A franqueza e o compromisso ético de Anna Maria Maiolino

Abre hoje (7), no Instituto Tomie Ohtake, a exposição “Anna Maria Maiolino: Psiuuuu…”, reunindo 300 trabalhos da artista, prestes a completar 80 anos, que reage de forma ética, estética e emocional às violências do seu tempo

0
0
Leia em 6 min

“Por um fio”(1976): a artista aparece unida à mãe e à filha, por meio de um barbante que sai de sua boca

Em 1967, na exposição Nova Objetividade Brasileira, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Anna Maria Maiolino expôs uma grande orelha, feita de tecido. A obra chamada “Psiu!” fazia alusão ao estado de vigilância em que as pessoas viviam durante a ditadura militar instaurada em 1964.

O trabalho infelizmente não existe mais, mas sua memória é lembrada na mostra “Anna Maria Maiolino: Psiuuuu…”, que traz cerca de 300 trabalhos da artista e abre neste sábado (7) no Instituto Tomie Ohtake.

“O primeiro detalhe importante desse título é a ambivalência. Você pode ler como um convite, uma bronca ou um silenciamento, algo afetivo ou irritado. A existência simultânea de sentidos é muito importante para o trabalho da Anna em geral. Cada pessoa, dependendo da sua memória e das suas emoções, vai construir sua própria percepção das obras”, explica o curador da mostra, Paulo Miyada, ao NeoFeed.

“O segundo ponto importante é que, sendo uma onomatopéia, ‘psiuuuu’ não pertence propriamente a um idioma. Isso também reflete a história da Anna como artista.”
Filha caçula de uma prole de 10, Anna Maria Maiolino nasceu na Calábria, na Itália, em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Mudou-se com a família para Bari, no norte do país.

Em busca de melhores condições, migraram novamente, dessa vez para a Venezuela, em 1954. No país latino-americano, Maiolino concluiu os estudos e começou a se interessar por arte. Aos 18 anos, viveu mais uma mudança: veio para o Brasil, em 1961, onde estudou gravura na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Para ela, se tornar artista no Brasil foi um ganho, porque havia liberdade de criação sem a sombra dos grandes mestres, como Leonardo Da Vinci, na Itália.

Maiolino fez parte do movimento Nova Figuração Brasileira, em que os artistas se contrapunham às diretrizes rígidas do movimento concretista e se dedicavam à busca de temas e estéticas que refletissem o país. Nessa época, ela se interessou pela xilogravura, mesma técnica usada nos livros de cordel.

Uma dessas gravuras desse período é “Anna”, de 1967, na qual duas figuras pronunciam o seu nome, fazendo referência ao seu nascimento. O trabalho também dá título a um dos núcleos da exposição no Tomie.

“O Herói” (1966) está no núcleo Não Não Não da mostra

Em ANNA, o visitante poderá ver os trabalhos que têm inspirações mais biográficas como “Por um fio”, de 1976. Em uma fotografia, a artista aparece unida à mãe e à filha, por meio de um barbante que sai de sua boca.

O barbante pode ser lido como o cordão umbilical, os genes, o sangue ou a descendência que une essas três gerações de mulheres. De acordo com a artista, nada pode ser mais importante do que a vida, o que reflete em seus trabalhos.

Vida na obra

Em 1968, casada com o artista Rubens Gerchman (1942-2008), e com dois filhos pequenos, Maiolino se mudou para os Estados Unidos. Nesta época, para cuidar das crianças e prover o sustento da família trabalhando em um estúdio de design, a artista reduziu a sua produção artística, mas, aconselhada por Hélio Oiticica, começou a escrever.

Enquanto vigiava as crianças brincando, escrevia poemas, rascunhava ideias, desenhos e textos. Parte da produção textual da artista está na mostra em formato de texto, áudio e vídeo. O catálogo da exposição traz uma seleção inédita de seus escritos.

