A biotech que atraiu investidores como Guilherme Leal e Pedro Passos

A brasileira Nintx desenvolve medicamentos com base na biodiversidade brasileira. E captou um aporte de US$ 3 milhões liderado pela Pitanga, que tem nomes como Guilherme Leal e Pedro Passos, fundadores da Natura, como investidores

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Cristiano Guimarães (à esq.), Miller Freitas e Stephani Savério, os fundadores da Nintx

Foi na operação da farmacêutica brasileira Aché que Miller Freitas, Cristiano Guimarães e Stephani Savério se conheceram. Além da ampla experiência em grupos globais dessa indústria, o trio compartilhava uma ambição: mostrar que o Brasil podia ir além das inovações incrementais do setor.

Essa aspiração começou a tomar forma no fim de 2020, quando os três fundaram a biotech Nintx (Next Innovative Therapeutics). E agora ganha fôlego com um aporte seed, no valor de US$ 3 milhões, que está sendo anunciado nesta quinta-feira, 4 de agosto.

Mais que os recursos, o que traz uma chancela para a startup é quem assina o cheque. A rodada é liderada pela Pitanga, empresa de capital de risco especializada em deep techs, ou seja, startups de base científica e tecnológica.

A gestora tem entre seus cotistas nomes como Candido Bracher, ex-CEO do Itaú Unibanco, e Eduardo Vassimon, presidente do conselho de administração da Votorantim, além de Pedro Passos e Guilherme Leal, fundadores da Natura.

Leal reforça essa validação da tese da Nintx, inclusive, com um segundo aporte dentro desse montante, por meio da Maraé Investimentos, seu family office. A rodada conta ainda com a participação de Peter Andersen, CEO do grupo Centroflora, fabricante brasileiro de extratos para medicamentos.

“O Guilherme e o Peter, por exemplo, têm muito conhecimento em ESG do ponto de vista de retorno financeiro, ambiental e social”, diz Guimarães, cofundador da biotech, ao NeoFeed. Savério acrescenta: “Esse é exatamente o perfil que queremos nos associar para nos tornarmos um player global de P&D.”

Antes de cumprir esse trajeto, a Nintx percorreu um longo processo para passar pelo crivo da Pitanga e captar o aporte, que marca o primeiro investimento do segundo fundo da gestora. As conversas duraram cerca de um ano, período em que a Pitanga avaliou mais de 500 projetos.

“Existe um alinhamento de propósito. Eles veem uma oportunidade de releitura em cima da biodiversidade brasileira”, diz Freitas. “Nós acreditamos que dá para fazer ciência de ponta no Brasil e colocar o País no cenário global de alto impacto de novas terapias e tratamentos.”

A fórmula que atraiu esse investimento passa pelo desenvolvimento de medicamentos a partir da investigação de compostos naturais produzidos por microrganismos e por plantas, tendo como base a biodiversidade brasileira. Para isso, a startup investe em uma abordagem batizada de multi-target.

“Não há um único fator que causa doenças. Eles são genéticos, ambientais, sociais, psicológicos”, diz Guimarães. “Então, além de alvos biológicos, nós modulamos microbiomas, em particular, o intestinal, que está na gênese de diversas patologias.”

São cinco as áreas terapêuticas no radar: doenças infecciosas, cardiometabólicas, imunologia, neurociência e gastroenterologia. Os projetos contam ainda com o apoio de tecnologias desenvolvidas pela própria empresa.

O pacote inclui, por exemplo, uma plataforma baseada em dados da literatura científica, que mapeia quais espécies na biodiversidade brasileira têm mais potencial no tratamento de doenças. E também um equipamento que permite fazer uma série de testes ao simular todo o sistema gastrointestinal.

Previsto para ser inaugurado em Campinas (SP), entre setembro e outubro deste ano, o laboratório que irá abrigar essas tecnologias e o desenvolvimento dos projetos da Nintx é um dos destinos do aporte. A unidade já está operando parcialmente, com uma equipe de cinco pesquisadores.

A ampliação desse time é mais uma das pontas do investimento. Até o fim do ano, o plano é contratar mais três pesquisadores e, em 12 meses, chegar a 12. “A ideia é escalar gradualmente essa equipe à medida que fizermos os kick offs dos projetos”, observa Freitas.

Esses projetos são o maior foco do aporte. “Esse investimento chega exatamente no momento de financiá-los”, explica Savério. “Cerca de 70% dos recursos serão aplicados nessa frente. O aporte cobre nossos próximos dois, três anos de desenvolvimento.”

Esse horizonte envolve oito iniciativas de desenvolvimento de medicamentos, todas por meio de parcerias. Cinco delas já estão com contratos assinados e em andamento. As três restantes estão em fase de concepção e têm como foco a gastroenterologia e as doenças de Parkinson e Alzheimer.

Entre as que já estão em curso, um dos destaques são as três parcerias com o Centro Nacional de Pesquisa de Energia e Materiais (CNPEM), voltadas, respectivamente, às áreas de doenças infecciosas, imuno-oncologia e regeneração cardíaca e hepática.

Licenciamento

Os projetos da Nintx cobrem desde a identificação dos compostos até os estudos pré-clínicos, realizados em animais. Concluído esse ciclo, que leva, em média, entre sete e oito anos, o próximo passo será “bater na porta” das farmacêuticas.

Esse modelo, já adotado no mercado, envolve o licenciamento das pesquisas para as grandes empresas do setor, o que inclui o pagamento de royalties. Com mais recursos, essas companhias dão sequência ao projeto até colocarem os respectivos produtos nas prateleiras.

“Em uma analogia, em um prédio de dez andares, a Nintx constrói os dois primeiros e vende para quem vai terminar esse edifício”, diz Guimarães. “Depois de pronto, nós recebemos 20% do valor por cada apartamento que aquela parceira vender.”

Tal proposta está em linha com uma tendência em crescimento no mercado. Nos últimos anos, as grandes indústrias farmacêuticas passaram a apostar na descentralização de pesquisa e desenvolvimento, no lugar de manter todas as etapas desses processos dentro de casa.

“É um modelo vantajoso”, ressalta Freitas. “Elas aumentam o leque de opções, ganham velocidade e reduzem seus riscos.” Do ponto de vista da Nintx, esse cenário explica o foco global da companhia.

“Há muita hesitação das grandes farmacêuticas nacionais em investir nesse modelo”, diz Guimarães. “Essas empresas ainda estão mais focadas em genéricos e inovação incremental.”

Assim como a aposta das farmacêuticas locais nessa esfera, o investimento em biotechs no País ainda engatinha. Um exemplo recente é a Autem Medical, que captou, em junho, US$ 10 milhões em uma rodada liderada pelo fundo chileno Zentynel.

Outro investimento veio em dezembro, com o aporte de R$ 4 milhões da Techtools Ventures na mineira Engenetiq, empresa de biotecnologia que desenvolveu um extrator de DNA de baixo custo.

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