Transformação Digital

Ana Botín, a todo-poderosa do Santander, no divã

Em uma conversa sincera com o CEO global do PayPal, a comandante do grupo Santander conta como foi influenciada pela mãe, fala da pressão de crescer numa família de banqueiros e avalia a transformação digital do banco

 

Ana Botín, a comandante global do Santander

A espanhola Ana Patricia Botín descende de gerações de banqueiros e, no comando do banco Santander desde 2014, consolidou a instituição como a maior da zona do euro. Não à toa, foi considerada pela revista Fortune a mulher mais influente do mundo dos negócios em 2019.

São raras as vezes em que ela se desvencilha da carapaça de comandante de um banco com 1,57 trilhão de euros em ativos e revela um outro lado. Pois isso aconteceu em uma conversa sincera com o americano Dan Schulman, CEO global do PayPal, que a entrevistou.

Como se estivesse num divã, a CEO global do banco, fundado por sua família há 168 anos, falou sobre o processo de transformação digital do Santander, citou o Brasil e revelou detalhes sobre o momento que que teve de sair da instituição financeira, em 1999, por ordem do pai, Emílio Botín (1934-2014).

Na época, esse episódio, diz ela, a aproximou da realidade das pequenas empresas ao colocá-la do outro lado do balcão, como empreendedora. Um choque de realidade para quem faz parte de uma das maiores dinastias bancárias do planeta e que, ao lado dos cinco irmãos, cresceu com a missão de um dia levar adiante o legado dos Botín.

A executiva foi criada em um ambiente de sucesso e de muita pressão. “Meu pai fazia parte da terceira geração à frente do banco, e minha mãe (Paloma O’Shea, uma pianista de renome na Espanha) sempre cobrou disciplina.” E prosseguiu. “Ela realmente nos pressionou muito em termos de aprender música, aprender idiomas.”

E é a disciplina que tem ajudado Ana Patricia, 60 anos de idade, a guiar o Santander na migração acelerada dos negócios de um tradicional banco de varejo para um perfil mais digital, a exemplo do que tem acontecido em todo o sistema financeiro com o crescimento das fintechs.

Essa tarefa tem sido impulsionada com a aquisição de startups, o que tem permitido ao banco avançar mais rapidamente em diferentes serviços. Hoje, contou a herdeira ao CEO do PayPal, 50% dos negócios do Santander têm como origem operações online.

Uma das empresas incorporadas à área de tecnologia do Santander foi a brasileira GetNet, adquirida em 2014, que atua na área de adquirência. Agora, revelou Ana Patricia ao CEO do PayPal, a empresa brasileira passa por um processo de internacionalização – um movimento que já tinha sido ensaiado pelos fundadores antes da venda para o banco espanhol.

Em abril deste ano, foi concluído o processo de aquisição da britânica Ebury, uma plataforma de pagamentos digitais que custou 400 milhões de euros ao banco. “Gosto de uma frase do meu pai e do meu avô. Os dois diziam que somos uma instituição que combina a sabedoria da idade e o espírito da juventude. É o que penso sobre o banco e a forma como vem competindo nesses 168 anos. Temos de ser capazes de inovar como uma grande empresa”, contou.

Aquisições e inovação

Ana Patricia admite que a tarefa não é fácil. Para tornar esse movimento mais suave, o Santander tem atuado tanto por meio de aquisições de empresas de tecnologia como com o desenvolvimento de soluções próprias ou com parcerias.

Foi assim com a GetNet e está acontecendo o mesmo com outra aquisição, a ContaSuper, que acabou se transformando na SuperDigital, que oferece conta digital, cartão pré-pago e está em fase de expansão na América Latina.

“Compramos pequenas empresas e as transformamos em franquias globais. Num caso como o da Ebury, colaboro com a minha base de 125 milhões de clientes e os deixo relativamente separados do banco, mas sob as regras de compliance e de regulação de pagamentos”, explicou.

Na conversa, a manda-chuva do Santander também destacou o papel dos pequenos negócios na economia. Ela, inclusive, citou uma história que se passou em Paulista, cidade da região metropolitana do Recife (PE). Quando Ana Patricia esteve no Brasil, ela conheceu uma empreendedora chamada Enis, que tinha uma pequena loja de roupas na periferia.

Ela comprou uma blusa da autônoma e ouviu um pouco da sua história. Graças ao dinheiro obtido ao longo do tempo por meio de dez operações de microcrédito, ela estava prestes a contratar o primeiro funcionário e planejava comprar um terreno e construir uma casa.

Apesar de ser um pequeno negócio, Ana Patricia pôde pagar sua compra com a maquininha de cartão. “É isso que chamamos de empoderamento financeiro (termo que ela prefere usar no lugar de inclusão financeira) e no que trabalhamos muito na América Latina, mas também em outros países.”

Cidadã do mundo

Aos 13 anos, ela saiu de uma pequena cidade no Norte da Espanha para estudar no exterior. Ao longo da vida, morou no Reino Unido, Áustria, Estados Unidos e Suíça. “Você tem de fazer novos amigos e se adaptar rápido, assim como temos de fazer todos os dias na vida profissional”, lembrou. Talvez isso pese na sua facilidade em olhar para os novos tempos do setor bancário.

Ana Patricia relembrou o momento mais difícil da sua vida e como foi influenciada a partir dali. Em 1999, o Santander havia anunciado uma grande fusão com o também espanhol Banco Central Hispano (BCH). Mas apenas um membro da família poderia continuar no comando, caso contrário o BCH não fecharia o acordo.

O temor era o de que os Botín controlassem a presidência executiva e a presidência do conselho de administração. Ana Patricia, portanto, teria de deixar o banco. Ela lembra até hoje a conversa que teve com seu pai. “Meu pai pediu para eu deixar o cargo. Não sabia o que fazer”, afirma.

A saída foi buscar novos horizontes. “Fui montar uma empresa de tecnologia para internet banking e criei duas fundações, uma no México e outra na Espanha. Me mantive ocupada por muito tempo. Se não fosse essa experiência talvez não fosse tão apaixonada por médias e pequenas empresa. Foi fundamental ter estado do outro lado do balcão como empreendedora.”

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