A festa econômica e as cicatrizes da política monetária

Pesquisadora e coordenadora do Boletim Macro FGV Ibre, Silvia Matos defende mudança profunda na política social, não vê sentido em subsídios à gasolina e considera que critérios políticos e eleitoreiros – e não técnicos – para promover medidas acabam sendo um tiro pela culatra

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Silvia Matos é coordenadora do Boletim Macro FGV Ibre

Pandemia e crise hídrica são páginas viradas e a vacinação em massa proporcionou uma retomada muito positiva, mas a inflação, no Brasil e no mundo, alerta que a festa do crescimento tem hora para acabar.

O aperto monetário deixará cicatrizes na economia brasileira, que não é imune às incertezas fiscais, avalia a pesquisadora Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro FGV Ibre, uma espécie de bússola sobre os ventos da economia.

Em entrevista ao NeoFeed, a economista pondera que a política social clama por ajustes desde o início da pandemia, em 2020, mas o clamor dificilmente será atendido porque não é possível fazer política social sem responsabilidade fiscal e Produto Interno Bruto (PIB) em expansão.

Matos entende que é necessário encontrar equilíbrio entre política social e política econômica pró-crescimento. Uma agenda possível, mas difícil de concretizar devido à pressão de diversos setores de interesse que capturam parte do orçamento público.

A pesquisadora da FGV não faz críticas pessoais ao ministro da Economia, Paulo Guedes, mas à condução da política econômica que, avalia, exibe necessidade de ter uma marca própria que prejudica o debate.

“A política econômica é um trabalho coletivo, menos individualista ou personificado. A marca pessoal não pode estar acima das questões econômicas”, afirma. Acompanhe os principais trechos de sua conversa com o NeoFeed:

O PIB cresceu 1% no primeiro trimestre. O resultado foi considerado bom e a economia parece ter virado a página da pandemia e da crise hídrica. Por que as perspectivas são de expansão mais frágil?
A onda ômicron, no início do ano, adiou o processo de recuperação, mas a onda passou rapidamente. Março e abril foram meses fora da curva porque a abertura da economia com vacinação acelerada levou a um crescimento forte de serviços e segmentos muito intensivos em trabalho com mais geração de emprego e renda. Nunca considerei a possibilidade de recessão neste ano e o desempenho foi favorável e continuará sendo com setores como educação, saúde e eventos normalizando com a volta presencial. Mas não dá para olhar os meses de abertura como tendência. A inflação está aí, também no mundo, e é sinal de que a festa do crescimento tem hora para acabar. O aperto monetário tem efeitos prolongados.

Quais desafios se impõem para o crescimento?
O momento é bem desafiador também pelas incertezas fiscais. Como temos eleição este ano e o objetivo (do atual governo) é ganhar, vivemos um período de populismo fiscal. Ou seja, a incerteza [quanto aos resultados] persiste e decorre da forma como as regras fiscais podem ser alteradas quando há pressões não necessariamente justas do ponto de vista social. E este ambiente de incerteza eleva ainda mais o risco país, em meio a um ambiente externo mais negativo para países emergentes, depreciando mais a taxa de câmbio e adicionando pressão sobre a inflação. Logo, colhemos menos crescimento econômico.

O limite da cobrança do ICMS garante um impacto baixista na inflação, mas ele será efetivamente temporário?
O impacto estimado pode chegar até 3 pontos percentuais na inflação deste ano. Mas os benefícios de curto prazo não devem se sustentar, pois haverá uma reversão de parte desta queda. As expectativas para a inflação de 2023 já estavam acima da meta. A minha projeção era de 4,4% e, nesse novo cenário, deve ultrapassar 5%, e novamente acima do limite superior da banda de flutuação prevista, de 4,75%. Com isso, o Banco Central pode ter que não apenas subir mais a taxa de juros, mas também mantê-la em patamar mais elevado por um tempo prolongado. Dessa forma, as perspectivas de crescimento econômico de 2023 e de 2024 devem ser prejudicadas também. Hoje, trabalho com projeções de expansão para o PIB de apenas 0,3% em 2023, após 0,9% em 2022.

