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“Ainda temos uma lacuna muito grande no social”, diz CEO da Vale, sobre agenda ESG

Em mais um passo para reverter sua imagem e mudar suas práticas, a companhia anunciou a criação de uma diretoria-executiva dedicada integralmente à sustentabilidade. Mas ainda tem questões a resolver relacionadas a Brumadinho e aos riscos de suas barragens

 

Eduardo Bartolomeo, CEO da Vale

É fato que os princípios ESG (Enviromental, social and governance, na sigla em inglês) vêm ganhando mais atenção das empresas e de seus acionistas e investidores. Para a brasileira Vale, porém, essa agenda é muito mais do que uma tendência a ser considerada.

Entre novembro de 2015 e janeiro de 2019, a empresa expôs a urgência de priorizar o tema ao mostrar falhas graves nas três letras dessa sigla, com as tragédias de Mariana e Brumadinho (MG). Os dois incidentes causaram a morte de 289 pessoas, além de sérios danos ambientais.

Desde então, a companhia vem tomando medidas para reverter essa imagem e tentar mostrar que está mudando. A mais recente iniciativa veio à tona na semana passada, com a criação de uma diretoria-executiva exclusiva de Sustentabilidade.

“Brumadinho é a força motriz para a gente se transformar, mas é preciso fazer isso com inteligência”, disse Eduardo Bartolomeo, CEO da Vale, em conferência com analistas nesta sexta-feira, 26 de fevereiro. “Temos aprendido sobre o tema e começamos a ver a dimensão do que teríamos que fazer.”

Segundo o executivo, com mais espaço para essa agenda, a empresa entendeu que era preciso avançar. “Hoje, estamos bem encaminhados em algumas frentes, mas ainda temos, por exemplo, uma lacuna muito grande no social e no envolvimento com as nossas comunidades.”

Nos últimos quatro anos, esses temas estavam sob o guarda-chuva de Luiz Eduardo Osorio, diretor-executivo de relações institucionais, comunicação e sustentabilidade da Vale. A partir de agora, o executivo ficará concentrado nos dois primeiros temas.

Já as políticas de ESG estarão sob responsabilidade de Maria Luiza Paiva, que irá liderar a nova área, a partir de 15 de março. Ela foi diretora de responsabilidade da Suzano, entre janeiro de 2019 e fevereiro desse ano, e tem um longo histórico na área, com passagens ainda por empresas como Fibria e ABN AMRO Real/Santander.

Outro passo dentro desse tema trata mais da questão de governança corporativa. Está em fase de aprovação a proposta de ampliar o número atual de três membros independentes do Conselho de Administração da empresa para o mínimo de sete integrantes.

Entre outras questões relacionadas à ESG, em outubro, o Conselho da Vale aprovou uma nova política de barragens e estruturas que têm como uma de suas referências o Padrão Global da Indústria para a Gestão de Rejeitos, índice lançado em agosto, como uma resposta justamente à tragédia de Brumadinho e encampado por órgãos como o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

A Vale ainda tem, porém, um longo caminho para reduzir os riscos nessa frente. A empresa vem investindo na descaracterização de barragens construídas com os mesmos métodos da unidade de Brumadinho. Em 2020, por exemplo, houve avanços em unidades instaladas em cidades como Itabira (MG) e Parauapebas (PA).

Entretanto, atualmente, 32 estruturas ainda se encontram em nível de emergência. O plano da empresa é colocar todas essas unidades em condições satisfatórias até 2025.

Outro componente que ainda requer bastante atenção envolve os acordos individuais com as famílias das vítimas de Brumadinho. Até agora, a empresa diz ter destinado mais de R$ 13 bilhões para o pagamento de indenizações a mais de 9,1 mil pessoas.

Em contrapartida, a empresa vê como positivo o acordo fechado no início do mês com o estado, a defensoria pública e o Ministério Público de Minas Gerais, além do Ministério Público Federal.

Com um valor de R$ 37,7 bilhões, a ser aportado pela Vale, ele inclui frentes como o desenvolvimento de projetos de infraestrutura, de recuperação ambiental e programas de saúde e segurança.

Ao mesmo tempo, segundo a companhia, o acordo encerra todas as ações civis públicas e coletivas relacionadas ao caso. “Esse foi um grande passo”, disse Bartolomeo. “Agora, temos um impacto claro no nosso balanço, o que elimina as dúvidas sobre provisões e nos dá mais segurança jurídica.”

Balanço de 2020

Enquanto tenta convencer o mercado sobre suas ações em ESG, a Vale divulgou os resultados referentes ao quarto trimestre e ao ano passado.

A companhia fechou o último trimestre de 2020 com um lucro líquido de US$ 739 milhões, revertendo o prejuízo apurado um ano antes, de US$ 1,56 bilhão. No ano, o lucro líquido foi de US$ 4,88 bilhões, contra uma perda de US$ 1,68 bilhão, em igual período de 2019.

Mesmo com o bom resultado na última linha do balanço no quarto trimestre, a companhia informou que o desempenho nesse intervalo ainda foi impactado por maiores despesas relacionadas à Brumadinho, além de encargos com impairments de ativos, especialmente de carvão e níquel.

A receita líquida no quarto trimestre foi de US$ 14,7 bilhões, contra US$ 9,9 bilhões, um ano antes. Na mesma base de comparação, o indicador evoluiu de US$ 37,5 bilhões, em 2019, para US$ 40 bilhões no ano passado.

As ações da empresa estavam sendo negociadas com baixa de 0,75% na B3 por volta das 13 horas. A chegou a perder mais de R$ 78 bilhões em valor de mercado nos dias seguintes à tragédia de Brumadinho e, em fevereiro de 2019, recuou ao seu patamar mínimo, avaliada em R$ 213,2 bilhões.

Desde então, os papéis da Vale vêm em recuperação no mercado. Eles acumularam alta de mais de 62% em 2020 e, atualmente, a empresa tem um valor de mercado de R$ 484 bilhões.

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