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Negócios

A hora da verdade para Uber, Lyft e Pinterest

Abrir o capital foi o menor dos problemas para essas empresas americanas. Com negócios inovadores, elas agora precisam sair do vermelho e provar que são sustentáveis

 

Aplicativo do Uber

A varejista online americana Amazon, que abriu o seu capital em 1997, demorou 17 trimestres para alcançar o lucro. Nessa jornada, a empresa foi bastante pressionada por seus acionistas para apertar os cintos e tingir o balanço de azul. Mas o seu fundador, o homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, manteve firme sua estratégia e nunca cedeu aos apelos dos investidores, mesmo após sua companhia acumular um prejuízo de US$ 2,8 bilhões.

Mais de 20 anos depois, pode-se dizer, com certeza, que quem investiu nas ações na empresa de Seattle na abertura de capital tem muito a comemorar. Afinal, quem apostou no IPO da companhia de Bezos viu seu capital multiplicar mais de 100 vezes. Em números: quem alocou US$ 1 milhão hoje teria mais de US$ 100 milhões.

A história da Amazon ilustra o dilema da abertura de capital de companhias com modelos de negócios inovadores, mas que ainda perdem dinheiro. Vale a pena investir em empresas deficitárias, mas com grande potencial de crescimento e de dominarem os seus mercados? Essa é a dúvida que está na cabeça dos investidores mais uma vez.

A expectativa é que 2019 seja um dos anos mais marcantes no que diz respeito às empresas de tecnologia tocarem os sinos de Wall Street desde o estouro da bolha da internet em 2000. Há uma lista extensa de empresas com planos de abrir o capital. Além dos casos dos aplicativos de transporte Uber e Lyft e da rede social Pinterest, que captaram US$ 8,1 bilhões, US$ 2,3 bilhões e US$ 1,3 bilhão, respectivamente, está na fila a empresa de coworking WeWork (rebatizada para The We Company).

A expectativa é que 2019 seja um dos anos mais marcantes no que diz respeito às empresas de tecnologia tocarem os sinos de Wall Street desde o estouro da bolha da internet em 2000.

Os números do Uber, que captou US$ 8,1 bilhões, são os que mais impressionam (positiva e negativamente). A empresa divulgou em seu prospecto de abertura de capital que 91 milhões de pessoas faziam ao menos uma viagem por mês no fim 2018. Seu faturamento chegou a US$ 11,3 bilhões, três vezes maior do que há três anos. Mas o seu prejuízo operacional também cresceu. Em 2017 e 2018, somados, a cifra negativa bateu na casa dos US$ 7 bilhões. No primeiro trimestre deste ano, o primeiro balanço desde a abertura do capital, registrou perdas de US$ 1 bilhão.

Os investidores castigaram as ações da empresa depois da abertura do capital, que chegaram a registrar queda de quase 20%. Na sexta-feira, 31 de maio, as perdas haviam sido amenizadas. Desde o IPO, o prejuízo para os investidores era de pouco mais de 10%.

A regra do jogo

Perder dinheiro, em geral, é comum para uma startup de tecnologia. A lógica dessa equação é simples. No começo do negócio, a companhia precisa focar em crescer sua base de clientes, aumentar sua penetração geográfica e melhorar o desenvolvimento de seus produtos. Por esses motivos, os investidores de capital de risco entendem que a melhor métrica para avaliar uma empresa tecnológica não deve ser a última linha do balanço. Foi assim que Microsoft, Google, Facebook e Amazon tornaram-se o que são hoje.

“Essas empresas precisam de capital para escalarem seus negócios e, então, atingirem lucro”, afirma Guilherme Horn, diretor de inovação da consultoria Accenture. “Mas não é qualquer investidor que enxerga valor em companhias que administram seus negócios sem olhar para Wall Street.”

Mas será que há um limite para até quando se deve perder dinheiro? A Uber está há dez anos no mercado e até agora não foi lucrativa. A Amazon demorou seis anos para dar lucro. Mas nesse tempo todo seu prejuízo somou “apenas” US$ 3 bilhões. O aplicativo de transporte americano, em apenas dois anos, perdeu mais do que o dobro da varejista de Bezos.

Os investidores de capital de risco entendem que a melhor métrica para avaliar uma empresa tecnológica não deve ser a última linha do balanço

Em seu prospecto de abertura de capital, de mais de 300 páginas, o Uber avisa os investidores que talvez jamais seja lucrativo. “Esperamos que nossas despesas operacionais aumentem significativamente em um futuro previsível”, avisou a companhia, acrescentando que “podemos não alcançar o lucro”. O rival Lyft fez um aviso semelhante aos seus acionistas. “Nós temos um histórico de perdas líquidas e podemos não ser capazes de alcançar ou manter lucratividade no futuro.”

Em 2018, a Lyft registrou prejuízo de US$ 911 milhões, alta de 32,4% em relação aos US$ 688 milhões de déficit em 2017. No acumulado desde 2016, as perdas somam US$ 2,3 bilhões. O que mais preocupa é que a própria companhia já admite que suas despesas vão aumentar em detrimento do lançamento de novas funcionalidades e da expansão dos negócios em mais mercados e que isso pode afastá-la ainda mais de números positivos.

