Negócios

Agenda lotada: como os CEOs brasileiros gastam seu tempo?

Eles passam 11 horas no trabalho, usam com frequência aplicativos de mensagens e se dedicam mais a questões estratégicas do que operacionais. É o que revela um estudo exclusivo com 100 presidentes e funcionários do alto escalão de companhias como SAP, Ambev, Bradesco, RD e Coca-Cola

 

Esqueça a figura do super-CEO centralizador e distante de boa parte das demais áreas da empresa. Assim como a postura semelhante adotada por seus pares do alto escalão. Um novo perfil de gestão começa a ser visto nas salas e corredores das companhias, o que se reflete também em mudanças importantes na agenda desses executivos.

Esse novo contexto é o mote do estudo “Tração e Impacto na Agenda de Líderes Essenciais”, realizado pela consultoria Blue Management Institute (BMI) e cujos resultados foram antecipados com exclusividade ao NeoFeed.

Com foco em entender como as lideranças das empresas distribuem seu tempo, a pesquisa contou com a participação de 100 entrevistados, entre CEOs e executivos do alto escalão de 71 empresas brasileiras ou com atuação no País, como Cristina Palmaka, da SAP, Marcílio Pousada, da RD (Raia Drogasil), e Cesario Nakamura, da Alelo.

Entre março e maio deste ano, o levantamento ouviu ainda executivos de companhias como Ambev, Bayer, Raízen, Bradesco, Coca-Cola, Magazine Luiza, Unilever, JBS, GM, Roche, Ipiranga e IBM. Do total de participantes, 47% são da faixa etária entre 41 a 50 anos; 35% entre 51 e 60 anos; 14%, de 31 a 40 anos; e apenas 4% acima de 60 anos.

Dentro desse universo, um dos fatores que traduzem as mudanças desse cenário são os temas de maior relevância para esses executivos. As pessoas e os relacionamentos foram os únicos aspectos apontados por 100% dos entrevistados. Outros componentes em destaque foram cultura e organização, ressaltados por 96% dos participantes.

Cristina Palmaka, CEO da SAP no Brasil, que participou da pesquisa

“Há uma agenda de reinvenção nas empresas e na dinâmica de relacionamento com diferentes stakeholders que demanda outra abordagem, menos operacional e funcional. E mais estratégica e cultural”, diz Daniel Motta, CEO da BMI. Ele observa que esse contexto surge sob a influência de uma nova dinâmica de mercado, caracterizada por rápidas transformações e disrupções.

“Pela velocidade das coisas, as equipes cada vez mais têm autonomia na ponta, são multifuncionais e trabalham em formatos menos lineares e mais caóticos, como os squads”, afirma. “Por isso, cabe a essas lideranças uma dedicação maior a questões relacionadas ao alinhamento da cultura. O foco passa ser muito mais as pessoas e não os processos.”

Essa maior abertura para o diálogo também se estende para outras frentes. Enquanto a equipe consome 67,6% do tempo desses executivos, fornecedores, clientes, startups e outros parceiros concentram 23% dessa agenda.

Outro tema prioritário apontado no estudo chama a atenção, especialmente pelo fato dele compreender executivos extremamente sêniores: o desenvolvimento profissional, destacado por 92% dos participantes.

“Há uma necessidade de se reciclar e esses executivos estão cada vez mais voltando para alguma atividade relacionada à educação, seja ela formal ou não”, afirma Motta, que cita desde cursos regulares até viagens internacionais e inserções em ecossistemas de startups como exemplos dessa tendência.

Mais expostos

Os reflexos desse contexto mais dinâmico também alcançam as formas de comunicação com funcionários e demais stakeholders. O bom e velho “face a face” ainda predomina, com 98%. Assim como o telefone, com 94%.

Mas é nos meios eletrônicos, destacados por 84% dos entrevistados, que se percebem alterações mais significativas. “Existe um forte crescimento no uso de aplicativos de conferência e de mensagens, em detrimento dos e-mails ou mesmo de videoconferências mais robustas”, diz Motta.

Daniel Motta, CEO da BMI

Ao mesmo tempo, o uso de mídias sociais, como o Twitter e o LinkedIn, para dialogar com funcionários e o público em geral, ganha cada vez mais espaço. “Dada a dominância atual dessas redes, esses executivos que até pouco tempo eram mais avessos, agora estão mais expostos.”

Em contrapartida, Motta destaca que o estudo retrata a manutenção de alguns hábitos e aspectos menos condizentes com a realidade atual do mercado. As reuniões, por exemplo, ainda têm uma duração média de 1h18 minutos. “É uma forma ainda tradicional de trabalhar. De fato, é preciso um outro formato para dar conta de tantos temas”, afirma.

Na distribuição do tempo, 46% é dedicado ao trabalho; 27% ao sono; 21% à vida pessoal; e 7% aos deslocamentos. Em média, os executivos passam 11 horas trabalhando, 6,5 horas dormindo e reservam 5 horas para questões pessoais.

Já no ambiente de trabalho, 52,3% das horas são dedicadas à agenda planejada. Outros 25,8% envolvem desdobramentos importantes e 22%, temas urgentes.

Na transição para esse novo modelo, há outros elementos a serem considerados. Entre os participantes, 56% são homens e 44% mulheres. No entanto, se o estudo considerasse apenas os cargos de CEO, a proporção seria de 80% para 20%.

E, diante da busca por processos mais ágeis e da necessidade de inovação, Motta faz um contraponto com o fato de que boa parte das companhias tem reforçado o desligamento de executivos com mais de 60 anos de seus quadros.

“Há uma perda de conhecimento fundamental nessas práticas”, afirma. “São pessoas que ainda teriam um ciclo positivo de entrega muito relevante. E é de se pensar até que ponto essa estratégia é correta.”

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