“As perspectivas de crescimento econômico de 2023 e de 2024 devem ser prejudicadas também. Hoje, trabalho com projeções de expansão para o PIB de apenas 0,3% em 2023, após 0,9% em 2022”

Mesmo com a atuação incisiva do governo, a inflação segue resistente?
Infelizmente sim. Mas, de fato, as surpresas altistas com a inflação mundial não cedem e, com isso, há revisões para a inflação na maioria dos países. Diante do cenário de inflação mais persistente e da sinalização dos principais bancos centrais de que ainda têm um enorme desafio à frente, o grande debate atual se concentra também nas perspectivas para o crescimento. Enfim, esperamos um menor crescimento mundial, mas com uma inflação mundial ainda bem persistente. E isso dificulta o controle da inflação também no Brasil. De fato, as medidas de núcleo de inflação continuam bem elevadas e pressionadas.

A inflação em queda diminui a relevância da política monetária?
A política monetária compõe o equilíbrio macro. E esse equilíbrio significa juros e inflação mais baixos. É uma condição necessária para o crescimento econômico. É claro que não é suficiente. Mas sem isso fica muito difícil imaginarmos retomada do crescimento. E não há política social que seja capaz de compensar os efeitos sociais negativos do baixo crescimento. Não é possível fazer política social sem responsabilidade fiscal e PIB em expansão. Essa é uma mensagem sem dúvida muito importante para o próximo governo a ser eleito em outubro. Portanto, o grande desafio atual é encontrar equilíbrio entre políticas sociais e política econômica pró-crescimento. Essa é uma agenda possível, mas muito difícil de ser conduzida devido à pressão de diversos grupos de interesse que capturam parte do orçamento público através de políticas ineficientes do ponto de vista econômico (que não geram aumento de produtividade) e injustas do ponto de vista social.

Qual é a sua avaliação sobre a condução da política econômica?
Não faço uma crítica pessoal ao ministro, mas quanto à condução da política econômica. O governo, no seu início, apresentou propostas interessantes e deu sequência à pauta reformista herdada do governo Temer. Conseguimos fazer a reforma da Previdência tão almejada. Mas a reforma tributária, por exemplo, deu voltas para chegar no mesmo lugar. Perdeu-se muito tempo para chegar ao que foi colocado ainda por Rodrigo Maia (ex-presidente da Câmara dos Deputados) lá atrás. O ministro parece preferir as soluções de sua autoria e tudo começa do zero, circunstância em que se perde muito tempo. O governo resiste a aceitar o trabalho e propostas de equipes anteriores. E, na minha avaliação, a necessidade de ter uma marca própria na condução da política econômica prejudica muito o debate. A política econômica é um trabalho coletivo, menos individualista ou personificado. A marca pessoal não pode estar acima das questões econômicas.

“O ministro (Paulo Guedes, da Economia) parece preferir as soluções de sua autoria e tudo começa do zero, circunstância em que se perde muito tempo. O governo resiste a aceitar o trabalho e propostas de equipes anteriores”

Mas a pandemia agravou as dificuldades na condução da política econômica…
A Covid-19 foi inesperada para todos e de graves consequência. E, nessa circunstância, é necessário ter humildade para ouvir, tentar encontrar soluções e, eventualmente, mudar de ideia ao longo do processo. Entendo que a política econômica deve ser um porto seguro: apresentar diagnóstico para os problemas, alternativas para solucioná-los e não mitigar os riscos. O discurso de que a pandemia vai passar e que a economia vai muito bem não acrescenta, inclusive, porque não dá para garantir nada em um cenário absolutamente novo. Mais que isso, é necessário reconhecer que a recuperação da economia virá com cicatrizes e desafios. Desde 2020, quando eclodiu a pandemia, víamos que o choque não era homogêneo entre setores ou entre a população e era (como é) papel do estado curar essas cicatrizes. Mas o governo não curou cicatrizes e gastou muito.

