamos considerando lojas stand alone da Época, do KaBum! e da Netshoes”, diz Trajano. “Temos uma concorrência bem menor no offline e um espaço enorme para crescer.”
Nesse contexto, embora Trajano não faça menções a concorrentes, o fato de a Casas Bahia, um dos rivais diretos do Magalu, ter entrado em recuperação judicial em julho, abre caminho para que a varejista possa avançar em seu terreno, tanto em lojas físicas como no digital.
Yunes, por sua vez, ressalta que a parceria do Mercado Livre com a Casas Bahia tem gerado bons resultados, mesmo diante da operação da varejista impactada pela RJ. E também fala sobre esse cenário da concorrência, especialmente no plano dos eletroeletrônicos e móveis.
“Antes, esses segmentos eram muito concentrados em Magalu, Casas Bahia, Americanas e Ricardo Eletro”, diz Yunes. “A Ricardo Eletro saiu do mercado e a Americanas praticamente não existe mais no online. As que ficaram foram Magalu e Casas Bahia, além de outras menores”.