Com 256 milhões de usuários, sendo dois terços mulheres, o Pinterest é uma plataforma de fotos que vende anúncios para empresas que desejam promover seus produtos nas buscas dos usuários. Deste lado, a esperança é de números melhores, baseados em resultados financeiros recentes. A companhia viu seu faturamento crescer 58% em 2018, chegando a quase US$ 756 milhões. Ainda havia prejuízo, mas consideravelmente menor. Em 2017, as perdas somaram US$ 130 milhões. No ano seguinte, US$ 47 milhões.

No primeiro trimestre deste ano, o prejuízo somou US$ 41,4 milhões, muito acima do esperado pelos analistas de Wall Street. A reação foi instantânea, com uma queda de mais de 15% nos papéis da empresa. Mesmo assim, eles estão cotados acima do valor do IPO, que foi de US$ 19. Na sexta-feira, 31 de maio, valiam US$ 25. No pico, já ultrapassaram US$ 34.

“Se essas empresas ainda não tiveram lucro, ao menos elas conseguiram números relevantes de crescimento nos últimos anos”, diz Kay. Os números empolgaram o mercado e os resultados na abertura de capital surpreenderam. Desde que soou os sinos de Wall Street, as ações subiram 57,1%, no fim de abril. “Esse é um indicador claro de que a empresa gera interesse no mercado”, afirmou Chris Larkin, vice-presidente da consultoria E*Trade Financial Corp, à agência de notícias Reuters.

O desafio da companhia fundada e comandada pelo americano Bem Silbermann é mais do que convencer acionistas de que seu negócio será rentável em breve. A luta é para sobreviver em um mercado em que seu maior rival é um gigante com mais de 1 bilhão de usuários, o Instagram. Vale lembrar que a rede social de fotos e vídeos que faz parte do Facebook já é conhecida por dificultar a vida de seus rivais – por mais inovadores que estes sejam. O Snapchat que o diga.

A lista de empresas que vão a bolsa neste ano inclui ainda o Slack, aplicativo de comunicação corporativa presente em mais de 600 mil empresas, e a empresa de coworking WeWork . Ambas, segundo seus prospectos entregue a Security Exchange Commission (SEC), o xerife do mercado de ações, são deficitárias.

O Slack, por exemplo, decidiu vender suas ações diretamente de seus acionistas aos investidores em um processo chamado de direct listing – similar ao realizado pelo Spotify, no ano passado. Em seu último exercício fiscal, o Slack registrou prejuízo de US$ 138,9 milhões. O montante é semelhante ao registrado no período anterior, quando somou US$ 140,1 milhões. A diferença, porém, é que o faturamento quase dobrou de um ano para o outro, passando de US$ 220,5 milhões para US$ 400,6 milhões. De acordo com a empresa, os números negativos devem-se aos “investimentos no crescimento do negócio para capitalizar oportunidades de mercado.”

Uma nova bolha?

Será que há risco de uma nova bolha de internet, como ficou conhecida a quebradeira generalizada de uma série de empresas pontocom no fim do século passado? “Em 1999, tudo o que um empreendedor precisava para conseguir financiamento era uma ideia e um nome com o sufixo ‘.com’”, diz Roger Kay, analista da consultoria americana Endpoint. “Como sempre, as pessoas acabam se esquecendo do que aconteceu e voltam a correr riscos.”

Um estudo realizado pelo professor americano de finanças da Universidade da Flórida, Jay Ritter, alerta para essa possibilidade e deixa os investidores com uma pulga atrás da orelha. Segundo a pesquisa, 84% das 38 empresas de tecnologia que realizaram seus IPOs em 2018 eram deficitárias no momento de suas aberturas de capital. A última vez que o percentual atingiu patamares semelhantes foi em 1999, quando 86% das 370 companhias que abriram capital tinham números negativos.

No mundo, estima-se, foram investidos US$ 1 trilhão em empresas de tecnologia nos últimos dez anos

As condições que levaram ao desastre de 1999, no entanto, não são exatamente as mesmas de 2019. Uma das razões é que o acesso a capital de investidores privados cresceu em uma proporção gigantesca nas duas últimas décadas. “A oferta excessiva de capital permitiu que muitas empresas empurrassem a suas aberturas de capital para frente”, afirma Pierre Schurmann, sócio do fundo de investimentos brasileiro Bossa Nova Investimentos. “Havia mais dinheiro no mercado para que elas financiassem seus negócios antes de se tornarem públicas.”

No mundo, estima-se, foram investidos US$ 1 trilhão em empresas de tecnologia nos últimos dez anos. Só o Uber, por exemplo, captou US$ 19 bilhões. A rival Lyft, por sua vez, levantou quase US$ 5 bilhões com fundos de venture capital. A rede social de fotos Pinterest, US$ 1,5 bilhão. E se há tanto dinheiro assim, o incentivo para gastar se torna proporcionalmente maior. A diferença é que antes elas só prestavam contas aos investidores privados. Agora, listadas em bolsa de valores, terão o escrutínio de todo o mercado.

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