“A Anna fez escolhas ao longo da sua vida que foram custosas, desafiadoras e não foram aceitas com facilidade, mas que hoje reverberam muito nas demandas coletivas”, diz Miyada.

“Ela reivindicou o direito de se apresentar como uma mulher que tem desejo, sexualidade e cumpre inúmeros papéis ao longo do dia – mãe, amiga, amante, esposa, escritora, artista. Essa vivência transparece no trabalho, criando relações afetivas que revelam os sentimentos da artista perante o que acontece ao seu redor.”

“Anna”, xilogravura de 1967, na qual duas figuras pronunciam o seu nome, fazendo referência ao seu nascimento

Na infância, vivendo o pós-guerra na Itália, Maiolino se recorda de passar fome. A mãe a levava para a escola prometendo que mais tarde traria a merenda, mas a refeição nunca chegava porque não havia o que comer em casa.

A lembrança de não ter comida, somada à experiência de ver no Brasil parte da população vivendo situações de miséria e fome, é refletida na instalação “Arroz e Feijão” (1979) – uma mesa posta com pratos servidos de terras e sementes que germinam. Esta obra está exposta no núcleo Não Não Não.

A mostra não está organizada de maneira cronológica, mas por assunto. A artista costuma dizer que sua vida não caminha em linha reta, mas em espiral em que os temas vêm e vão. “Trabalhos feitos recentemente dialogam com obras feitas no passado.

O modo como isso se manifesta é numa exposição que não é cronológica nem linear, mas que se organiza por ênfase. Em cada ênfase, você tem muitos períodos e muitas linguagens”, explica o curador.

Tempo alargado
A primeira conversa que Miyada teve com Maiolino para fazer a exposição aconteceu em 2016, mas a artista estava envolvida com outros projetos. Naquele ano, inaugurou a individual “Tudo Isso”, na galeria Hauser & Wirth, em Zurique, na Suíça; no ano seguinte, abriu sua maior retrospectiva nos Estados Unidos, no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (MoCA).

“Estado escatológico” (1978): instalação, papéis higiênicos, jornal, folha

As conversas foram retomadas em 2019 e o tempo para a realização da pesquisa acabou sendo alargado pela pandemia de Covid-19 – declarada pela Organização Mundial da Saúde em 2020 – e pelos processos de captação de recursos mais burocráticos.

“Três anos é um período longo para a preparação de uma exposição no Brasil. Mas esse tempo teve bons frutos, como conseguir aprofundar o diálogo e desenvolver com profundidade cada detalhe tanto do catálogo quanto da exposição”, explica o curador.

A mostra traz ainda o trabalho inédito “O amor se faz revolucionário”, resultado de um projeto de 1992. Maiolino viveu na Argentina entre 1984 e 1989. O trabalho é uma homenagem às Mães da Praça de Maio – mulheres que protestam até hoje por seus filhos assassinados durante a ditadura militar do país.

“Logo que voltou para o Brasil, a artista não encontrou forças para realizar a obra. Mas em nossos diálogos, percebemos que esse era um momento importante para a obra ser realizada”, diz Miyada.

Em uma época em que o país vê as barbáries da ditadura militar brasileira sendo relativizadas e o mundo vivencia crises migratórias e discussões sobre os direitos das mulheres sobre os seus corpos, o conjunto de trabalhos de Maiolino, independentemente da época, se mostra atual. “É um trabalho de extrema relevância histórica, que se interessa e se comunica fortemente com o presente”, conclui Miyada.

A artista que exerce múltiplos papéis completa 80 este mês (maio)

“A franqueza e o compromisso ético da Anna em se apresentar inteira, em seus múltiplos papéis, fazem com que o trabalho seja muito mais vivaz e que inúmeras pessoas possam se reconhecer neles. Pessoas que, como ela, se sentem comprometidas em reagir de forma ética, estética e emocional às violências do seu tempo.”

Leia também

Brand Stories