A CVM entre os tubarões e as sardinhas no mercado de ações

Pequenos ou grandes investidores não podem se organizar para manipular mercados artificialmente. Já ocorreu por diversas vezes na história e deixou sequelas graves aos envolvidos

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Foi assunto recorrente, ontem e hoje, o fenômeno supostamente democrático e de empoderamento dos pequenos investidores que colocaram o hedge fund gigante em “corner”, provocando o chamado “short-squeeze” de sua posição vendida nas ações da Game Stop.

Não vou me aprofundar nos detalhes do caso porque foi amplamente noticiado nas mídias tradicionais e eletrônicas ontem e hoje. Mas queria me debruçar um pouco mais sobre o que, de fato, isso representa e o desafio que se impõe aos reguladores depois disso.

Esse foi o caso mais notório e que ganhou maior publicidade – talvez por ter deixado uma vítima facilmente identificável, o fundo Melvin Capital – ao apelar para o bom-mocismo-robin-hoodiano que habita o inconsciente politicamente correto do imaginário popular.

Um cardume de simpáticas sardinhas resolveu dar o troco e espantar um malvado tubarão. E a simpatia pelas sardinhas ecoou mundo afora. Mas a situação é bastante complexa. E tem se repetido em vários mercados (não apenas na Bolsa).

Hoje existem grupos organizados no Instagram, no WhatsApp, no Twitter, no Telegram – pode escolher sua rede social preferida. Eles agem de forma coordenada e sincronizada para impactar mercados como dólar futuro, índice futuro e ações individuais.

Ontem foi nos EUA com a GameStop. Hoje foi por aqui com as ações do IRB (que subiam 14,3% hoje enquanto eu escrevia esse artigo). Mas, diariamente, vemos movimentos de volatilidade exacerbada em vários mercados, causados por day-traders, swing traders ou qualquer que seja o jargão que algum simpático e comunicativo influenciador resolveu adotar como “do momento”.

A questão é séria e merece atenção de nossos reguladores. CVM e Banco Central já tornaram públicas suas preocupações. Para deixar claro: não existe absolutamente nada de errado em pequenos investidores comprarem e venderem o que bem entenderem. Nem de terem acesso a informações que antes eram restritas a estudiosos mais dedicados.

Esse processo de disseminação do conhecimento veio para ficar e chegou aos mercados financeiros. É bom e é saudável. A questão é outra. Pequenos ou grandes investidores não podem se organizar para manipular mercados artificialmente. Já ocorreu por diversas vezes na história e deixou sequelas graves aos envolvidos.

Quem não se lembra do escândalo da Libor lá fora? Ou dos “chats” na Bloomberg com práticas no mínimo esquisitas de traders de câmbio discutindo posições de clientes e a formação da PTAX?

“O que se vê nesses fóruns são manipulações de mercado escancaradas. Sem governança, sem regulação e, na maioria das vezes, no anonimato”

O que se vê nesses fóruns são manipulações de mercado escancaradas. Sem governança, sem regulação e, na maioria das vezes, no anonimato. O fato de serem pequenos investidores não lhes dá imunidade.

Gozam da proteção ao transacionarem com grandes instituições, mas não de passe-livre no mercado para desrespeitar as regras que visam garantir a livre-concorrência.

Ao, deliberadamente, discutirem suas estratégias e coordenarem suas ordens, esses investidores estão atentando contra o funcionamento equânime do mercado. Investidores não podem fazer isso. Nem grandes, nem pequenos.

Aqui não se trata de direito de expressão (como se ouve em defesa de influenciadores não-certificados que exprimem suas opiniões) ou de Davi x Golias. Aqui se trata de pura e simples manipulação de preços e cartelização.

Com a palavra, a CVM.

Rogê Rosolini é profissional com mais de 25 de experiência, foi diretor dos bancos Barclays e Bank Of America Merrill Lynch e é sócio da gestora independente Journey Capital.

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