O auxílio emergencial foi um exagero?
O auxílio emergencial foi feito para 60 milhões de pessoas e não 60 milhões de necessitados. É preciso ser sincero nessa avaliação. Entendo que inicialmente não haveria critério para definir quem necessitava realmente, mas com o tempo e a tecnologia disponível seria necessário entender melhor quem eram os necessitados. Esse é um exemplo de medida que exige visão mais técnica do que política. Mas o olhar técnico se tornou tão secundário que o próprio governo hoje aceita soluções populistas. Desde o começo, a pandemia exigia maior participação de especialistas em ciência, saúde, educação e economia. Mas isso não aconteceu e faltou liderança. A situação que temos hoje, de inflação aguda, envolve um processo semelhante. Os sinais da inflação já estavam aí. As dificuldades para combatê-la também. E o combate é muito duro, exige sacrifícios e também ações harmônicas entre política monetária e política fiscal.

A crise decorrente da pandemia poderia ter provocado mudanças que não ocorreram?
O ano de 2020, com a pandemia, deveria ter colocado em curso uma mudança profunda na política social. A situação do Brasil é dificílima, mas alguns países estão piores porque dependem muito mais de gás, de petróleo, enfrentam racionamentos. Não estamos nessa situação. Temos inflação, mas porque vamos subsidiar a gasolina? Que se subsidie o gás de cozinha, aumente o Auxílio Brasil ou se promova reajustes mais frequentes do Auxílio Brasil para os mais pobres. Porém, é necessário ter critérios técnicos para promover e justificar essas medidas que ajudam a população até a economia se normalizar. É preciso ter prioridades justas. Critérios políticos e eleitoreiros acabam sendo um tiro pela culatra.

A guerra Rússia-Ucrânia na esteira da pandemia piorou muito o cenário?
Para além da tragédia humanitária, o conflito provocou até uma estilingada nos preços de commodities que favorece países produtores, como o Brasil e tantos outros, mas os efeitos colaterais estão aí. A inflação é o maior deles e num contexto de crescimento econômico insustentável. Os EUA é o pior dos casos porque todos os indicadores mostram que a economia americana vai ter que desacelerar muito. E isso gera um choque de realidade que poderá vir do Fed acelerando o aperto monetário. Mas as incertezas são muitas. O freio de mão estará puxado, mas quando os efeitos vão aparecer? Também não se sabe quanto tempo vai demorar para o fim da guerra Rússia-Ucrânia ou até quando os preços das commodities ficarão elevados.

“Os EUA é o pior dos casos porque todos os indicadores mostram que a economia americana vai ter que desacelerar muito”

A desaceleração da atividade nos EUA é ruim para todos os países?
É ruim sobretudo para os emergentes. Mas a valorização das commodities atenua esse choque e até joga contra. No caso do Brasil, o choque das commodities serve como anestésico e parece que tudo vai bem. E como o cenário é de eleição – e para ganhar a qualquer custo – o país amplifica o benefício desse choque.

Quais são as perspectivas para EUA e China? Há recessão no gatilho?
O diagnóstico é claro sobre os EUA. O processo inflacionário se tornou mais grave e persistente e o Fed vai agir. Mas, parte da minha visão, é que o processo inflacionário não é apenas uma questão de demanda, mas de oferta desequilibrada para além da escassez de insumos nas cadeias de produção. O Fed tem que desacelerar a demanda, mas não é certo que demanda menor levará ao reequilíbrio da oferta e, portanto, à queda consistente da inflação. Não vejo cenário de recessão, mas de estagflação, com o Fed tentando um pouso suave da economia. Mas não sei se essa tentativa dará resultado. O petróleo é um grande problema. E a solução talvez seja aumentar a oferta. A China está desacelerando e a inflação lá não é um problema. Além disso, o governo chinês tem condição de dar estímulos à economia. Se os lockdowns não avançarem, o governo conseguirá evitar uma visão mais negativa da economia.

E o Brasil?
Para crescer, o Brasil precisará fazer um esforço hercúleo, até porque acompanha o ciclo internacional que será de desaceleração com a ação coletiva de bancos centrais aumentando os juros. Mas muito depende também do resultado da eleição, em outubro, e qual será a política econômica que estará valendo. Daí, na minha visão, a importância de um candidato da “terceira via” na disputa e que defende um Estado que arrecada muito, mas não atrapalha o setor privado e que tenha entre suas prioridades a redução da desigualdade com eficiência. No Brasil existe um espaço enorme para um Estado eficiente.

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